O Globo
Ele embaralhou temas e falsas verdades,
desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos
Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.
O Grande Comunicador sabia ter em mãos um
trunfo que obliteraria a canseira dos presentes. Dois dias antes, o time
masculino de hóquei no gelo derrotara o arqui-inimigo Canadá de forma
espetacular em Milão-Cortina. Comemoravam o cobiçado ouro olímpico no vestiário
da Arena Santagiulia quando Trump adentrou a festança pelo celular do diretor
do FBI, Kash Patel, que atravessara o Atlântico para assistir à final:
— Inacreditável! Fantástico! Teremos o
discurso do Estado da União na terça-feira. Posso mandar um avião militar ou
qualquer outra coisa, se vocês quiserem. Vai ser a noite mais cool — convidou
Trump no viva-voz.
Na gravação que se tornou pública, ouve-se um
animado “estamos dentro” de alguém do grupo. O presidente, fiel a seus
instintos mais enraizados, ainda acrescentou uma gracinha que deve ter achado
espirituosíssima:
— Teremos de trazer também o time feminino,
vocês sabem. [Senão] acredito que provavelmente sofrerei impeachment —
acrescentou, gerando risos no vestiário em Milão.
O episódio diz montes sobre o que o ocupante
da Casa Branca realmente pensa das duas condenações de impeachment que sofreu
no primeiro mandato, mas foram rejeitadas pelo Senado. E abre um flanco a mais
na baixa aprovação junto ao eleitorado feminino e ao voto independente. Três
dias antes do ouro masculino, a equipe olímpica feminina dos Estados Unidos já
havia eletrizado o país vencendo de virada, também na prorrogação, a sempre
campeoníssima equipe do Canada. Na ocasião, não recebeu convite de Trump. Quando
finalmente recebeu, declinou polidamente.
Em entrevista à ESPN americana, Hilary
Knight, capitã da equipe vitoriosa, deu uma aula de civilidade. Com dois ouros
e três pratas olímpicas na gaveta, foi serena e classuda nas respostas. Alertou
sobre a situação difícil da equipe masculina diante da “vergonhosa piada” de
Trump, sem minimizar o “momentâneo lapso de julgamento” dos colegas olímpicos:
— É uma pena que essa história ofusque a
conexão e apoio mútuo que (as duas equipes) sempre mantiveram — disse a camisa
21.
Declarou-se orgulhosa da vitória masculina e
lamentou as duas equipes não celebrarem em conjunto. De quebra, confirmou com
alegria seu noivado com a patinadora de velocidade Brittany Bowe (mais de uma
dezena de vezes medalhista em mundiais) e informou que a comemoração pela
medalha terá local e data decididos pela equipe.
Da presença de Patel, ela certamente não
sentiu falta em Milão. O vídeo que vazou do diretor do FBI na euforia do
vestiário masculino — garrafa de cerveja numa mão e esmurrando a mesa com a
outra — foi a versão real do que parece ser uma fantasia trumpista. Na rasteira
do ouro de domingo, a página oficial de Trump publicou um meme dele dando as
tacadas finais contra o Canadá e, ao final, esmurrando um dos jogadores
adversários. O ideal olímpico da turma é MMA. Segundo explicações fornecidas a
posteriori, Patel estava em missão ao embarcar para Milão num jato da Força
Aérea: avaliar o papel do FBI na segurança dos atletas, reunir-se com seus
pares italianos e ouvir o embaixador americano na Itália. Beleza. Só que chegou
ao país faltando apenas três dias para o encerramento dos Jogos.
Não que lhe faltassem problemas agudos em
casa. Na mesma semana de sua escapadela, um homem armado tentara invadir o
resort de Trump em Mar-a-Lago e fora morto por agentes do Serviço Secreto; o
Departamento de Estado emitira um alerta a cidadãos americanos para a onda de
violência desencadeada no México pelos cartéis; o país acompanhava avidamente o
misterioso sequestro da mãe de uma apresentadora de televisão, com o FBI
tateando às cegas havia mais de três semanas. Sem falar no estado de combustão
permanente implementado pelos agentes do ICE no país.
Em seu discurso no Congresso, Trump adotou um
tom francamente mussoliniano ao anunciar a entrada da equipe olímpica:
— As pessoas me dizem o tempo todo, por
favor, por favor, por favor, não aguentamos mais vencer todas; até o senhor
chegar à Presidência, perdíamos todas... Então eu digo: “não, não, não”. Vamos
continuar ganhando grande, vamos ganhar tudo. Estamos ganhando tanto que não
sabemos mais o que fazer com tudo isso... e, para provar meu ponto, temos aqui
esta noite o time que dá orgulho à nação toda.
A ala republicana se pôs de pé e, entre
aplausos estrondosos, entoou “U-S-A, U-S-A”. Aos democratas, restou o silêncio
envergonhado de não ter contido antes o Grande Comunicador.

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