O Estado de S. Paulo
Lula tem só decisões difíceis pela frente em matéria de eleições. E a inação, sua postura favorita em crises, não é uma opção.
Em boa parte a situação em que se encontra foi criada por ele mesmo. É a de julgar que ferramentas que funcionaram antes vão funcionar sempre. Os sinais de que as coisas não são mais como há 20 anos se acumularam, mas Lula insistiu em mais do mesmo.
Que é na sua essência o tipo de política
assistencialista populista que hoje está no cardápio de todas as colorações. Ou
seja, não é mais um “programa” que só se encontra em determinada prateleira (da
esquerda, por exemplo). E não há quem dispute eleições hoje sem apelar a essa
seção do supermercado do marketing eleitoral.
O fato de a eleição estar aberta para um Lula
que se acha imbatível deveria ser grave sinal de alerta para ele. Pois, embora
o saco de bondades e a gastança terem sido os instrumentos que avisou que
utilizaria (e Bolsonaro o ajudou a realizar o desejo antes mesmo de assumir),
sua estreita margem de vitória não se ampliou.
Ao contrário, mesmo com o gás do povo e a
isenção de IR, a diferença parece exígua e ameaçada, apesar dos graves erros
estratégicos de seus principais adversários. Pelas condições que Lula julga
normais de pressão e temperatura, ele já deveria estar com a eleição garantida.
Mas não está, a julgar por uma série de
pesquisas recentes que o colocam como muito competitivo, mas não como
imbatível. Isso se deve a um fator que ele jamais seria capaz de reconhecer.
Deve-se a ele mesmo, à fadiga de material que a figura política do presidente
representa.
O problema é o que fazer. Um outro sinal de
perigo para Lula é o fato – segundo as pesquisas – de que já não há um
“adversário ideal” a ser enfrentado com mais facilidade (mais de um pontua bem
no segundo turno). Lula lidera o “campeonato” da rejeição, algo a ser
considerado com muita gravidade quando se constata que as eleições, em boa
medida, são um plebiscito sobre ele.
Ele subestima também o peso que “valores” ou
“costumes” (chame-se como quiser) assumiram na formação da intenção de voto.
Que raramente é, diga-se de passagem, função de um só aspecto da realidade
percebida pelos eleitores. Outros aspectos, como a percepção de segurança
pública, corrupção e “podridão” do sistema político, se combinam com feições negativas
para o que Lula e PT representam em vastos setores da sociedade.
Talvez Lula pudesse ser ajudado, se tivesse
cuidado a tempo (coisa que nunca fez) de dois aspectos estratégicos que estão
no, digamos, “subconsciente” coletivo. Para onde vamos como país? E com qual
herança em termos de sucessores políticos de uma figura incontestavelmente
dominante nas últimas duas décadas e meia? •

Nenhum comentário:
Postar um comentário