sexta-feira, 29 de maio de 2026

Intervenção americana como resgate da soberania, por Pablo Ortellado

O Globo

Ao pressionar Trump por intervenção contra facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir de Washington

A visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca foi interpretada como simples manobra para desviar a atenção do escândalo de suas relações com Daniel Vorcaro. Embora esse objetivo deva ser considerado, não se podia desprezar o motivo alegado: o pedido para que Trump classificasse organizações criminosas brasileiras como terroristas — como depois o Departamento de Estado anunciou.

Críticos têm apontado — com razão — que a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas ameaça a soberania brasileira. Com o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho incluídos na lista de organizações terroristas, os Estados Unidos passarão a poder aplicar sanções severas contra o sistema financeiro brasileiro caso instituições nacionais facilitem, ainda que involuntariamente, a circulação de capital ilícito. Os efeitos de uma medida desse tipo podem gerar isolamento econômico e abalo na confiança de investidores internacionais na rede bancária brasileira.

Ainda mais preocupante é o fato de a designação como organização terrorista pelos americanos poder autorizar, no limite, uma ação militar. Foi essa designação que, no caso do Cartel de los Soles, forneceu a base legal para a operação militar que invadiu e bombardeou a Venezuela, levando à captura de Nicolás Maduro.

Flávio e os bolsonaristas têm sido duramente criticados por terem insistido numa ação administrativa americana cujos desdobramentos podem colocar em xeque a soberania brasileira. Para sustentar sua posição, recorreram a uma manobra retórica.

Para eles, o Estado brasileiro foi capturado por grupos ideologicamente condescendentes ou incapazes de combater com eficácia o crime organizado. Em qualquer dos casos, a importação de força externa não representaria cessão, mas reapropriação da soberania diante de um Estado brasileiro fraco e ilegítimo. Em entrevista ao Financial Times em março de 2025, Jair Bolsonaro foi explícito: “Temos um problema de ditadura. O Brasil não tem como sair dessa situação sozinho. Precisa de apoio internacional”.

Essa é a mesma forma de pensar que levou Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos com o objetivo de pleitear sanções contra autoridades brasileiras com base na Lei Magnitsky, na expectativa de pressioná-las a libertar seu pai e outros presos do 8 de Janeiro.

Esse discurso também tem orientado os governadores de direita que, em conjunto, formaram um “consórcio da paz” para cooperação em segurança e passaram a tratar publicamente as organizações criminosas como “narcoterroristas”.

Reportagem de Malu Gaspar aqui no GLOBO mostrou que Cláudio Castro enviou documento à embaixada americana solicitando a classificação do Comando Vermelho como organização terrorista. No documento, o governo do Rio alega que “a crescente sofisticação, transnacionalidade e brutalidade do Comando Vermelho coloca a organização dentro dos critérios estabelecidos pelas autoridades dos Estados Unidos para sanções econômicas, designações terroristas e bloqueio de ativos”.

A estratégia, até agora, tem se mostrado surpreendentemente popular. Pesquisa da Quaest, divulgada pelo GLOBO, mostra que 72% dos fluminenses apoiam a classificação de organizações do crime organizado como grupos terroristas. Apenas 22% se dizem contra.

O argumento bolsonarista tem algo de oportunista, mas parece revelar uma convicção genuína. Para eles, a soberania nacional deixou de coincidir com o Estado brasileiro, e sua restauração depende de uma intervenção estrangeira. A inversão é notável num campo político historicamente nacionalista e só se torna inteligível quando os inimigos deixam de ser nações concorrentes e passam a ser internos.

Ao pressionar Trump por intervenção contra facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir de Washington. É o nacionalismo posto às avessas.

 

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