Folha de S. Paulo
País não cresceu na metade final do ano
passado, mas resultado foi bom, dadas as condições
Juros altos apenas não explicam padrão e
dificuldades do crescimento neste século
A economia parou
de crescer no segundo semestre do ano passado. Ainda assim, o PIB
(Produto Interno Bruto) aumentou 2,3% em 2025. Razoável. Entre a Grande
Recessão (2014-2016) e antes da epidemia (2020), a taxa média foi de 1,4% ao
ano.
A queda de ritmo em relação aos 3,4% de 2024 era esperada, dadas as taxas de juros e limites da capacidade de produzir. O consumo privado parou de crescer na metade final do ano, o que não anima o humor da população.
O que ajudou a economia a não andar ainda
mais devagar? A agropecuária contribuiu com 32,83% do aumento do PIB; a indústria extrativa,
com 15,27%. Ou seja, grãos, carnes, petróleo e minérios deram aquela força, 48%
da alta do PIB. Agropecuária
e indústria extrativa são menos de 11% do valor do PIB.
A indústria de transformação ("fábricas") deu contribuição negativa;
a construção civil, quase contribuição alguma.
O setor de serviços contribuiu com 52,42% do
crescimento de 2025. É de baixa produtividade média e enorme, 69,5% do PIB. No
entanto, note-se de passagem, está havendo um crescimento forte de serviços de
informação e comunicação: alguma atualização tecnológica ocorre por aí.
Dando uma olhadinha em história mais antiga,
agropecuária e petróleo se beneficiaram de anos de investimento (estatais, em
boa parte) em ciência, tecnologia e formação de pessoal. Faz 20 anos se
beneficiam muito do sucesso da China.
Para quem quiser pensar o longo prazo,
conviria prestar atenção a essa história de agro, petróleo, decadência fabril e
serviços.
Como aumentar a produtividade dos serviços,
muitos deles primitivos, "bicos", ou empresinhas sem capital,
crédito, trabalho qualificado? Por que falamos tão pouco de ciência, tecnologia
e formação e por que achamos que, assim, vamos ter ainda alguma indústria (ou
serviços mais produtivos)? Não vai dar certo.
Não vamos longe com uma taxa
de investimento de 16,8% do PIB, que foi a de 2025.
"Investimento", aqui, significa despesa em aumento da capacidade de
produção de bens e serviços: habitações, instalações produtivas,
infraestrutura, máquinas, equipamentos, tecnologia de informação etc.
A taxa de investimento no ano passado ou da
média do triênio 2023-2025 não foi pior apenas do que as de 2016-2019, de
depressão, considerados os dados para este século. Não vai dar certo.
Sim, juros prejudicaram fábricas e construção
civil em 2025. Mas, nos três anos de Lula 3, a contribuição da agropecuária e
da indústria extrativa foi de 28%. A parte das "fábricas" no avanço
do PIB nesse triênio foi de perto de 4%. Não é circunstancial, pois.
O nível de produção do agro é recorde desde
quando há dados comparáveis, segundo o IBGE (desde 1996). A indústria de
transformação está 16% abaixo do pico, do maior nível, no terceiro trimestre de
2008. Convém ressaltar: faz 17 anos. Não é circunstancial.
Afora os anos de recuperação da epidemia, o
aumento da renda (PIB) per capita no triênio Lula 3 foi o maior desde 2013.
Melhor, mas pouco, dada a nossa pobreza.
Consumo privado e do governo estão no pico da
série histórica desde 1996; o investimento produtivo, muito abaixo do pico de
2013. A taxa de poupança é muito baixa (aquela parte do PIB que não se
consome).
Há variação excessiva e ruim do crescimento
do PIB, em boa parte causada por inflações e altas (mais comuns) e baixas
irracionais do gasto público. Muito pouco do gasto dos governos vai para
investimento e ciência. Difícil.
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