Folha de S. Paulo
Obsessão identitária vai destruindo extensas
bases sociais do Partido Democrata
"Eles varrem os restos da mesa como se
fossemos um cão treinado e dizem ‘isto é para você’. E aplaudimos como focas
amestradas." Assim, referindo-se ao Partido Democrata, LaPage Drake, um
negro do Texas de 63 anos, justificou sua intenção de voto. O eleitor faz parte
dos 20% de homens negros que, segundo uma pesquisa recente, preferem Trump a
Kamala Harris. No total, 15% do eleitorado negro americano pende para o
candidato republicano, o que pode decidir a contenda.
A larga vantagem histórica dos democratas
entre hispânicos e negros experimenta gradual erosão. Entre hispânicos,
reduziu-se de 73% em 2012 a 63% nesta pesquisa. A queda acentuou-se no
intervalo 2016-2020. Os negros seguem, com atraso, a mesma tendência. Há 12
anos, cerca de 90% deles sufragaram Obama; hoje, apenas 78% declaram voto em
Harris. A queda acentuou-se nos últimos quatro anos.
É um fenômeno aparentemente paradoxal pois, enquanto o Partido Democrata torna-se cada vez mais identitário, as duas minorias clássicas da política identitária afastam-se dos democratas. Pesquisas qualitativas esclarecem o mistério: os hispânicos e negros "dissidentes" explicam sua intenção de voto da mesma forma que os brancos da baixa classe média. Dizem-se frustrados com a economia, isto é, com as perdas de renda derivadas do surto inflacionário recente.
De acordo com a bíblia sagrada identitária,
hispânicos e, principalmente, negros, não têm o direito de compartilhar as
frustrações dos brancos. Seguindo o dogma, e rompendo com seu hábito de ouvir o
que as pessoas dizem, Obama encarregou-se de passar um pito nos homens negros.
Atribuiu as resistências a sufragar Harris ao pecado do machismo, classificando
como "pretextos" e "desculpas" a insatisfação sobre o
estado da economia.
O ex-presidente, um líder culto e refinado
que se definia como mestiço, costuma escapar à armadilha de avaliar os
indivíduos pela cor de sua pele ou, na triste tradição americana, pelo conteúdo
de seu "sangue". Mas, no caso, imerso na lagoa identitária de seu
partido, descartou a hipótese de que (apesar de Magritte) um cachimbo pode ser,
eventualmente, só um cachimbo. A repreensão aos homens negros, um gesto de
paternal arrogância, reflete uma crise política de largas dimensões, que
estende-se muito além dos EUA: os "progressistas" alienam-se da
realidade, substituindo-a por suas próprias ideologias.
É mais que a economia. Cerca de 47% dos
eleitores negros, homens e mulheres, ecoam a narrativa de que a criminalidade
nas grandes cidades está fora de controle, numa previsível reação à bandeira
tresloucada de "desfinanciar a polícia" erguida pelo Black Lives
Matter. Pior: 41% apoiam a ideia extremista de deportação em massa de
imigrantes ilegais. Em grau menor, os negros reproduzem a adesão dos brancos
pobres às narrativas da campanha de Trump.
Há 90 anos, na era do New Deal, o Partido
Democrata tornou-se o partido da classe trabalhadora. Há 60 anos, com a Lei dos
Direitos Civis, passou a monopolizar o voto negro. A obsessão identitária vai
destruindo suas extensas bases sociais. Os democratas converteram-se no partido
da classe média com diploma universitário das grandes cidades. Trump e seu
cortejo sombrio são os beneficiários da ruptura histórica.

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