O Estado de S. Paulo
O confronto será, mais uma vez, entre dois
‘mitos’, o lulismo e o bolsonarismo, o que não deixará margem para conversas
sérias
Fevereiro teve carnaval durante o mês
inteiro. Sem que se saiba bem as razões, ampliaram o “tríduo momesco” para além
do calendário. Agora, há um pré e um pós. Patrocinadores e foliões adoraram,
mas muita gente reclamou.
Do outro lado da avenida, houve um desfile de sobressaltos e passos trôpegos. Nada de samba no pé. Foi um verdadeiro anticlímax, que estragou a festa de muitos graúdos.
Não se sabe por que a escola de samba
Acadêmicos de Niterói resolveu levar à avenida um enredo sobre a vida e a obra
do presidente Lula. Num ano eleitoral? Aceitemos que foi uma escolha espontânea
dos dirigentes da escola, indiferentes ao mundo imperfeito em que vivemos.
Afinal, é uma tolice querer colocar a arte a serviço dos objetivos imediatos de
um movimento político, atitude que desrespeita a própria natureza da expressão
estética. O governo e o PT acharam por bem deixar a banda passar, pois, numa
democracia, cada um tem o direito de fazer o que acha melhor. Ninguém percebeu
que a “exaltação da avenida” repercutiria negativamente e seria usada como
munição pelos adversários.
Não deu outra. O que esperavam os governistas
de um samba-enredo que canta “a família tradicional” dentro de uma lata de
conservas para satirizar o conservadorismo de católicos e evangélicos? Foi
preciso varrer para baixo do tapete o comprometimento de Lula com aquela
provocação.
O desfile aguçou a disputa que se avizinha.
Agora, os personalismos estão soltos: não teremos em 2026 uma eleição para
escolher um plano de governo ou um projeto para o País. O confronto será, mais
uma vez, entre dois “mitos”, o lulismo e o bolsonarismo, o que não deixará
margem para conversas sérias. Não haverá uma “esquerda” combatendo uma “extrema
direita”, nem uma ala “patriótica” voltada contra o “imperialismo”. Nem mesmo a
democracia será defendida ou atacada. Será um embate para definir quem tem
maior poder de conquistar os independentes, cerca de 30% dos eleitores que se
dizem nem lulistas, nem bolsonaristas. Segundo as pesquisas, esse contingente
tende para a centro-direita, mas é bastante heterogêneo em termos morais e é,
majoritariamente, hostil à política e aos políticos. Portanto, ao governo.
A baixaria está deslocando a política. Agora,
em vez de discussão, tem-se a troca de acusações. Em vez de ideias e
proposições, temos refregas para saber quem se saiu melhor numa exibição de
escolas de samba.
Fevereiro teve mais: a crise Master se
esparramou e derramou sujeira por todos os lados. Pôs no olho do furacão o
ministro Dias Toffoli, envolvido em relações suspeitas com o banco e seu dono,
Daniel Vorcaro. O ministro passou a meter os pés pelas mãos dia após dia,
envergonhando-se publicamente. Numa reação defensiva, o Supremo Tribunal
Federal (STF) afastou-o do caso, não sem antes enchê-lo de elogios. Foi uma
manobra tipicamente corporativa, conseguida graças a um fórceps, pois o
colegiado se dividiu. Em vez de tirar o Supremo Tribunal da crise, fez com que
ele mergulhasse nela de cabeça e corpo inteiro. Hoje, não dá para saber onde
esse mergulho vai nos levar. Mas dá para dizer que o STF está desgastado e o
tema da corrupção e da troca de favores entrou novamente na pauta.
Tudo somado, fevereiro não deu qualquer
indício de que será desatado o nó que asfixia o País. Seguiremos sem qualquer
agenda digna do nome. Está aí a miséria política e moral de nossas elites. Elas
atuam com a sensação de que o País, em sua superfície, está indo bem. O
silêncio que produzem só poderá ter como resultado a reprodução do que já
existe, sem qualquer passo à frente.
A indignação permanece suspensa no ar,
embalada pelos efeitos do caso Master. A rebeldia antissistema produz retóricas
inflamadas. Mas nada disso se converte em política democrática. No momento, as
vozes indignadas tanto podem dobrar à esquerda como à direita. As urnas dirão
quem vencerá uma disputa que promete ser sangrenta.
Por fim, fevereiro teve uma nota de tristeza:
a morte do cientista político José Álvaro Moisés, ocorrida no dia 13, aos 81
anos. Moisés teve uma carreira brilhante na Universidade de São Paulo (USP). No
início de 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT). Pouco antes
do governo FHC, junto com Francisco Weffort, afastou-se do partido. Weffort foi
ministro da Cultura, e Moisés dirigiu a área de política cultural. Ambos
passaram a fortalecer o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e se
tornaram críticos ao PT. Nos últimos anos, atuou como professor sênior no
Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), onde coordenou o projeto Qualidade da
Democracia e integrou o Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas (NUPPS), que
dirigiu por duas décadas.
Moisés atuava nos movimentos “Direitos Já!
Fórum Pela Democracia” e “Roda Democrática”, preocupado em viabilizar uma
frente política que clareasse o terreno da luta pela democracia, com seus
impasses, exigências e possibilidades. Uma de suas últimas atividades públicas
foi endossar o manifesto “Fortalecer o Diálogo para Aprofundar a Democracia”,
impulsionado pelo Instituto Ética e Democracia. Sua ausência no terreno
democrático será sentida demais.

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