O Globo
Integrantes do Executivo imaginavam que Lula
poderia sair incólume, mas percepção difusa de escândalo também atinge o
governo e ajuda a explicar nova queda em pesquisas
O rastro de destruição deixado pela fraude do
Banco Master em Brasília é tão grande que é difícil, hoje, apontar quem tem
algo a ganhar com os desdobramentos do escândalo. Em maior ou menor grau,
perdem o governo, o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso e os partidos
políticos, de A a Z.
Num ambiente marcado por alta tensão, em que um Poder aponta o dedo para o outro para detectar culpas, omissões, relações com o esquema de Daniel Vorcaro e responsabilidade por vazamentos de toda natureza, o rombo provocado pelo banco e a demora em estancá-lo são um trabalho de muitas mãos, que deixará mortos e feridos pelo caminho em todos os campos agora que as investigações acontecem de forma desordenada, tamanho foi o afã de abafá-las.
O governo Lula erra por arrogância ou
ingenuidade quando imagina que poderá escapar incólume do tiroteio. A
narrativa, disseminada na Esplanada, de que o presidente mandou apurar tudo e
divulgar sem embargos, “duela a quem duela”, não resiste ao fato de, entre
aqueles cujo sigilo foi quebrado, estar um dos filhos de Lula, Fabio Luis Lula
da Silva, o Lulinha, personagem já conhecido de escândalos passados que
ajudaram a desgastar o PT de forma incontornável junto a parcela do eleitorado.
Não é só isso: diante da profusão de atores e
da complexidade de entendimento de uma fraude financeira sofisticada pela
maioria do público, tudo recai, genericamente, na “conta do governo”. O
"datapovo", aquela conversa rápida com motoristas de aplicativo e
outros prestadores de serviços, já é suficiente para detectar a percepção de
que, goste o Planalto ou não, o caso Master já está no colo de Lula e de que a
ideia de atirar detritos no ventilador alheio pode dar tão errado quanto o
recente oba-oba do carnaval.
As implicações, ainda não totalmente
mapeadas, mas já bastante sérias, de ministros do Supremo com o caso também
levam à associação imediata na cabeça do eleitor com o governo. O raciocínio —
do qual, aliás, compartilham vários ministros preocupados de Lula — é mais ou
menos assim: o STF que condenou Jair Bolsonaro de forma draconiana para ajudar
o PT está até o pescoço envolvido nessa falcatrua e trabalhando para blindar os
ministros a qualquer custo.
Negar essas implicações apenas porque são,
sim, simplificações por vezes toscas é ignorar a lógica mais básica da
polarização cristalizada que vigora no Brasil desde pelo menos 2018: a
narrativa antecede os fatos e, por vezes, os substitui em definitivo.
Os próximos passos dessa crise são
imprevisíveis porque as revelações de quem fez o que para permitir a
alavancagem do Master ir tão longe e a liquidação do banco demorar tanto ainda
estão só no começo. Agora que todo mundo resolveu investigar o caso, incluindo
duas CPIs e a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado — cada um com
interesses próprios e, diga-se, nem sempre republicanos—, vai sobrar para todo
mundo.
A alta octanagem explica atitudes como a do
presidente do Senado, Davi Alcolumbre, político conhecidamente centralizador e
cioso do controle que exerce sobre a Casa que comanda, mas que viu os rombos no
casco de seu navio se multiplicarem em menos de uma semana.
Até aqui, a sensação (errônea) de que há dois
escândalos “do governo” em curso — do Master e do INSS — tem ajudado na
consolidação de Flávio Bolsonaro como adversário de Lula. Mas até quando?
Planalto e PT reconhecem que comeram bola ao deixar Flávio correr sem marcação
na expectativa de enfraquecê-lo só quando a campanha começasse.
Com a abertura da caixa de Pandora que
soltará rachadinha, compra de mansão em dinheiro vivo e outros passivos dele,
as ligações de seus aliados próximos com a fraude do Master também começarão a
ser exploradas.
Ninguém conseguirá surfar nessa onda, e quem
tentar correrá grande risco de ser embolado ou até de se afogar.

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