domingo, 1 de março de 2026

No Irã, na Venezuela ou em Cuba, terror e negociata são os objetivos da 'guerra de Trump', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ataque a iranianos não tem sentido ou fins claros, nem país era ameaça imediata

EUA trumpianos fazem extorsão e recorrem a bombardeios negocistas e impensados pelo mundo

Israel matou 3% dos palestinos e avariou ou arruinou 80% das construções de Gaza. Queria aniquilar o Hamas, que ainda está lá, depois de mais de dois anos de guerra e massacre. A situação política continua indefinida, embora o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) tenha decidido em 2025 que Gaza será até o fim de 2027 governada por um "Conselho de Paz" comandado por Donald Trump.

Ainda que falhe, mesmo barbarizando, a cúpula de Israel costuma saber o que faz ou quer. O que Trump quer no Irã? No discurso em que declarou a guerra, aliás ilegal, afirmou que quer acabar com o programa nuclear, mísseis balísticos e marinha do Irã. Que quer a queda do regime, tarefa que terceirizou para os iranianos.

Quanto ao mais, Trump pegou gosto por bomba e ameaças. De março a maio de 2025, atacou os houthis, do Iêmen (grupo apoiado pelo Irã), que atacam Israel e navios. Em dezembro, bombardeou a Nigéria, supostamente autorizado pelo governo nigeriano a atacar grupos islâmicos.

Desde 2025, afunda barcos de "narcoterroristas" no Caribe e no Pacífico. Neste ano, foi a vez da Síria. Estrangulou a Venezuelasequestrou Nicolás Maduro e mantém uma faca no pescoço da ditadura chavista, a quem dá ordens. Ameaçou México e Colômbia com ataques a "narcoterroristas". O próximo alvo é Cuba.

Trump quer dizer, enfim, que ninguém está seguro. Imagina que pode obter "deals" (acordos e negócios) com guerras em que americanos não morrem. O caso do Irã é mais enrolado.

O Irã é um país grande e ditadura enraizada, com vários centros fortes de poder: aiatolás, Guarda Revolucionária, tecnocracia e empresários que se dão bem no regime. Parte da população é religiosa e, como a elite ideológica, avessa a "valores ocidentais" e nacionalista. Apesar da revolta recente, não há oposição organizada. Os aiatolás preferem matar e morrer a fazer concessões.

Vitórias decisivas, quando há vitórias, ou rendições são mais e mais raras. Exigem destruição da força armada inimiga e da infraestrutura; morte ou cooptação de elites do poder (desfazimento do Estado). Os EUA fizeram algo assim no Iraque (2003), mas tiveram de invadir. O "Ocidente" fez em parte isso na Líbia e na Síria, deixando caos e barbárie, ou foi derrotado, como no Afeganistão.

Uma guerra decisiva toma tempo. No Oriente Médio, pode causar danos a interesses ocidentais, como no petróleo, embora o risco maior não se concretize desde 1979 (Revolução Iraniana). Apesar de tentativas, nunca houve o famoso fechamento do estreito de Ormuz (por onde passa um quarto do petróleo mundial transportado por mar).

Em 2019, um ataque de Irã e/ou houthis à Arábia Saudita arruinou a produção de 5% do petróleo mundial. O preço do barril subiu 15%, mas caiu no mês seguinte, pois os sauditas deram um jeito. Além do mais, a economia do petróleo mudou, com mais produção nas Américas. Mas ainda se trata de risco econômico, o mais temido por Trump.

A força militar do Irã vira pó com os ataques de Israel e EUA. Os iranianos não têm amigos que lhes deem dinheiro ou apoio militar (a Rússia é mui amiga, só). Ainda assim, não é difícil perder o controle da situação no Oriente Médio.

Trump quer mandar no mundo e arrumar negócio para si e compadres por meio de extorsão e ameaça de tiro. Em alguns casos, no curto prazo, funciona, como na Venezuela, talvez em Cuba. O resultado geral é insegurança, fragmentação política mundial perigosa e rearmamento.

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