quarta-feira, 8 de junho de 2016

Lula da Lapa - Rosângela Bittar

• Lula não está doente, apenas sem viço e abúlico

- Valor Econômico

O PT está dividido entre insistir na candidatura de Lula à Presidência, em 2018, para, quanto mais não seja, ao menos arrastar uns votos e eleger deputados, e apoiar um outro nome identificado com o partido. Considera o de Ciro Gomes, que acha corajoso para levar o PT nas costas, ou Marina Silva, mais equilibrada, que concilia o partido com a ética, porém mulher, gênero que depois do fiasco Dilma deve perder prestígio na política, especialmente nas primeiras eleições presidenciais pós impeachment. As duas alternativas são discutidas para a eventualidade de Lula livrar-se, como espera o partido, da Lava-Jato. Caso contrário não há o que conjecturar, terá mesmo só a opção de buscar nome em outro partido porque, no PT, não tem mais nenhuma alternativa.

O PT está dividido, também, entre os que têm certeza que Dilma não conseguirá voltar ao cargo, ainda que o impeachment não seja aprovado, e os que acham que ela está virando votos à beça: já teria conquistado Romário e teria sido visitada umas quatro vezes por Cristovam, entre outros senadores menos visíveis. Se Dilma voltar ao cargo, Lula se elegerá, nas contas dos que puxam para o otimismo, e não voltando, tudo fica mais difícil, inclusive para o candidato que o partido vier a escolher em outra legenda.


Como se vê, a luz no fim do túnel focaliza Lula e Lula e mais Lula. Esbarra o PT, neste momento, porém, para levar adiante qualquer esperança no futuro próximo, no comportamento do ex-presidente. Ele está, na maioria das vezes e ao longo do dia, sorumbático, casmurro. Lula não está doente, não é por aí o problema. Apenas resiste a retomar o velho viço, está abúlico.

O Instituto Lula o deprime. Quando lá está só vê e ouve problemas. Dizem-lhe sobre prisões iminentes, delações abrangentes, é um deputado que telefona para falar do seu filho, outro que viu o avião para levá-lo preso. Sua mulher, dona Mariza, não havia mais ido ao sítio de Atibaia depois do mandado de busca e apreensão. Dias atrás chamou o filho Fábio e um dos sócios, Fernando Bittar, para voltar à casa. Encontrou seus pertences espalhados, gavetas retiradas dos armários pelo chão, a casa revirada. Voltou enfurecida, e o ex-presidente não foi poupado de cenas dramáticas. A cada menção aos filhos, inclusive no discurso da mulher, ele engole mais seco.

Parou de festejar a chegada de amigos ao Instituto, mostra-se apressado nos cumprimentos, quase formal. Antigos parceiros querem tirá-lo o máximo possível daquele ambiente de futricas e apreensão. Ele não teme ser preso, sabe que tanto ele, quanto Dilma, Antonio Palocci e Guido Mantega, para ficar em apenas quatro certezas, serão citados nas delações dos principais empreiteiros que doaram às campanhas políticas. Mas não suporta o clima, não consegue aceitar e levar vida normal.

Acham os amigos que o Instituto Lula, antes um lugar em ebulição, tem agora a paz de cemitério, e não pode ser seu ambiente preferencial. Deve sair mais, fazer mais agendas pelo Brasil afora.

Não se entusiasma nem quando lhe mostram que Dilma está viajando, falando às mulheres, reunindo-se com sindicatos, reagindo ao impeachment. Considera que ela está um ano e meio atrasada, e está comprovando na pele o que ele falava ao tentar emplacar no seu governo o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e sua trupe. Para Lula, é pela economia que o governo Michel Temer está fazendo a diferença, e nos últimos quatro anos Dilma recusou-se a aceitar sua sugestão para levar Meirelles à administração petista. Ontem mesmo, em almoço com a presidente afastada, analisou a performance da economia.

A chama se acende, no entanto, quando Lula é colocado em contato com grandes plateias, com seu público sindical, com os artistas. O Lula da Lapa não é novo, é um momento de volta do discurso antigo, animado, da provocação do Lula de sempre, da recuperação da embocadura. Comparam-no ao vagalume, apagado no Instituto, aceso nas reuniões das plateias favoráveis.

Na primeira manifestação pública a que compareceu após o impeachment, anteontem, na Fundição Progresso, no Rio, o Lula da Lapa disse que "Temer cortou até o almoço da Dilma". Uma frase que não serve à verdade dos fatos mas ao marketing, no melhor do arsenal de estilo lulista.

É essa verve que o PT quer levar o ex-presidente a retomar e não perder mais. Para isso, ele não pode frequentar o Instituto Lula.
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Quando a presidente Dilma Rousseff declarou seu desapreço aos delatores, estava fazendo evidente confusão entre os bandidos que colaboram com a Justiça para reduzir sua pena, uma iniciativa que agrada à sociedade porque desbarata mais rapidamente as gangues, e os antigos dedo-duros, amigos pertencentes às mesmas facções da luta política que entregavam seus pares por não suportar a tortura.

Absolutamente nada a ver uma coisa com outra, mas a presidente misturou-os. Nem por isso, porém, se deve glamourizar, como se faz hoje, os delatores que colaboram com a sociedade para desvendar a ação das quadrilhas.

A delação premiada é um avanço na apuração de crimes de corrupção, principalmente da atuação de grupos, mas não se deve esquecer que o delator é também um criminoso. Ele vai se beneficiar com a redução de sua pena, mas não há razão para transformá-lo em herói, até porque não o é. É criminoso.
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Há algo em comum entre a intensa boataria sobre prisões iminentes de políticos, no fim da semana passada, e a notícia de ontem sobre o pedido de prisão dos políticos feito pelo procurador-geral Rodrigo Janot ao Supremo Tribunal Federal. A ligação é identificada por setores do Ministério Público que estão de pé atrás com a reação negativa de outros setores do Ministério Público à aprovação de investigações contra Dilma e Lula. Está claro que estão divididos e que Janot perdeu o controle da situação.

Janot estaria pendendo para um lado nessa disputa, exatamente o que quer desmontar a atual escalada do impeachment. Ou, então, não estaria com forças para manter as águas divididas porém cristalinas. Especialistas não reconhecem a marca Janot em alguns textos que tem assinado.

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