quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vantagens da oposição nas opiniões aferidas nas pesquisas, por Vagner Gomes*

A ninguém escapa a observação d’este facto curioso que toda oposição, por mais inexplicável, ou impura, que seja a sua origem, com o andar do tempo, vai gradativamente ganhando a simpatia pública. A meu ver, não é difícil encontrar a explicação de tal fenômeno. Pensam em geral que o público é oposicionista por índole. Mas não, o que o público é por índole, desde que não entre em questão o imediato interesse dos indivíduos que o compõem – é amigo da virtude, e, para mim, é regra que a oposição é virtuosa. Esta regra terá exceções, mas não deixará de ser uma regra.

Assis Brasil, Democracia representativa, 2022, p. 113¹

Não faltaram os avisos de que o atual incumbente presidencial não seguiu os caminhos políticos que o elevou ao terceiro mandato. A Frente Ampla foi assumida como uma tática eleitoral em 2022 deixando a cultura política da Aliança Democrática (vitória no Colégio Eleitoral em 1985) a intermitentes referências. A governança esteve “anos luz” de distância da política de Frente Democrática, portanto ela não está esgotada diante da política sectária de sobrevivência de uma máquina partidária que empurrou um senhor conservador filho de Dona Lindu a proferir opiniões de uma pluralidade de “bolhas”.

Por outro lado, a gestão equivocada da emergência da COVID-19 acabou por ser um fator definidor da derrota do então mandatário, que foi o primeiro Presidente a disputar uma reeleição sem ser vitorioso. Provavelmente, um “ajuste” com o respeito às determinações da OMS, que o levou a desgastantes conflitos com o governador de São Paulo, gerou uma queda decisiva na diferença de votos em 2022. Além disso, a determinação de muitos governadores pelo caminho da ciência se observou até no então governador de Goiás quando este disse: “Vírus não dialoga”.

No percurso dos estudos de nossa história republicana o pensamento político brasileiro nos ajuda a compreender os inúmeros cenários em que as pesquisas eleitorais indicam a manifestação de uma ascensão não consolidada de três prováveis candidaturas da oposição no segundo turno, todas com competividade para vencer. Os deslumbramentos daqueles que negaram a Frente Democrática por todo um mandato empurrou um governo com índices positivos na economia para as “cordas” em um momento de pré-campanha, ou seja, os palanques estaduais seriam redefinidos por esses indicadores como observamos no pragmático recuo da candidatura própria petista no Rio Grande do Sul.

Lições que impõem muita compreensão da grande política ultrapassando todos os limites. Seja observando melhor os números em Goiás ou nos tremores eleitorais das forças políticas municipais na Bahia ou Minas Gerais. Todavia, muito aquém do entendimento de que os partidos políticos ainda são elementos políticos existentes, o desenho político da candidatura governista se faz diante da desconfiança dos aliados, uma vez que houve uma sobrevalorização de quadros intermediários sem votos e qualidades nas funções de confiança. Enfim, aqueles que não receberam a confiança no momento de governar agora não confiam no momento de referendar o Governo para um quarto mandato.

Como escreveu Assis Brasil nos idos de 1893,

Uma filosofia muito leviana, que infelizmente inspira ao grande número, atribui à hipocrisia os verdadeiros arrancos de patriotismo com que tão comumente vemos, nas assembleias, homens marcados pelo estigma social lidando ardorosamente na defesa do bem publico. Eu vejo neles alguma coisa, senão mais respeitável, pelo menos mais natural: são instrumentos de uma função social. E, como o coração do homem é fundamentalmente bom, e o público, como tal, é um amontoado de homens desroupados de miseráveis interesses, esse publico está no caso de amar a virtude pela virtude e aplaude-a sempre, ainda quando a veja exercida pelo truão da véspera, transformado hoje em tribuno popular.  (BRASIL, p. 114)

A simplificação dos analistas pelo atalho da polarização política desvaloriza as alianças regionais e locais num mosaico eleitoral que sempre foi ora liberal ora conservador. Então, os tempos de um “parlamentarismo orçamentário”, a política de alianças ganhou maior relevância e temos que ter chefes da Casa Civil distantes do ressentimento em relação a 2016, porém testemunhamos reformas ministeriais que são ou para supostamente tentar afastar “crises” ou para nada de relevante manifestar com o eleitorado. Se a indicação da candidatura de Geraldo Alckmin foi uma segunda “Carta aos Brasileiros”, não observamos no horizonte tamanha ousadia mesmo diante dos acenos de algumas lideranças evangélicas que já estiveram no outro campo eleitoral. Não é o momento de preencher treads vistos pelos potenciais eleitores, porque o eleitor conservador precisa voltar. “O povo aplaude as bonitas ideias, porém maior é a força com que ama a sua comodidade. (…) A oposição sabe que o melhor meio de fazer odioso um governo é demonstrar que ele gasta mal, ou defrauda o dinheiro da nação.” (BRASIL, p. 114)

Se a minoria é liberal, não podemos desconsiderar as qualidades democráticas de amplos setores conservadores, que foram estigmatizados em muitos momentos e confundidos como linha auxiliar do extremismo de direita. “(…)Tomem-se para a patrulha oposicionista do congresso os conservadores e reacionários de mais dura crosta, e seguramente serão ardentes apóstolos de todas as liberdades.(…)” (BRASIL, p. 115). Portanto, as vantagens da oposição podem ser momentâneas se partir do ponto que falta à Frente Democrática para configurar uma comunicação política. No contrário, o vazio só afastará outros eleitores do campo democrático, uma vez que há uma ausência sobre a recomposição do centro político brasileiro.

¹ – BRASIL, Joaquim Francisco de Assis, 1857-1938. Democracia representativa: do voto e do modo de votar. Apresentação de Roberto Maynard Frank; prefácio de Jaime Barreiros Neto. Salvador: Tribunal Regional Eleitoral da Bahia- Escola Judiciária Eleitoral, 2022.

*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO e defendeu a dissertação de mestrado A Leitura do Brasil em Victor Nunes Leal no CPDA-UFRRJ.

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