sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Crise para além das eleições, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Serão necessários muita sabedoria e um governo enérgico para enfrentar o caos

Conversando com um amigo sobre o futuro, sem nenhuma pretensão de prevê-lo com rigor, afirmei que, infelizmente, as eleições deste ano não resolvem a crise que a democracia vive no Brasil.

Para começar, uma das instituições mais criticadas, o Congresso, deve emergir da disputa com uma configuração semelhante à que está aí. O mecanismo das emendas parlamentares, que hoje avançam sobre o Orçamento, não é apenas irracional e vulnerável à corrupção. Ele é uma garantia da continuidade de deputados e senadores.

Na verdade, é possível que o Senado se posicione mais à direita ainda porque há uma estratégia de aumentar o número de senadores para solucionar outra crise institucional: a do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nesse caso, é uma tentativa de punição de alguns ministros pelo caminho do impeachment. Há outras propostas para tratar o caso do Supremo. Uma delas foi apresentada pelo jurista Walter Maierovitch, que propõe emenda constitucional para reformular a Corte, com mandatos de nove anos. O que fazer com os ministros que só se aposentariam com 75 anos? Seriam colocados em disponibilidade. Iriam para o banco, para usar uma linguagem de futebol. Emenda constitucional dessa envergadura só seria apresentada por um presidente que fosse muito forte e que estivesse disposto a comprar essa reforma.

Acontece, portanto, que tanto o Congresso quanto o STF são de difícil reforma e não podemos contar com isso para 2027. Resta indagar se as eleições conseguem equacionar o problema da segurança pública no Brasil. Ele depende da conjugação das forças federais, estaduais e municipais. Isso pode ser conseguido por meio de emenda constitucional. E deverá ocorrer.

O problema, no entanto, é mais profundo. Como vencer as desconfianças entre as polícias locais e a Polícia Federal? Será preciso um intenso trabalho de articulação. Um trabalho desse tipo anda muito melhor quando orientado pelo presidente.

Lula é o favorito. Terá 80 anos ao vencer. Muitos questionam sua saúde para exercer um cargo desse tipo. Também já tive 80 anos e acho que ele consegue com os recursos que tem, superar tranquilamente esse obstáculo. Nessa análise, numa mesa de bar, simplesmente ignorei a idade de Lula. Minha pergunta não é se Lula terá saúde, mas se terá paciência.

Nesse terceiro mandato, já demonstrou uma ligeira fadiga com as articulações políticas, principalmente com deputados e senadores. A conjuntura internacional o empurrou para uma série de viagens pelo mundo. É necessária, porque a abertura de novos mercados, que era importante em si, tornou-se mais decisiva ainda com os rompantes de Trump.

Num mundo efervescente, as viagens devem continuar sendo um tópico importante na agenda. Muda-se de clima, vê-se um novo país, mergulha-se em nova cultura. Mas com o tempo, essas experiências tornam-se previsíveis, não tanto quanto uma conversa com deputados, mas com menos encanto do que agora.

Paradoxalmente, é possível que se tenha um presidente com menos paciência, num país mais complexo e nervoso, portanto mais impaciente. Chegará um tempo em que o presidente terá de tomar grandes decisões num país em crise. Alguns dos seus aliados podem avaliar a crise como estrutural e aconselhá-lo a dar passos para a frente, rumo ao socialismo. De qualquer forma, serão necessários muita sabedoria e um governo enérgico para enfrentar o caos.

Nesse momento da análise, o amigo lembrou que as eleições ainda nem começaram, que haverá alguns debates importantes, alianças surpreendentes, sem contar com o fato de que a popularidade de Trump está em declínio. Sim, esses fatores são importantes e pode ser que com outras variáveis mais confortáveis, Congresso e STF consigam celebrar um imenso acordo que garanta sua sobrevivência sem sobressaltos. E o presidente eleito tenha apenas de tocar o barco, aparando uma ou outra aresta, empurrando com a barriga as questões insolúveis até agora.

De qualquer forma, será necessária muita paciência. Um cenário de monotonia não costuma ser frequente no Brasil.

Enquanto nada disso acontece, não há outro caminho, exceto lutar por um Congresso melhor, enfatizando a importância de uma boa escolha. E também lutar pela transparência em escândalos como o do Banco Master. É importante saber quem se envolveu, políticos e juízes. A verdade é que tudo o que sabemos sobre Dias Toffoli nos deixa mais confusos ainda: como é possível que se faça tudo que ele fez e não aconteça nada? Aí voltamos à crise do próprio STF, que se tornou uma Corte insustentável.

Vamos votar num presidente sabendo que não terá dinheiro para realizar seu programa. Com todos os senões, vamos adiante. É o que nos resta.

 

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