sexta-feira, 19 de junho de 2026

Três indícios de ‘acordão’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O ‘fator Wagner’ reforça as tentativas de um ‘acordão’ para replicar o fim da Lava Jato

Há três indícios de uma tentativa de “acordão” no ar, para livrar a cara dos alvos do escândalo Master: a resistência de Daniel Vorcaro em assumir uma real delação premiada, o voto do ministro Gilmar Mendes contra a prisão de chefões da quadrilha e o envolvimento de integrantes dos três Poderes e do Centrão, do bolsonarismo e, agora, da cúpula do PT, com as provas aterradoras contra Jaques Wagner.

O bolsonarismo usa Wagner para empurrar o Master para o colo do presidente Lula, já o PT contra-ataca com o áudio de Flávio Bolsonaro pedindo R$ 130 milhões para Daniel Vorcaro.

Os dois lados, porém, não têm interesse em ir a fundo nas investigações e na punição dos culpados. Como no próprio Congresso, quando os interesses são comuns, ou para se safar, todo mundo se une.

Quem sobra para impedir um “acordão” e garantir que se faça justiça, dentro da Constituição, das leis e das provas? Sobram as minorias no Judiciário, no Legislativo e no Executivo, que, mesmo em minoria, como no Supremo, têm uma poderosa aliança com PF, opinião pública e, enfim, a verdade.

O primeiro indício de articulação de um “acordão” é Vorcaro resistindo em fazer uma real delação premiada, única forma de não mofar na cadeia por décadas. Por quê? Porque tenta ganhar tempo para a “alternativa política”, com seus “irmãos”, “amigos” e favorecidos em geral se movendo para pagar o que lhe devem e salvar a própria pele.

O segundo indício é o voto derrotado de Gilmar, decano do STF, para trocar a prisão do pai e do primo de Daniel Vorcaro, Henrique e Felipe, por meras medidas cautelares. Como assim? A quadrilha que ambos integram vai além de desvios milionários e age como mafiosa, com armas, carros blindados, chantagens e ameaças de “moer” gente. Se não é ameaça à sociedade, é o quê?

A princípio incompreensível, o voto de Gilmar gerou interpretações. Estaria tentando (inutilmente, aliás) salvar o amigo Alexandre de Moraes? Temendo cair na rede? Ou, o que é mais provável, articulando um “acordão” no formato “técnico-jurídico” que aniquilou a Lava Jato?

Assim como o áudio de Flávio afetou sua candidatura e as revelações sobre Moraes e Dias Toffoli atingiram o Supremo, as provas muito claras e vergonhosas contra Jaques Wagner caem como uma bomba no governo e na campanha de Lula.

Até porque Wagner pode arrastar com ele o PT da Bahia e o também ex-governador do Estado Rui Costa, que foi chefe da Casa Civil de Lula-3. Ciro Nogueira, que ocupou o cargo com Bolsonaro, está com lama até o pescoço no caso Master. Costa, por ora, só é citado daqui e dali. Até quando?

 

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