The New York Times / Folha de S. Paulo
Ofensiva contra Teerã é chance de derrubar teocracia, mas carrega risco de colapso e fragmentação do país
Impacto econômico pode ditar ritmo, mas
guerra não deve obscurecer pressões sobre democracia nos EUA e em Israel
Para pensar com clareza sobre as guerras
no Oriente Médio é
preciso manter múltiplos pensamentos na cabeça ao mesmo tempo. É uma região
complicada e caleidoscópica, onde religião, petróleo e
política das grandes potências se entrelaçam em cada grande história. Se você
está procurando uma narrativa preto no branco, talvez seja melhor jogar damas.
Então, aqui estão meus quatro pensamentos sobre o Irã —pelo
menos por hoje.
Primeiro: espero que esse esforço para derrubar o regime clerical em Teerã tenha sucesso. É um regime que assassina seu povo, desestabiliza seus vizinhos e destruiu uma grande civilização. Não há evento único que faria mais para colocar todo o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança focada exclusivamente em permitir que o povo iraniano realize seu pleno potencial com uma voz real em seu próprio futuro.
Segundo: isso não será fácil, porque esse
regime está profundamente enraizado e dificilmente será derrubado apenas pelo
ar. Israel não
conseguiu eliminar o Hamas na Faixa de Gaza após mais de dois
anos de uma guerra aérea e terrestre implacável —e o Hamas está
logo ali ao lado.
Dito isso, mesmo que esse ataque
israelo-americano ao Irã não leve à revolta do
povo iraniano que o presidente Donald Trump pediu,
poderia ter outros efeitos benéficos não previstos, como produzir uma República
Islâmica 2.0 muito menos ameaçadora para seu povo e vizinhos. Mas também
poderia resultar em perigos não previstos, como a desintegração do Irã como uma
única entidade geográfica.
Terceiro: devemos lembrar que o momento do
fim desta guerra será determinado tanto pelos mercados de petróleo e pelos
mercados financeiros quanto pela situação militar dentro do Irã.
O Irã está à
beira do colapso econômico, com uma moeda que vale pouco mais que
papel de parede. A Europa tornou-se
muito mais dependente do gás natural liquefeito do golfo Pérsico para mover suas
economias, desde que eliminou gradualmente as compras de
gás natural da Rússia.
Uma explosão sustentada de inflação causada
por preços mais altos de energia irritaria a base de Trump, muitos dos quais já
não gostam de ser arrastados para outra guerra no Oriente Médio. Há muitas
pessoas que vão querer que esta guerra seja curta, e isso impactará como e
quando Trump e Teerã negociarão.
Quarto: não devemos deixar que esta guerra
para trazer democracia e Estado de Direito ao Irã nos distraia das ameaças à
democracia e ao Estado de Direito representadas por Trump nos
EUA e pelo primeiro-ministro Binyamin
Netanyahu em Israel.
Trump quer promover esses ideais em Teerã,
mesmo enquanto seus agentes do Serviço de Imigração e
Alfândega (ICE) operaram por dois meses com pouca consideração
por restrições legais no meu estado natal de Minnesota e enquanto ele lança
ideias sobre restringir
quem pode votar em nossa próxima eleição.
Se a guerra no Irã permitir que Netanyahu
vença as eleições israelenses planejadas para este ano, será um grande
propulsor para seus esforços de anexar a Cisjordânia,
enfraquecer a Suprema Corte israelense e transformar Israel em um estado de
apartheid, o que seria um grande golpe aos interesses americanos na região além
do Irã.
A vida como colunista de opinião seria fácil
se toda guerra sobre a qual você tivesse que se posicionar fosse a Guerra Civil
Americana e se todo líder fosse Abraham Lincoln. Mas não são, então vamos nos
aprofundar um pouco mais nesses quatro pensamentos sobre o Irã.
Embora você nunca saberia disso se ouvisse a
esquerda universitária nos últimos anos, a República
Islâmica do Irã tem sido a maior potência imperialista na região desde 1979,
cultivando representantes para controlar quatro Estados árabes —Síria, Líbano, Iraque e Iêmen—
e minando reformistas liberais em todos os quatro ao promover divisões
sectárias.
Apenas o enfraquecimento
do regime de Teerã, graças aos golpes de martelo israelenses e
americanos nos últimos dois anos, levou à queda do
regime de Assad apoiado pelo Irã na Síria e permitiu que
o Líbano
escapasse do aperto da milícia Hezbollah apoiada
pelo Irã, o que por sua vez deu espaço para o governo mais decente do Líbano em
décadas —liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo presidente Joseph
Aoun. É por isso que a morte do
líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei,
está sendo celebrada silenciosa ou ruidosamente em toda a região.
Além disso, o povo iraniano está entre os
mais naturalmente pró-Ocidente da região. Se esse impulso puder emergir e se
espalhar, e substituir o veneno islamista radical e divisivo propagado pelo
regime iraniano, temos a possibilidade de um Oriente Médio muito mais
inclusivo.
Como o estrategista libanês-emiradense Nadim
Koteich me disse: Não é por acaso que um dos gritos mais populares dos
manifestantes antirregime no Irã tem sido: "Nem Gaza, nem Líbano. Minha
vida pelo Irã". Muitos iranianos ficaram enojados ao ver seus recursos
desperdiçados em milícias lutando contra Israel. Também não é por acaso,
observou Koteich, que o Irã acabou de
lançar foguetes contra aeroportos, hotéis e portos dos Estados
árabes do Golfo em modernização.
"Eles estão atacando a infraestrutura de
abertura e integração e os Acordos de Abraão —foi o velho Oriente Médio
atacando o novo Oriente Médio", acrescentou Koteich. A morte de Khamenei,
esperançosamente, "é a morte da ideia de Khamenei de que o Oriente Médio
deveria ser definido pela resistência e não pela inclusão e integração".
Esperançosamente, isso também acabará com o
jogo duplo praticado por Khamenei e seus predecessores como Mahmoud Ahmadinejad
—que serviu como presidente do Irã de 2005 até 2013 e também foi
morto em um ataque aéreo israelo-americano— de que o Irã tem o
direito de gritar abertamente "Morte à América" e "Morte a
Israel" e depois alegar que também tem o direito de ser tratado como
a Dinamarca ou
de enriquecer urânio para propósitos "pacíficos".
Trump e Netanyahu finalmente denunciaram esse
jogo.
Quanto à ideia de que o povo iraniano agora
se unirá e derrubará o regime, é difícil ver isso acontecendo tão cedo sem um
líder claro e uma agenda comum.
Os analistas iranianos com quem converso
dizem que o resultado mais provável é uma espécie de República Islâmica 2.0,
onde reformistas
proeminentes do regime —como Hassan Rouhani, que foi o sétimo
presidente do Irã, de 2013 a 2021, e tem sido um crítico cada vez mais vocal da
linha dura de Khamenei, ou o ex-ministro das Relações Exteriores e negociador
nuclear Javad Zarif— pressionem a liderança sobrevivente a negociar um acordo
com Trump.
Esse acordo poderia ser um que abandone
o programa
nuclear do Irã e aceite limites em suas guerras por procuração
e mísseis balísticos —em outras palavras, o que Trump quiser— em troca do fim das
sanções econômicas e da sobrevivência do regime.
Tal regime de República Islâmica 2.0 poderia
então ser capaz de supervisionar uma transição para uma verdadeira democracia
iraniana novamente. Mas Trump também poderia enfrentar acusações de jogar um
salva-vidas para um regime
moribundo que recentemente matou pelo menos 6.800 manifestantes, de
acordo com a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos sediada nos
EUA, e provavelmente muitos mais. Em outras palavras, começar esta guerra foi
relativamente fácil. Terminá-la não será.
Tal acordo pode ser tentador para Trump,
porém, para evitar uma guerra prolongada, uma recessão desencadeada por preços
de petróleo disparados ou a desintegração do Irã. É por isso que não fiquei
surpreso ao ouvir Trump dizer à The Atlantic: "Eles
querem conversar, e eu concordei em conversar, então estarei conversando com
eles".
No Oriente Médio o oposto da autocracia não é
necessariamente a democracia. Frequentemente é a desordem. Porque quando
ditaduras do Oriente Médio são decapitadas, uma de duas coisas acontece. Ou
elas implodem, como a Líbia fez,
ou explodem, como a Síria fez.
Os persas são apenas cerca de 60% da
população do Irã. Os outros 40% são um mosaico de minorias, principalmente
azeris, curdos, lurs, árabes e balúchis. Cada um tem ligações com terras fora
do Irã, especialmente azeris com o Azerbaijão e
curdos com o Curdistão. O caos prolongado em Teerã poderia levar qualquer um
deles a se separar e o Irã, na prática, explodir.
O Irã testemunhou o colapso de governos ou a
queda de governantes ao longo de sua história. Em todas as vezes, "o Irã
permaneceu intacto", disse Koteich. "Pela primeira vez não tenho
certeza de que permanecerá intacto."
Se você quiser ver petróleo a US$ 150 o
barril, esse tipo de desintegração iraniana o levaria até lá. As exportações de
petróleo do Irã de 1,6 milhão de barris por dia, que vão principalmente para
a China,
seriam completamente retiradas do mercado global de petróleo. Cerca de 20% de
todo o comércio global de petróleo passa pelo Estreito
de Hormuz, que o Irã pode fechar. As taxas de seguro para
transportadores de petróleo já estão disparando, e cerca de 150 navios-tanque
no Golfo estão supostamente paralisados.
Espero que até quarta-feira haja pelo menos
mais três pontos competindo na minha cabeça para fazer sentido de tudo isso,
porque este é o momento mais plástico e imprevisível no Oriente Médio desde a
Revolução Islâmica em 1979. Tudo —e seu oposto— é possível.

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