quarta-feira, 4 de março de 2026

O novo núcleo duro do Palácio do Planalto, por Fernando Exman

Valor Econômico

Expectativa é que a Esplanada dos Ministérios ganhe um perfil mais técnico

Acerca de um mês do prazo para que os ministros que pretendem disputar as eleições deixem seus atuais cargos, cumprindo assim as regras de desincompatibilização estabelecidas pela Lei Eleitoral, é possível prever que o governo passará por uma mudança na correlação de suas forças internas. Os ministros da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), Sidônio Palmeira, e o titular da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, passam a ser os veteranos do Palácio do Planalto. Na verdade, antes mesmo da saída de colegas de peso das alas política e econômica, os dois já demonstram crescente influência no processo decisório do chefe.

Não serão poucas as mudanças no governo. O Valor mostrou que pelo menos 20 dos 38 ministros deixarão o Executivo para concorrer a algum cargo eletivo ou, pelo menos, ter essa carta na manga mais à frente. Estão nessa lista, por exemplo, os ministros da Casa Civil, Rui Costa, o titular da Fazenda, Fernando Haddad, e a chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann. Outros ministros com relevante influência política, da esquerda à direita e sejam eles da área de infraestrutura ou da ambiental, também voltarão para a planície.

A expectativa é que a Esplanada dos Ministérios ganhe um perfil mais técnico, ainda que alguns personagens já despontem neste novo contexto com um lastro político que não pode ser desprezado.

Um exemplo é Dario Durigan. Secretário-executivo do Ministério da Fazenda e cotadíssimo para substituir Fernando Haddad no comando da pasta, ele já despacha com o presidente e tem sua confiança. Além disso, é frequentemente o representante do governo em delicadas negociações com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Como diz o diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Marcus Pestana, em 2026 a equipe econômica terá um desafio mais modesto, de administrar a boca do caixa, manter o foco “na gestão do cotidiano” e “no controle de sintonia fina sobre as receitas e despesas previstas” no Orçamento. Contornando riscos e ameaças mais graves, a meta acaba sendo perseguir objetivos menos ambiciosos em comparação ao ajuste estrutural que parece ser inevitável para depois das eleições.

Na Casa Civil, a gestão do dia a dia da máquina ficará a cargo de Miriam Belchior, hoje também na secretaria-executiva. Conhecedora profunda da burocracia, ela detém o lastro de quem já foi ministra e presidente da Caixa em administrações anteriores. Também possui linha direta com o presidente da República.

Sob Olavo Noleto, a Secretaria de Relações Institucionais ficará nas mãos de alguém que sabe manejar como poucos as emendas parlamentares ao Orçamento, instrumento estratégico para a articulação política com o Legislativo. O petista também adquiriu ao longo do tempo experiência na interlocução com Estados e municípios, algo sempre delicado em tempos de campanha.

Com o meio de campo arrumado, passa-se para o ataque e a defesa.

Boulos foi audacioso na semana passada, quando trabalhou pessoalmente para o presidente revogar o decreto que incluía três hidrovias na Amazônia no Plano Nacional de Desestatização (PND). Diferentemente do seu antecessor na Secretaria-Geral, não buscou intermediação da Casa Civil. Alertou Lula sobre os riscos envolvidos na ocupação por indígenas de várias etnias das instalações da Cargill em Santarém, no Pará, deixando para trás críticas da Casa Civil, do Ministério de Portos e Aeroportos, do Ministério da Agricultura e do setor produtivo.

Está sob seus cuidados, também, a negociação de duas importantes bandeiras do presidente para a campanha à reeleição: o fim da jornada 6x1 e a regulamentação do trabalho por aplicativo. O Palácio do Planalto trabalha para que as propostas sejam aprovadas ainda no primeiro semestre. A partir do segundo semestre, quando não puder mais circular pelas comunidades com o programa Governo do Brasil na Rua, sua missão será fazer o embate político.

Sidônio, por sua vez, trabalha nos bastidores. Costuma sustentar que o governo precisa sempre informar primeiro para ocupar o espaço do debate público, reduzindo assim a margem de atuação da oposição e o risco de acabar se vendo em uma posição defensiva. Quando isto ocorre, contudo, não demonstra apego e passa a defender internamente que o governo recue. Revogar medidas responsáveis por ruídos é melhor do que enfrentar um desgaste interminável. Ou seja, que se tire o tema da pauta.

Isso já ocorreu, por exemplo, recentemente com a revisão de parte do aumento do Imposto de Importação de vários produtos e daquelas regras de transparência para transações financeiras que visavam o combate ao crime organizado e acabaram inspirando “fake news” da oposição sobre o Pix.

Ainda não se sabe quando Sidônio deixará o governo para entrar de vez na campanha. Isso pode ser inevitável no segundo semestre, mas talvez seja possível adiar para o segundo turno. O que se dá como certo, contudo, é que até lá poucos ministros como ele e Boulos terão tamanha liberdade para despachar com o presidente e, na prática, ditar os rumos de um governo em que recuar muitas vezes é um método.

Nenhum comentário: