O Estado de S. Paulo
Incapacitado, Irã poderia conduzir guerra assimétrica, que incluiria ataques terroristas
O bombardeio lançado na manhã de ontem no Irã
por Estados Unidos e Israel tem escopo fundamentalmente distinto daquele
realizado na chamada “guerra dos 12 dias” em junho: desta vez, o objetivo não é
apenas conter os programas nuclear e de mísseis iranianos, mas criar as
condições para a população substituir o regime.
Trata-se de ameaça existencial, da óptica da teocracia em Teerã, à luz dos protestos de dezembro e janeiro, os mais contundentes desde a Revolução Islâmica de 1979, esmagados com o massacre de milhares de manifestantes. Os bombardeios visaram à decapitação do regime.
As agências estatais iranianas confirmaram a
morte do líder espiritual, Ali Khamenei. O presidente Masoud Pezeshkian também
foi alvo dos ataques.
DECISÃO TOMADA. De acordo com os mediadores
de Omã, que adotam posição de isenção, as negociações rumo a um acordo nuclear
estavam próximas de resultados significativos. Entretanto, como sugeri na minha
coluna do domi ngopassado , Donald Trump já havia tomado a decisão de atacar.
No dia 19, o presidente americano declarou
que esperaria entre 10 e 15 dias antes de se decidir sobre uma ação militar. Da
mesma maneira que, dia 19 de junho, também uma quinta-feira, ele se deu duas
semanas para decidir, e ordenou o bombardeio das instalações nucleares três
dias depois. Trump não é imprevisível. Ele apenas segue padrões próprios.
A campanha de agora tem como objetivo também
aniquilar a força naval iraniana, um dos principais vetores da deterrência do
país, ao lado do arsenal de mísseis convencionais, pois permite a negação do
acesso à sua costa e a ameaça de bloquear o Estreito de Ormuz, pelo qual
transita um quinto do petróleo mundial.
A China vinha negociando o fornecimento ao
Irã de mísseis antinavio hipersônicos, capazes de evadir as defesas dos grupos
de batalha dos porta-aviões Gerald Ford, o maior do mundo, e Abraham Lincoln,
mobilizados no Mediterrâneo para a campanha.
FUTURO DA GUARDA. Por outro lado, como também
escrevi aqui há uma semana, por mais abrangente que seja a decapitação, não
será suficiente para neutralizar o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, uma
força armada robusta e coesa, preparada para recompor a cadeia de comando, cuja
principal função é defender o regime e oprimir o povo.
À medida que os bombardeios degradem a
capacidade de ataque convencional do Irã, o país tem a capacidade, disposição e
expertise de incursionar em uma guerra assimétrica, que provavelmente incluiria
ataques terroristas. Os aliados dos EUA no Golfo, em especial Bahrein, cuja
população é de maioria xiita, estão vulneráveis a campanhas de desestabilização
de suas monarquias.
Os opositores i ranianos não estão armados para enfrentar o poder repressor do regime nem organizados e unidos para formar um novo governo. O cenário é de caos, no horizonte visível.

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