O Globo
Entrada de Jaques Wagner na investigação tira
de Lula discurso de que governo e PT não têm nada a ver com o escândalo
Os novos capítulos da Operação Compliance
Zero espalham o rastro de desgaste do escândalo do Banco Master para
praticamente todo o sistema político brasileiro, tornando difícil quantificar
em que medida as candidaturas, sobretudo as presidenciais, serão abaladas pelas
revelações, que continuam se sucedendo em base diária.
Já era esperado que o caso atingisse o PT da Bahia, graças aos negócios da instituição comandada por Daniel Vorcaro com o governo do estado. O que não estava no radar com a força que emergiu nesta quinta-feira era a centralidade que seria conferida ao líder do governo no Senado, Jaques Wagner, um dos petistas mais próximos a Lula.
Os detalhes das investigações, tornados
públicos por decisão do ministro-relator, André Mendonça, revelam uma relação
de intimidade entre Wagner e a cúpula do Master, por meio do ex-sócio de
Vorcaro, o também baiano Augusto Lima — a quem, mesmo agora, o senador insiste
em chamar de Guga. As explicações esboçadas até aqui por Wagner parecem
capengas, improvisadas e, em alguns casos, sem pé nem cabeça.
A gênese das relações envolve a privatização
da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) em 2018 pelo governo estadual. A operação
foi destinada à criação do cartão Credcesta, produto de crédito consignado
voltado ao funcionalismo público da Bahia, depois ampliado para outros públicos
e para outros estados. A partir da análise de material obtido nas oito fases
anteriores da operação, a PF vê indícios de que Wagner fosse o “beneficiário
central” de um esquema envolvendo o pagamento de propinas e outras vantagens
financeiras em troca de atuação em favor do grupo.
Esse enredo aproxima a situação do PT da
vivida pelo Centrão e pelo bolsonarismo, grupos que já haviam aparecido como
beneficiários da “generosidade” de Vorcaro. Fica evidente que o banqueiro
procurou se cercar de pessoas-chave em todos os partidos relevantes no
Congresso, para expandir os negócios sem lastro de seu banco. Com Wagner no
mesmo barco de nomes como Davi Alcolumbre e Ciro Nogueira, fica difícil para
Lula sustentar o discurso segundo o qual ele e o PT não têm nada a ver com o
caso Master, como vinha fazendo.
É verdade que a presença de um parlamentar,
mesmo de primeira grandeza e umbilicalmente ligado ao presidente, difere
bastante da acusação que ainda recai, sem explicação, sobre o adversário de
Lula, Flávio Bolsonaro, flagrado pedindo (e recebendo) milhões a Vorcaro sem
intermediários para um projeto familiar, o filme sobre seu pai. Mas claramente
a direita ganhou um discurso para tentar diluir o desgaste que fez com que
Flávio patinasse nas pesquisas nas últimas semanas.
Tem sido comum a comparação do caso Master
com a Operação Lava-Jato, tanto pela ampla teia de corrupção sistêmica e pela
movimentação de bilhões entre público e privado quanto pelos questionamentos,
por parte dos citados e de juristas, dos métodos de investigação. Embora tenha
sido deflagrada em 2014, a Lava-Jato não foi decisiva na eleição daquele ano.
Foi a partir de 2015 que passou a sacudir o
sistema político, tendo forte impacto no impeachment de Dilma Rousseff, na
posterior queda do algoz da ex-presidente, Eduardo Cunha, na prisão e
inelegibilidade de Lula e em tudo o que se seguiu — e depois foi paulatinamente
anulado.
Foi na eleição de 2018 que os efeitos da
Lava-Jato se fizeram sentir de fato nas urnas, com a eleição do outsider Jair
Bolsonaro com base num discurso antissistema fajuto. Dificilmente o Master
produzirá um efeito arrasa-quarteirão como a Lava-Jato a partir de 2015. Mas
claramente será um assunto indigesto com que Lula, Flávio e o Centrão terão de
lidar.
André Mendonça já deixou claro que não
aliviará para ninguém. Mas é difícil saber se resistirá à pressão, que cresce
na mesma proporção da lista dos enredados com Vorcaro, para tirar o pé do
acelerador de olho no calendário eleitoral.

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