Folha de S. Paulo
Presidente pede ideias para mexer em imposto
de importação sobre compras até US$ 50
Estão em estudo também medidas de crédito
para caminhoneiros, taxistas e inadimplentes
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
pretende fazer algo a respeito da "taxa das blusinhas", o
imposto federal de 20% sobre importações no valor de US$ 50, regulamentado
em junho de 2024. A possível providência faria parte do jorro entre apressado e
improvisado de medidas eleitorais. O governo está aflito com a inesperada baixa
extra do prestígio presidencial —inesperada ao menos para o governismo.
Pesquisas de opinião indicam que o tributo ficou atravessado na garganta do povo até hoje. Há revolta mesmo contra a fiscalização do Pix, medida técnica e meritória que, na propaganda mentirosa e esperta da direita, foi pintada em janeiro de 2025 como um primeiro passo para a tributação dessas transferências de dinheiro, que levaram o povo miúdo para o sistema financeiro.
É
preciso reconhecer que Lula não queria o imposto. A importação animada
de "blusinhas" era uma evidência indireta de como tudo é tão caro no
Brasil, este país de ineficiências econômicas grandes e tributos ruins e
injustos (muito imposto sobre consumo, pouco sobre a renda dos mais ricos). O
presidente aceitou a coisa a contragosto, para não arrumar encrenca com o
Congresso, já dominado pelo lobby de empresas.
Mexer de novo no imposto, no entanto, é
bagunça. Bagunça menor, dadas a desordem e a inconstância das políticas
econômicas no Brasil, dos aspectos mais limitados aos maiores (gasto, inflação,
juros). Esse tipo de remelexo compõe aquilo que se chama de insegurança
regulatória. As pessoas não acreditam, mas incerteza, inconstância, prejudica
investimento produtivo e contratação de trabalho.
"Eu pessoalmente, acho equivocado a
gente taxar as pessoas humildes", disse
Lula pouco antes de sancionar a lei, em junho. Em março, havia começado a
primeira baixa relevante da popularidade presidencial (que tombaria em janeiro
de 2025).
"Quem é que compra essas coisas de US$
50? A minha mulher compra. Falei com o Alckmin: a sua mulher compra. Falei para
o Haddad: a sua filha compra, a sua mulher compra. Porque são coisas que estão
aí, baratinhas. Coisas para pintura, para cabelo", disse também
Lula, que
não raro associa compras a comportamento feminino. "Por que taxar o
pobre e não taxar o cara que vai no 'free shop' e gasta US$ 1.000?", disse
o presidente, com razão. Era uma entrevista à rádio CBN.
"Empresários precisam provar que isso
[prejuízo com importações de "blusinhas"] está acontecendo. Porque
essas coisas de US$ 50 vendidas nesses sites normalmente não estão nas lojas
que estão se queixando", disse ainda Lula.
Lula terá problemas com empresários, que já
se revoltam agora. Se conseguir mexer no imposto "das blusinhas",
improvável, talvez a mudança não chegue a tempo ou não convença o eleitor que
se virou contra o governo.
É o que se pode dizer do pacote eleitoral
inteiro. Lula
anunciou já mais crédito para o Minha Casa Minha Vida e menos juros
para o Reforma Casa Brasil. Pode vir mais crédito barato para a troca de
caminhões; para taxistas e motoristas de aplicativo; dinheiro ou garantias para
a redução de dívidas das famílias. Tenta-se inventar algum milagre para diminuir
o escândalo
da fila do INSS.
O pacote tem algum estímulo a mais para a
economia, o que não deve fazer lá pressão maior sobre o Banco Central, mas não
ajuda. No conjunto, são remendos para problemas largados sem reforma, por anos,
e causados por erros fundamentais de política econômica.
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