segunda-feira, 2 de março de 2026

Partiu Marcello Cerqueira, um sonhador, por Edmílson Martins de Oliveira*

Marcello Cerqueira partiu. Foi ver outras paisagens e encontrar velhos amigos de sonhos e de lutas. Está, certamente, no lugar com que sempre sonhou: um mundo de liberdade, paz e harmonia, fraterno, sem tirania, sem perversidade, sem ganância, onde só há eternidades.

Partiu ontem, sábado, 28 de fevereiro de 2026, e está, com euforia, participando da grande festa, organizada em sua homenagem, por muitos amigos e companheiros de luta, que já estão no país de eternidades.

Marcello viveu intensamente a vida aqui neste planeta. Lutou, com todas as suas forças, por um Brasil mais justo, por um mundo melhor, com igualdade e condições de vida justas para todos. Foi um sonhador e não estava sozinho.

Eu e o Marcelo conhecemo-nos e nos tornamos amigos desde 1978. Naquela ocasião, eu era candidato a deputado estadual e Marcello a deputado federal pelo então MDB.

Havia somente dois partidos: ARENA, que apoiava o governo da ditadura militar, e o MDB, de oposição. Nós militávamos no grupo chamado de “Autênticos do MDB”, que fazia a verdadeira oposição ao regime.

Quando um grupo de sindicalistas bancários e militantes de movimentos sociais da Igreja Católica lançaram-me candidato, alguns políticos da chamada esquerda acharam que ainda não havia condições de candidatura de um trabalhador a um cargo parlamentar. Mas eu e os companheiros que defendiam a candidatura sustentamos nossas posições e convicções.

O Marcello compreendeu nosso posicionamento e nos apoiou com muita firmeza. Fizemos campanha juntos. E a partir daí, estreitaram-se nossas relações de amizade. Foram várias as vezes que ele me telefonou depois de meia noite, e até na madrugada, para trocar opiniões e informações sobre as campanhas.

Marcello foi eleito deputado federal e fez um brilhante mandato, entre 1979 e 1982, defendendo os trabalhadores, os oprimidos e a redemocratização do nosso país.

Advogado de presos políticos e perseguidos pela ditadura, Marcello sempre se mostrou sensível e disponível à causa dos mais fracos. Foram muitos os perseguidos políticos que ele defendeu.

Marcello destacou-se como um exímio negociador, aberto ao diálogo e à convivência com os diferentes, valores necessários para um representante da sociedade no Congresso Nacional.

Quando deputado federal, presidindo a CPI que tratava de exilados e perseguidos políticos de ditaduras de países do Cone Sul, teve muitas conversas com diferentes autoridades civis, principalmente da Igreja Católica, como D. Eugênio Sales, então cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, que acolhia foragidos e perseguidos políticos.

Em 1996, minha filha trabalhava no TRE e, por causa de suas convicções políticas, estava sendo perseguida no cartório em que trabalhava e seria colocada à disposição da direção da entidade. Telefonei para o Marcello e perguntei o que poderia ser feito. Ele me disse: “Vamos resolver isso sem sangue”. Dois dias depois o problema estava resolvido. Eliane foi colocada em outro cartório.

Em 2004, escrevi o livro “Bancários- Anos de Resistência” e pedi ao Marcello que fizesse uma apresentação. Ele prontamente acolheu o meu pedido e fez um bonito prefácio.

Era assim o Marcello: amigo, solícito, disponível, sensível aos apelos humanos. Competente advogado e professor de Direito Constitucional. Escritor, com cerca de vinte livros escritos. São contos, crônicas e romances.

Completando minha homenagem a esse grande companheiro, transcrevo trecho do prefácio que ele fez para o meu livro “Bancários – Anos de Resistência”, escrito em 2003. Disse ele:

“A autobiografia é um gênero literário que, certamente, interessa à História. Marca o sentido de uma vida. Revela vocações. O presente trabalho insere-se numa ampla valorização da luta pela resistência democrática à ditadura militar, iniciada com o golpe de 1964 e recrudescida (recrudescer é tornar mais cruel) em 1969, com o golpe dentro do golpe, o Ato Institucional nº 5 e o Decreto-Lei 898, que agravou as penas já duríssimas da Lei de Segurança Nacional, cujos conceitos básicos remontam ao Código Penal de Roco, do fascismo italiano.

Edmílson Martins, filho de trabalhadores do campo, firmou-se, na cidade, como militante aguerrido-embora calmo e de trato ameno- e notável dirigente sindical. Relata a resistência do movimento sindical, especialmente dos bancários, à ditadura; homenageia os que tombaram, enriquece o livro com o testemunho de companheiros, alguns dos quais defendi como advogado de presos políticos, ofício que me ocupei durante todo o regime militar e que me fez testemunha da luta narrada, companheiro e admirador dos resistentes.

Em lance de historiador, sem que lhe falte a vivência do narrador combatente, Edmílson, desde logo, compreendeu que a resistência deveria se exercer, mesmo que dentro dos limites “permitidos” pela ditadura. Compreensão, entretanto, que não absolve os “colegas” bancários que serviram ao regime na grotesca intervenção no sindicato, após o golpe e mesmo depois da vitória de 1966 da oposição, impedida, então, de tomar posse por um pelego que ocupava as funções de delegado regional do Ministério do Trabalho”. (Marcello Cerqueira – Santa Teresa, 26 de agosto de 2003).

Vá com Deus, Marcello. Parabéns pela sua belíssima trajetória de vida e pelos bons serviços prestados à humanidade. Que Deus o receba de braços abertos.

*Ex-presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro

Nenhum comentário: