quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Marielle e a cegueira da política, por Malu Gaspar

O Globo

Vivemos nesta semana um combo de fatos ao mesmo tempo históricos e simbólicos da tragédia brasileira.

Depois de uma novela criminal e jurídica que muitas vezes pareceu destinada a terminar sem solução, o caso Marielle Franco finalmente chegou ao fim, com a condenação dos acusados de envolvimento no assassinato da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes. Um ex-deputado federal e um conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro foram condenados a 76 anos de prisão por planejar e encomendar o crime. Um ex-chefe de polícia foi sentenciado a 18 anos por ajudar a acobertá-lo.

Nos oito anos que se seguiram aos tiros de submetralhadora disparados tarde da noite, no meio de uma rua do Centro da cidade, uma investigação foi manipulada para dar em nada, com provas destruídas e testemunhas plantadas. Esse enredo só se alterou com a mudança dos ventos na política, uma troca de governo e a entrada da Polícia Federal (PF) na apuração. Só então se chegou à delação premiada do assassino confesso, que até hoje muita gente acredita estar incompleta.

Nesse meio-tempo, Domingos e Chiquinho Brazão expandiram seu poder político e sua influência sobre o território da cidade, as milícias enveredaram pelo comércio de drogas e passaram a disputar áreas com o tráfico. A infiltração das instituições pelo crime organizado se agravou a ponto de termos um deputado estadual preso por envolvimento com o Comando Vermelho, numa operação que quase fracassou porque vazou, ao que tudo indica, pelo próprio desembargador encarregado de supervisionar as investigações.

Foi capricho do roteirista a votação do Projeto de Lei Antifacção no Congresso acontecer ao mesmo tempo que o julgamento se desenrolava no Supremo. Um acordo entre governo e oposição permitiu o bem-vindo endurecimento da lei para crimes cometidos por integrantes de facções, com dispositivos que vão do aumento das penas à permissão para bloqueio de bens e perda de patrimônio antes mesmo da condenação definitiva.

Na hora de aplicar o torniquete aos crimes do colarinho branco, porém, os parlamentares recuaram. O texto também previa o aumento das penas para organização criminosa em geral (e não apenas as classificadas como “ultraviolentas”) e para lavagem de dinheiro, além de atingir escritórios de advocacia e consultoria jurídica que hipotequem seus CNPJs a atividades ilegais.

Tudo isso foi convenientemente jogado fora pelo acordo entre governo e oposição, que também descartou a criação de uma taxa extra para as bets destinada a financiar o combate ao crime organizado. Banqueiros, empresários, políticos, advogados ou juízes que estejam envolvidos com organizações criminosas podem dormir sossegados porque sua vida não será alterada.

Esse resultado funciona como tapa na cara de quem pretendia comemorar o julgamento desta semana como avanço institucional.

Os arquitetos da morte de Marielle e Anderson só demoraram tanto tempo a ser descobertos, presos e condenados porque não andavam de arma em punho subjugando favelas, e sim nos gabinetes da elite política nacional.

No momento em que o Brasil se choca todos os dias com as revelações do escândalo do Banco Master, com as cifras bilionárias que o PCC movimentou por meio das corretoras da Faria Lima e por um esquema gigantesco de sonegação e adulteração de combustíveis, nenhum parlamentar, do governo ou da oposição, tem o direito de alegar ainda não ter compreendido que não adianta endurecer as punições para os soldados sem encurralar os chefões.

Ainda assim, governo e oposição se escoram um no outro para escapar da responsabilidade. A cegueira deliberada só serve a um propósito — e não é evitar que casos como o de Marielle se repitam.

 

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