Revista Veja
As falhas mudam rapidamente o comportamento
do eleitor
As eleições presidenciais brasileiras se assemelham a um eletrocardiograma alterado de um paciente cardíaco. Com súbitas variações inesperadas e transformações no comportamento do eleitor em intervalos curtos. Embora Lula e Flávio Bolsonaro mantenham competição equilibrada, a estabilidade é praticamente ficção estatística. Qualquer falha muda o ritmo da disputa que está submetida a vazamentos, delações e desdobramentos dos escândalos sob investigação.
Lula permanece como o favorito. Porém, está
dependendo mais dos erros da oposição do que de suas virtudes. A administração
enfrenta rejeição alta, existem problemas econômicos e um contexto
institucional tenso. Sua narrativa prossegue envelhecida e sua condução
econômica não anima quem produz e gera riquezas. Apela para a distribuição de
bilhões em bondades para se manter competitivo e neutralizar seus tropeços e
equívocos. O episódio do patético desfile de escola de samba no Carnaval
passado gerou irreparável desgaste junto aos eleitores de direita.
Durante certo período deste início de
pré-campanha, Lula parecia incapaz de confirmar a preferência que acompanha
governantes no exercício do cargo. Flávio
Bolsonaro, inversamente, crescia com discrição. Agia com cautela e chegou a
ocupar a frente nas estimativas de segundo turno. Contudo, por conta de
revelações bombásticas sobre o financiamento do filme sobre o seu pai, o
eletrocardiograma eleitoral acusou o ocorrido.
“O ensinamento continua: campanhas são
competições de erros. Vence quem comete menos”
A intermediação do candidato do PL junto a
Daniel Vorcaro para financiar a cinebiografia causou efeito imediato. A questão
é extravagante tanto pelo valor quanto pelo fato de o ex-banqueiro ser,
aparentemente, o único financiador do projeto. Custa crer que a campanha
bolsonarista não tenha imaginado que esse financiamento, à luz dos
acontecimentos do Banco Master no ano passado, poderia ser uma bomba-relógio
capaz de avariar seriamente seu projeto eleitoral. E as justificativas pioraram
a situação.
Na política, frequentemente o equívoco
inicial é menor que a tentativa inadequada de explicá-lo. Havia espaço para um
discurso menos inflamado, mais direto ou até mesmo assumindo o erro da escolha
do patrocinador. Mas a argumentação desenvolvida até agora não convenceu. Dado
o tamanho do problema, o dano para Flávio Bolsonaro poderia ter sido ainda
maior. Ainda assim, é significativo e, dependendo dos desdobramentos, pode
comprometer sua campanha.
O ensinamento continua tradicional: eleições
são competições de erros. Vence quem comete menos falhas. Presentemente, Flávio
Bolsonaro comete mais equívocos. No entanto, dada a rejeição elevada de ambos,
os erros de um não significam que a situação esteja definida a favor do outro.
É nessa instabilidade que uma terceira via, hoje praticamente inviável, sonha
em ganhar espaço, que pode ser criado pela fadiga do eleitor diante da
deterioração dos dois grupos predominantes da polarização política.
Considerando o carrossel de surpresas e revelações, tudo é possível.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996

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