segunda-feira, 2 de março de 2026

O município é o protagonista, por Preto Zezé

O Globo

Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade

Em ano eleitoral, o foco se volta para políticas públicas concretas, e não apenas para candidatos. A intenção é analisar experiências que possam se tornar parte de uma agenda de Estado contínua, pois é no município que a política se torna realidade, impactando diretamente a vida das pessoas. O debate sobre desenvolvimento no Brasil, geralmente centrado em Brasília e nos estados, raramente considera o município como protagonista. Maricá, no Rio de Janeiro, desafia essa lógica.

A cidade usa os royalties do petróleo como ferramenta de reorganização estrutural, buscando se posicionar como centro de inovação social e econômica. Maricá desenvolveu o maior ecossistema integrado de políticas sociais do país, incluindo a Renda Básica de Cidadania (com a Moeda Social Mumbuca, que atende 32 mil famílias), a Tarifa Zero no transporte, o Restaurante Popular e o Passaporte Universitário.

O diferencial está na interconexão dessas políticas. A moeda social fortalece a economia local, a mobilidade amplia o acesso ao trabalho, e a educação qualifica a população. As transferências de renda são vistas como ponte para a autonomia, não como dependência. A estratégia reconhece a importância da economia informal e dos pequenos empreendedores, resultando na abertura de novas empresas e na busca pela diversificação produtiva, com projetos como o Porto de Maricá e o complexo hoteleiro Maraey, que somam bilhões em investimentos e preparam a cidade para o futuro pós-royalties.

A vitória da União de Maricá — que ganhou a Série Ouro e desfilará no Grupo Especial do Rio em 2027 — é exemplo do sucesso do investimento contínuo em cultura e economia criativa, gerando visibilidade, renda e fortalecendo a identidade local. O carnaval é tratado como cadeia produtiva, uma política pública bem-sucedida que projeta a marca da cidade e reforça o sentimento de comunidade.

Maricá investiu na integração com as forças policiais estaduais, no monitoramento por câmeras inteligentes e na regulamentação do porte de arma para a Guarda Municipal, tratando segurança pública como infraestrutura essencial ao desenvolvimento econômico. O turismo também foi reposicionado como política de Estado, com foco na diversificação e na inserção global.

A continuidade dessas políticas ao longo do tempo criou um ambiente de previsibilidade social e segurança jurídica, algo raro no Brasil. A população, o comércio e os investidores se beneficiam do cenário estável. Maricá funciona como laboratório de transição entre proteção social e desenvolvimento econômico, entre subsídio e crescimento.

Para construir uma agenda pública que realmente reduza desigualdades, é preciso olhar para as cidades. O futuro do desenvolvimento brasileiro pode estar mais próximo do municipalismo do que se imagina. Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade.


Nenhum comentário: