sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Os mais iguais, por José de Souza Martins

Valor Econômico

Privilégios evidenciam a sobrevivência de arcaísmos dos tempos coloniais

“A revolução dos bichos”, de George Orwell, é um desses livros que a gente lê com a estranha sensação de que já o havia lido e até mesmo de que já esteve no lugar ali descrito e até presenciou os acontecimentos ali ocorridos. O livrinho trata do poder das entrelinhas e do avesso na edificação da lógica perversa e oculta da dominação política fora dos marcos da grande herança da Revolução Francesa.

A familiaridade que a leitura nos sugere dá a impressão de que Orwell esteve no Brasil (ou Brazil?). Não só a gente já viu isso, mas ainda está vendo.

Tudo começa com uma insurreição dos bichos da chácara de Mr. Jones. Preguiçoso e bêbado, ele descuidava dos animais e os maltratava. Os animais haviam espalhado que Major, um porco premiado, tinha tido um sonho que gostaria de contar a todos logo que o dono da granja fosse dormir. E começou: “Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes?”. Ressaltou as condições adversas em que viviam os animais: “A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua”.

Para encurtar a história, que é mera epígrafe, eles decidem se revoltar, expulsar o dono, mudar o nome da granja para dar-lhe um sentido social, revogar várias normas opressivas. Dividem o trabalho, reorganizam a sociedade.

Numa ampla parede do estábulo, lugar da reunião, um dos animais, que sabia escrever, anotou, em letras bem legíveis, sete mandamentos sugeridos democraticamente pelos animais. Tinham por referência avessa os homens e suas maldades. Uma espécie de constituição da sociedade que estava sendo criada pelos insurgentes.

O sétimo e último mandamento dizia significativamente: “Todos os animais são iguais”. Como no artigo 3º da Constituição brasileira de 5 de outubro de 1988: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...”.

Lá, tudo corria bem. Aqui, nem tanto. Os animais estavam felizes. Quase todos os animais foram alfabetizados. Talvez por isso aguçaram a sensibilidade, desenvolveram uma personalidade mais atenta e lúcida, chegaram ao pensamento crítico, que alerta contra a tirania e assegura a igualdade dos animais.

De repente começaram a notar que havia coisas diferentes do combinado. Um dia, ao voltarem do trabalho no corte do feno, perceberam que o leite havia desaparecido. Mais adiante, descobriram que estava sendo misturado com a ração dos porcos que agora administravam o novo país da igualdade. E foram notando que havia uma certa desigualdade na distribuição dos frutos do trabalho de todos. Aos poucos, justamente em nome dos valores dos sete mandamentos, grandes mudanças implantadas pelos porcos foram sendo feitas na granja, que voltava a ser basicamente a mesma da época de Jones.

Os mandamentos, interpretados pelo avesso, asseguravam privilégios aos porcos, para o fingimento de que, no formato imaginariamente invertido, serviam ao bom cumprimento dos valores sociais neles proclamados. Já aqui, avessos estão nas emendas constitucionais e nos penduricalhos. De modo que surgiram indícios e boatos de promiscuidade entre animais e homens.

Um dia os bichos resolveram conferir os mandamentos escritos na parede do estábulo para ver se as surpresas e apreensões resultavam de algo que lhes havia escapado quando os ditaram para que fossem escritos. Agora, havia um só mandamento: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais”.

Os bichos foram, então, conferir a notícia da convivência de porcos com os homens, “mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

Em dias recentes, notícias de corte de penduricalhos em vencimentos de servidores públicos em diferentes poderes chamaram atenção para o fato de que privilégios patrimoniais no serviço público evidenciam a sobrevivência de arcaísmos dos tempos coloniais, sem contar os inventados pela própria República. Com uma característica, ao que parece muito nossa. Tudo tem nome que disfarça o fato de que se trata de aumento salarial ilegal para alguns, mas não para todos.

Temos no Brasil indicações históricas da variação da categoria dos mais iguais. Como em “A revolução dos bichos”, ser mais igual não é para os ínfimos. Não é para os crédulos das procissões falsamente religiosas para viabilizar a ilegalidade de manifestações partidárias. Não é vestir cueca e calcinha de tecido verde e amarelo para fingir patriotismo e participar de demonstrações politicamente destrutivas, como a da intentona de 8 de janeiro de 2003.

É preciso ter poder e estar no poder para ser mais igual. Quando os animais descobrem, tardiamente, que não há diferença entre quem é gente e quem é porco, confirma-se o fato consumado que gente virou porco.

 

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