CartaCapital
Apoiadores que ousaram criticar Flávio
Bolsonaro são triturados pela máquina de ódio da extrema-direita
Ninguém nasce odiando. O ódio é ensinado. A
extrema-direita foi além e colocou o ódio como um instrumento político, como
arma de mobilização.
Hoje, com as redes sociais, milícias digitais
assassinam reputações, assediam e transformam a vida de jornalistas,
acadêmicos, ativistas ou qualquer um que represente uma ameaça ao pensamento
reacionário.
Nos últimos dias, foi justamente, porém, a extrema-direita que descobriu a dimensão do seu próprio veneno. Em postagens, personagens ultraconservadores e que por anos têm promovido ideias golpistas e ataques contra a democracia foram alvos de ofensas abomináveis. A operação não veio da oposição. Quem liderou a tentativa de intimidação foi justamente uma ala da extrema-direita brasileira inconformada com o posicionamento dos ex-aliados e vozes que se apresentavam como as grandes referências do movimento autoritário. O motivo: terem ousado dizer o óbvio sobre Flávio Bolsonaro e suas mentiras cinematográficas.
Uma dessas vozes do bolsonarismo contou,
inclusive, como havia sofrido ataques por alguns que, antes, oravam por ele. E
chegou a questionar a fé desses “patriotas”. Só agora? E quando o ódio era
contra a oposição, a religiosidade deles estava intacta?
Depois de fazer listas de nomes a serem
banidos, defender atos antidemocráticos, conspirar e disseminar mentiras de
forma deliberada, executar reputações, destilar misoginia e intolerância, eles
realmente acreditam que, então, existe uma linha vermelha que não pode ser
cruzada?
Quando nações são consumidas pelo ódio, como
a Alemanha na década de 1930 ou o Sul dos EUA durante a segregação racial, o
resultado, invariavelmente, é a destruição da sociedade civil e sua
substituição por sistemas políticos, sociais e jurídicos baseados na violência.
Nos Estados Unidos, Donald Trump usou o ódio como ferramenta de campanha e mobilização. Vi
como comícios eram regidos pela construção do outro como uma ameaça. Os
mexicanos eram “estupradores”, enquanto o discurso desumanizador era usado para
descrever imigrantes, mulheres e oponentes políticos. Vi como aquela estratégia
eletrizava a plateia. O ódio é intoxicante. Ele reduz questões complexas a
simples dualidades baseadas na busca de bodes expiatórios entre os odiados. A
decadência econômica passa a ser culpa dos imigrantes, não da falta de
investimentos em educação ou inovação. A mudança cultural torna-se uma
conspiração das elites e alas progressistas. Os fracassos pessoais tornam-se o
resultado de um sistema supostamente manipulado.
O discurso do ódio é estrategicamente
planejado. Opera em conjunto com a desinformação, a vigilância e os ataques
técnicos para silenciar indivíduos específicos. É calculado, contínuo e
transnacional. Para esses grupos, o ódio não serve para expressar um
preconceito. Ele tem a missão de garantir o controle político sobre uma massa.
Esse discurso instrumentalizado por forças políticas funciona como um mecanismo
de governança. Normaliza a exclusão, asfixia a oposição pelo medo e cria uma
“espiral do silêncio” que elimina completamente as vozes críticas. Um genocídio
não começa no primeiro disparo, mas quando o ódio é autorizado, aplaudido e até
recompensado.
Vi nos Estados Unidos e no Brasil como ele
cresce quando as instituições democráticas são atacadas. Quando um presidente
diz que a imprensa é “inimiga do povo” ou sugere que as Forças Armadas devem
ser leais ao líder, não à Constituição.
Mas o ódio também é frágil. Sua utilidade
política contém, nela mesma, as sementes de sua própria destruição. A história
revela que movimentos construídos sob o ódio acabam se autodestruindo.
A Revolução Francesa devorou com suas
guilhotinas seus próprios filhos à medida que o fervor revolucionário se
transformava em expurgos internos. O macarthismo entrou em colapso sob o peso
de seus próprios excessos. A Revolução Cultural na China destruiu os líderes
históricos do movimento que, em 1949, chegou ao poder.
Como vemos entre os bolsonaristas, a paranoia
que alimenta os movimentos de ódio cria fraturas internas à medida que antigos
aliados se tornam novos alvos. E desmorona a coerência do grupo.
Talvez, nesse sentido, James Baldwin tenha
razão quando alerta que “uma das razões pelas quais as pessoas se apegam aos
seus ódios com tanta obstinação é porque pressentem que, uma vez que o ódio
desapareça, serão forçadas a lidar com a dor”.
Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.

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