sábado, 10 de dezembro de 2022

Ascânio Seleme - Muda muito, muda pouco, muda tudo

O Globo

Não se via mudança mais aguda de governo desde 1985, quando José Sarney assumiu o lugar de João Figueiredo no Palácio do Planalto. Deixava então o poder o último general e assumia o primeiro civil desde o golpe de 1964. A troca agora, de Bolsonaro por Lula, tem uma dimensão ainda maior. Sai um extremista de direita e entra um político de esquerda. Mas o que parece à primeira vista um cavalo de pau de 180 graus, pode não ser bem assim. O que acontece é que muda tudo para não mudar muito. Ou para mudar pouco.Começando pela base que o novo governo está montando no Congresso, o que se enxerga é um amálgama multipartidário que pode se chamar de Centrão ampliado. Lula negocia com os mesmos parlamentares e partidos que emprestaram apoio a Bolsonaro nos últimos dois anos, ampliando sua sustentação pelos partidos de esquerda que formaram sua chapa vitoriosa. O presidente eleito governará com uma ampla maioria, mas ainda assim volúvel. Lula estará sujeito aos mesmos humores que Arthur Lira e sua turma demonstraram com Bolsonaro desde a posse do deputado na presidência da Câmara.

As relações intrínsecas que mexem com as engrenagens do poder permanecem exatamente iguais, sobretudo se o orçamento secreto for mantido, ainda que com algumas mudanças que o tornem mais democrático e transparente. O STF vai julgar na semana que vem o instrumento legislativo que usurpou poderes naturais do Poder Executivo, mas dar ao Congresso parte do Orçamento, menos robusto, mais transparente e com destinação mais bem orientada, poderia ser útil a Lula. Teria a mesma eficiência que o mensalão inventado por José Dirceu.

É verdade que o foco social do novo governo é inteiramente diferente do atual. Mas, se considerados os gastos excepcionais feitos por motivação eleitoreira nos meses finais da administração em curso, o alcance de medidas não será tão diverso. É claro também que haverá mais oxigênio para Educação, Saúde, Cultura e Meio Ambiente, setores agora negligenciados. O problema é a escassez de recursos que o governo Lula terá de administrar. Evidentemente haverá políticas e boa vontade em todas estas áreas, mas, em que pese a aprovação da PEC da Transição, com falta de dinheiro que ninguém espere por revoluções. O que se quer é fazer as coisas funcionarem outra vez.

Na economia tampouco o novo governo fará uma revolução. Não apenas porque não conseguiria avançar em razão de reações negativas intransponíveis que enfrentaria, mas porque não quer. Os petistas sabem que Lula não é Dilma. Ele não quer e nem precisa marcar posição. Seu objetivo é fazer um governo que dê certo em um país com crescimento econômico. Distributivista, sim. Foco nos mais pobres, claro. Mas responsável para ser perene, para durar.

O que muda mesmo, de fato e de maneira categórica, é o respeito pela democracia. Não que o PT não tenha lá seus cacoetes autoritários. Viu-se isso na tentativa de se estabelecer um certo controle externo da mídia, apelido inventado pelo ex-ministro Franklin Martins para a censura. Mas o ambiente político vai melhorar, sem qualquer dúvida. Termina no dia 31 de dezembro o estado de permanente beligerância do Executivo com o Judiciário. O perigo gigantesco de golpe que o país passou, antes e mesmo logo depois das eleições de outubro, deixa de existir a partir de janeiro do ano que vem.

O lado bom da história é que o Brasil torna a ser um país normal, com a transformação das suas políticas interna e externa. O Brasil volta a ocupar os espaços globais que havia perdido. Os homens e as mulheres que ocuparão os principais cargos políticos do país serão merecedores das atribuições que receberão. Os primeiros nomes anunciados para o Ministério (Haddad, Múcio, Lino, Vieira e Costa) não deixam dúvidas. Não teremos mais Frias, nem Farias. Nem Lorenzonis, nem Araújos. Nem Pazuellos, Queirogas ou Weintraubs. Nem Salles, nem Damares. O país se qualifica, como se qualificaria com qualquer outro presidente, fora Bolsonaro.

Golpe e cadeia

A prisão do ex-presidente do Peru, Pedro Castillo, é um bom exemplo do que pode acontecer quando alguém tenta dar um golpe em uma democracia. Um excelente recado para os patriotas que marcham enrolados em bandeiras diante de quartéis e para Bolsonaro, que faz muito bem em ficar calado. Vai para a casa com duas aposentadorias mais um salário do PL para fazer nada. Melhor do que ir para a cadeia.

Bolsonarismo se esvazia

Aos poucos o bolsonarismo raiz vai perdendo sua estatura. Os radicais são cada vez menos, embora ainda muito maiores do que eram nas manifestações de 2013, quando poucos gatos pingados portavam cartazes e faixas pedindo intervenção militar. O que se vê hoje nas portas de quartéis são os seus ideólogos rodeados de desavisados e malucos, gente que se deixa ingenuamente instrumentalizar. Os grandes nomes do grupo, que existiu com força até a eleição de outubro e seria perigoso se Bolsonaro tivesse prevalecido, se afastaram. O governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o deputado Arthur Lira já anunciaram que estão fora. O bolsonarismo raiz ainda tem quadros, mas é gente do nível de Roberto Jefferson, Carla Zambelli e de militares que ganharam boquinhas federais nos últimos quatro anos.

Haddad x reformas

Não vai ser fácil, já vimos antes. Mas Fernando Haddad entrará para a História se conseguir negociar e aprovar uma reforma tributária. A reforma que parecia mais fácil, a administrativa, se complicou diante do fortalecimento excepcional e imerecido que se deu aos servidores militares pelo governo Bolsonaro. Andar para frente agora vai exigir cuidados adicionais e tempo. Pode caber ao vice-presidente Geraldo Alckmin tocar esta pauta.

Lágrimas e mentiras

Todo mundo já escreveu sobre o choro do presidente em cerimônia militar. O colunista poderia até passar sem fazer qualquer menção, mas achou que ainda cabia uma última avaliação, que faz apenas reproduzindo texto do escritor Publílio Siro (85 a.C.), contida em sua obra “Sentenças”. Desconsidere o machismo ancestral da frase, pense nela como se fosse atribuída a qualquer gênero: “Mulheres (As pessoas) aprendem a derramar lágrimas de maneira a poder mentir melhor”.

Duda Salabert

Todos os parlamentares têm valor indiscutível, inarredável, irrevogável. Representam seus eleitores, o povo. Alguns, contudo, acrescentam mais para a cidadania do que outros. Muitos são especiais e merecem destaque. É o caso de Duda Salabert, vereadora de primeiro mandato em Belo Horizonte e deputada federal eleita em outubro. Professora, ambientalista e ativista, Duda é trans, uma das primeiras parlamentares trans da História nacional. Atacada e ameaçada por seguidores dos filhos de Jair Bolsonaro nas redes sociais, Duda foi demitida da escola em que trabalhava. Na semana passada, numa entrevista ao jornal Estado de Minas, Duda disse o seguinte: “Estou na política, mas sou professora. E reconheço que meu papel em sala de aula é muito mais importante do que meu papel no espaço legislativo. No espaço legislativo eu crio leis, e em sala de aula nós criamos consciências. E o que muda o mundo não são novas leis, mas novas formas de pensar o mundo”.

O poder em pompa

Recebi um livro quase biográfico de Francisco Dornelles, um dos poucos governadores do Rio que não foram presos ou legalmente impedidos de continuar no cargo desde Anthony Garotinho. Escrito pela jornalista Cecília Costa, o livro conta etapas importantes da sua vida a partir de depoimentos do próprio biografado. O título “O poder sem pompa” faz justiça a Dornelles, um político brilhante mas de hábitos modestos, embora lembre episódio antagônico de seu tio Tancredo Neves contado por Fernando Henrique Cardoso. Eleito pelo colégio eleitoral de 1985, Tancredo acabou não conseguindo vaga para FH, então destacado senador por São Paulo, na montagem do Ministério. O presidente inventou então um novo cargo parlamentar, o de líder do governo no Congresso, que se somaria aos dos já existentes líderes na Câmara e no Senado. Ao comunicar a decisão a FH, Tancredo perguntou onde seria o seu gabinete. O senador disse que não precisaria mudar, continuaria despachando da sua sala no Anexo I do Senado. O presidente eleito o interrompeu e disse: “Nada disso, Fernando, você precisa de um gabinete maior. O poder exige pompa”. O cargo inventado por Tancredo existe até hoje.

Golpismo radiofônico

Apesar da distância que cada vez mais separa o bolsonarismo raiz da realidade, ainda tem gente fazendo radiofonia pró-golpe.

9 comentários:

Anônimo disse...

"O lado bom da história é que o Brasil torna a ser um país normal, com a transformação das suas políticas interna e externa"

De anormal para normal parece uma ciclópica mudança. E para melhor. Q bom!

Anônimo disse...

"Os primeiros nomes anunciados para o Ministério (Haddad, Múcio, Lino, Vieira e Costa) não deixam dúvidas. Não teremos mais Frias, nem Farias. Nem Lorenzonis, nem Araújos. Nem Pazuellos, Queirogas ou Weintraubs. Nem Salles, nem Damares."

Impressionante a má qualidade do ministério do boçal da República. Mas a frase seguinte faz muito bem a qualificação desse grupo insano:

"O país se qualifica, como se qualificaria com qualquer outro presidente, fora Bolsonaro."

De fato, o paspalho da República é tão ruim, tão despreparado q qq um fará melhor.
Seria cômico não fosse a destruição q o genocida implantou com ignorância orgulhosa.

Anônimo disse...

"O que se vê hoje nas portas de quartéis são os seus ideólogos rodeados de desavisados e malucos, gente que se deixa ingenuamente instrumentalizar."

Não são ingênuos. São estúpidos, burros mesmo.

Anônimo disse...

" O bolsonarismo raiz ainda tem quadros, mas é gente do nível de Roberto Jefferson, Carla Zambelli e de militares que ganharam boquinhas federais nos últimos quatro anos."

A q nível desceram nossos milicos. Nível do bob jef e da espanhola! Há q se esforçar muuuuuito.

Anônimo disse...

Acho que há ingênuos, sim, mas não devem ser a maioria. De qualquer modo, são quase todos milicianos bolsonaristas, antidemocratas e CRIMINOSOS!

Anônimo disse...

"Não teremos mais Frias, nem Farias. Nem Lorenzonis, nem Araújos. Nem Pazuellos, Queirogas ou Weintraubs. Nem Salles, nem Damares."
Será um governo com menos canalhas... E sem lobos e criminosos disfarçados de pastores!

Anônimo disse...

Haverá grandes mudanças no Executivo, mas o Legislativo pouco se altera... Lira e Pacheco continuam fortes e comandando, parlamentares bolsonaristas ainda são numerosos e importantes! Com este Congresso, o governo de Lula e dos seus ministros não será simples, e muitas mudanças terão que ser negociadas com o Congresso! Então, o tamanho das mudanças dependerá em parte do que o Congresso quiser ou priorizar!

ADEMAR AMANCIO disse...

Tem muita gente competente no Brasil.

Twitter @mestreandion disse...

Em primeiro lugar os investidos de autoridade no Brasil se emocionam quando encontram a visão da sua própria falta de educação.
A maioria da população escolhe o Político que lhes permitirá pecar mais mas há ainda uma ignorância generalizada que peca contra o espírito santo (imperdoável).
Os homens tremem ao saberem que comeu a mulher do capeta tentando se esconder na casa do capeta.
As Federações de Partidos serão a saída de alternação do chamado centrão a não ser as ideias de concenso vai lhes tirar do esfacelamento.
A quantidade de Ministérios deixa folgada a cúpula do Distrito Federal com uma Câmara Distrital estatutária , território que ainda não produz nada e que devido as grandes distâncias a serem percorridas sustenta a Petrobrás no consumo de combustível, concecionárias e construtoras em seus caríssimos Terrenos sem uma Constituição totalmente subsidiada por impostos pagos pelos Estados da Federação há 62 anos.