quinta-feira, 16 de abril de 2026

Os Cadernos do Cárcere de Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, por Marco Mondaini*

A terra é redonda

As cópias anotadas dos Quaderni del Carcere de Gramsci pertencentes a Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, descobertas na Unicamp, revelam ênfases distintas: o primeiro nos processos históricos europeus, o segundo na literatura e na práxis política

A descoberta

Tudo começou numa terça-feira, 17 de março, do ano em curso. Acabara de chegar à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para o início de um pós-doutorado junto ao seu Departamento de Sociologia, sob a supervisão do professor Marcelo Ridenti, que gentilmente me convidou a acompanhar uma visita guiada – com a sua turma de graduação da disciplina Pensamento Social do Brasil – à Coleção Sérgio Buarque de Holanda, na Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho.

Adquirida pela Unicamp em 1983, logo após o falecimento do autor de Raízes do Brasil, em 24 de abril de 1982, a coleção é composta por aproximadamente 10 mil volumes, dentro de um espaço que procura reconstituir o escritório de Sérgio Buarque, com a sua escrivaninha, cadeira de repouso e máquina de escrever.

A um certo momento da visita, nos agrupamos para ouvir uma apresentação sobre a história da coleção. Nesse momento, bem à frente de uma das inúmeras estantes que abrigam os livros do pai de Chico Buarque, deparei-me com os seis volumes da edição temática dos Quaderni del Carcere de Antonio Gramsci, em língua italiana: Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce; Gli intellettuali e l’organizzazione dela cultura; Il Risorgimento; Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno; Letteratura e vita nazionale; Passato e presente.

Tratava-se da oitava edição, publicada em 1966, pela Giulio Einaudi Editore, com capa dura, adquirida na Loja do Livro Italiano ltda., situada na rua Barão de Itapetininga, n.140 – loja 4, em São Paulo, conforme a indicação do carimbo no primeiro volume.

Tão logo retornei à casa do professor visitante, em seguida à aula do professor Marcel Ridenti sobre a obra de Sérgio Buarque, agendei o retorno à Coleção para consultar os seis volumes dos Quaderni, que havia folheado apressadamente.

Ao retornar à coleção na quinta-feira, 19 de março, os seis volumes já estavam dispostos numa mesa para a consulta. Porém, antes de começar a busca pelas eventuais marcações e/ou anotações deixadas nos Quaderni de Antonio Gramsci, pensei na possibilidade de, na Coleção Antonio Candido, que fica exatamente em frente à Coleção Sérgio Buarque de Holanda, também existirem os Quaderni do genial marxista nascido na Sardenha.

Ato contínuo, pedi aos sempre solícitos funcionários da Biblioteca Fausto Castilho se poderiam dirimir a minha curiosidade e, em poucos minutos, já estavam sobre a minha mesa cinco volumes da segunda edição (temática) de 1949 dos Quaderni de Gramsci, bem como os quatro volumes da edição crítica organizada por Valentino Gerratana, de 1975.

Adquiridos também, conforme o carimbo, na Loja do Livro Italiano ltda., quando esta se situava na rua Xavier de Toledo, n.57, em São Paulo, na Coleção Antonio Candido, não consta Il Risorgimento, mas sim o volume com as Cartas do Cárcere – Lettere dal Carcere.

Marcações e anotações

Ao folhear atentamente os seis volumes dos Quaderni da Coleção Sérgio Buarque de Holanda, dei-me conta de que, sempre com marca texto de cor limão (ou amarela), o historiador nascido em 1902 limitou-se a fazer marcações (não há registros de anotação) nos quatro primeiros volumes dos Quaderni, não havendo sinais de marcação em Letteratura e vita nazionale e em Passato e presente.

Já na Coleção Antonio Candido – doada à Unicamp pelas suas filhas em 2018 – para além de marcações a lápis, há inúmeros comentários, especialmente em Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno, tendo sido encontrado entre as páginas 28 e 29 de Letteratura e vita nazionale um extenso “fichamento” escrito em língua espanhola. Não foram localizadas marcações e/ou anotações em Gli intelletuali e l’organizzazione dellc cultura, Lettere dal cárcere e nos quatro volumes da edizione critica organizada por Valentino Gerratana.

Dito isso, merece ser sublinhado o fato de que apenas Il materialismo… Note sul Machiavelli… apresentam marcações/anotações de ambos os intelectuais.

Sugestões

Nas duas partes que virão na sequência da presente introdução, sem a menor pretensão de tirar conclusões sobre uma possível influência que a leitura dos Quaderni tenha tido sobre algum momento do pensamento e da obra de Sergio Buarque de Holanda e Antonio Candido, buscaremos apenas e tão somente sugerir as possíveis áreas de interesse, acadêmicas e políticas, reveladas pelas marcações e anotações dos dois intelectuais brasileiros nos Quaderni del Carcere de Antonio Gramsci, bem como inferir as motivações que os teriam impulsionado a ler a obra do fundador do Partido Comunista Italiano e o contexto histórico no qual realizaram tal leitura.

Nesse sentido, a sugestão aqui apresentada é de que as preocupações de Antonio Candido, na leitura dos Quaderni de Gramsci, por um lado, em termos acadêmicos, as reflexões carcerárias de Antonio Gramsci acerca da literatura e o nacional-popular, presentes em Letteratura e vita nazionale; por outro lado, em termos políticos, as discussões levadas a cabo por Antonio Gramsci nas prisões fascistas sobre práxis política, Estado, partido e revolução.

No que diz respeito à leitura realizada por Sérgio Buarque de Holanda, percebe-se uma ênfase nas notas de Gramsci de caráter histórico, presentes nos quatro volumes que apresentam marcações, sobre o Humanismo, Reforma, Contra-Reforma, Renascimento e o Risorgimento italiano, particularmente nas suas dimensões culturais.

Por razões que serão apresentadas nas duas partes subsequentes do presente artigo, podemos conjecturar que tanto Antonio Candido como Sérgio Buarque de Holanda entraram em contato com a obra carcerária de Gramsci na década de 1960, com o autor de Formação da Literatura Brasileira tendo lido os Quaderni del Carcere (muito provavelmente) antes que o autor de Visão do Paraíso.

Por fim, resta dizer que a transformação das sugestões feitas acima em hipóteses de pesquisa propriamente ditas exigiria um “desvio de rota” da pesquisa em curso no pós-doutorado recém-iniciado junto ao Departamento de Sociologia da Unicamp sobre os debates travados acerca da ideia de democracia como valor universal, na Itália e no Brasil, nas décadas de 1970 e 1980.

*Marco Mondaini, historiador, é professor titular do Departamento de Serviço Social da UFPE e apresentador do programa Trilhas da Democracia. Autor, entre outros livros, de A invenção da democracia como valor universal (Alameda) [https://amzn.to/3KCQcZt]

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