Afinal, a economia é fundamental, mas não é
tudo. O ser humano não existe para servir aos números. O PIB não abraça filhos,
não participa de aniversários, não cuida da saúde mental e não devolve o tempo
perdido. Precisamos trabalhar para viver, e não viver para trabalhar.
O debate sobre o fim da escala 6×1, atualmente em discussão no Congresso Nacional, trouxe à tona uma questão muito mais profunda do que a simples organização da jornada de trabalho. O que está em jogo é a qualidade de vida de milhões de brasileiras e brasileiros que dedicam a maior parte de seus dias ao trabalho e dispõem de apenas um único dia para descansar, cuidar da casa, conviver com a família, resolver problemas pessoais e tentar recuperar as energias para recomeçar tudo novamente.
Os trabalhadores defendem a mudança porque
conhecem, na prática, o peso dessa rotina exaustiva. Diversos estudos e
reportagens apontam a relação entre jornadas excessivas e problemas como
ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outras doenças físicas e
emocionais. Não se trata apenas de cansaço. Trata-se de saúde, dignidade e humanidade.
Do outro lado, parte do empresariado e de alguns setores econômicos argumenta
que a mudança elevará custos, reduzirá a produtividade e afetará a economia. É
um argumento conhecido. Aliás, conhecido demais.
Ao longo da história, praticamente todo avanço
social enfrentou resistência semelhante. Foi assim com a abolição da
escravidão. Foi assim com a criação das férias remuneradas. Foi assim com o
décimo terceiro salário. Em todos esses momentos, ouviu-se a mesma profecia: “a
economia vai quebrar”, “os custos serão insuportáveis”, “a produtividade
cairá”. Mas a história mostrou o contrário.
Hoje, ninguém em sã consciência defenderia a
retirada das férias ou do décimo terceiro salário sob o argumento de aumentar a
competitividade econômica. Pelo contrário: esses direitos se incorporaram à
própria ideia de civilização, respeito e valorização do trabalho humano. Por
isso, talvez esteja na hora de ampliar o foco do debate. Além do PIB (Produto
Interno Bruto), precisamos falar também do FIB: Felicidade Interna Bruta.
Precisamos medir não apenas quanto o país
produz, mas também como vivem as pessoas que produzem essa riqueza. Precisamos
perguntar se os trabalhadores têm tempo para acompanhar o crescimento dos
filhos, praticar esportes, estudar, participar da vida comunitária, frequentar
espaços culturais ou simplesmente descansar sem culpa.
Um dia a mais de descanso não representa
apenas uma folga a mais no calendário. Pode representar mais saúde, mais
convivência familiar, mais oportunidades de qualificação profissional, mais
lazer, mais cultura e mais qualidade de vida.
E há outro aspecto frequentemente ignorado:
trabalhadores mais satisfeitos tendem a ser mais produtivos, mais criativos e
mais comprometidos. Empresas modernas ao redor do mundo já compreenderam que
investir no bem-estar das pessoas não é caridade, é inteligência empresarial.
A mão de obra não é um custo qualquer em uma
planilha. É um ativo estratégico. É o coração que movimenta a economia.
Valorizar quem trabalha não significa enfraquecer as empresas, significa
fortalecer a própria base sobre a qual elas se sustentam.
O Brasil do futuro não será construído apenas
com indicadores econômicos positivos. Será construído com pessoas saudáveis,
motivadas e felizes.
Por isso, parafraseando e invertendo a célebre
frase de James Carville (“É a economia, estúpido”), ouso afirmar: Não é apenas
a economia, estúpido. É a felicidade!
*Ex-prefeito do Cabo, Jaboatão e ex-Secretário Estadual de Justiça e Direitos Humanos

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