O Globo
Apresentação de historiadora e cantora de
saia levantada e com palavrões na UFMA gera controvérsia
Na última quinta-feira, 17, uma performance
numa mesa-redonda sobre gênero e sexualidade na Universidade Federal do
Maranhão gerou grande controvérsia. Durante sua participação, a historiadora e
cantora Tertuliana Lustosa subiu na mesa e, enquanto rebolava, com a saia
levantada, apresentou um funk cujos versos diziam:
— Vou te ensinar gostoso dando aula na sua
pica. Aqui não tem nota, nem recuperação. Não tem sofrimento, se aprende com
tesão, de quatro e cu, cu, cu.
A apresentação de Lustosa, chamada “Educando com o cu”, defende uma abordagem educacional que valoriza o corpo e o prazer como instrumentos pedagógicos. O vídeo da performance viralizou rapidamente nas mídias sociais, gerando indignação. Afinal, a universidade pública pode abrigar ou apoiar esse tipo de manifestação?
A resposta breve para a pergunta é: sim, a
universidade é um ambiente onde uma apresentação assim pode acontecer. Sendo
espaço de investigação e debate, precisa poder explorar as possibilidades
abertas pela liberdade de expressão. Essa resposta curta, porém, não é mais
suficiente.
Esse episódio é apenas o mais recente de uma
série de controvérsias envolvendo o uso de universidades públicas para
performances de temática sexual e ativismo político de esquerda. A cada dois
meses, um novo vídeo viraliza no X, reforçando a percepção de que as
universidades têm deixado de ser locais de aprendizado e pesquisa para se
tornar palcos de ativismo político e comportamento permissivo.
Do ponto de vista dos atores que promovem
esses eventos, há grande interesse político em realizá-los. Os ativistas buscam
construir para si uma identidade como subversivos, portadores de uma verdade
ameaçadora para o patriarcado ou para a burguesia. A controvérsia, sobretudo
quando insuflada por antagonistas conservadores, coroa sua imagem como
anticonservadores. Quanto mais criticados, mais convencidos ficam da força da
sua subversão e mais argumentos têm para defender a centralidade da pauta na
luta “antifascista”. Trata-se, porém, de uma subversão cômoda, sem muitos
riscos, porque aplaudida pelos pares e respaldada pela instituição —uma
subversão sem ônus.
As instituições, em contrapartida, vivem um
impasse. Por um lado, precisam explicar à sociedade que esses eventos não são a
norma da vida universitária, que os bilhões de reais que a sociedade investe
nelas não são gastos com festa e doutrinação política, mas com formação
profissional e investigação científica. Por outro lado, precisam também
assegurar para a comunidade universitária que protegerão institucionalmente a
liberdade de expressão de ingerências e ataques externos.
Embora a liberdade de expressão seja
declaradamente um valor caro à comunidade acadêmica, ela não é plenamente
exercida, porque a universidade não é politicamente plural. A mesma comunidade
que tolera performances com temática sexual parece incapaz de lidar com grupos
de oração, não aceita a exibição de filmes conservadores e rejeitou abrigar um
debate entre candidatos à Prefeitura de São Paulo que incluía Ricardo Nunes.
Se a universidade fosse verdadeiramente
plural, refletindo a diversidade da sociedade brasileira, estaria preparada
para acolher debates com pautas de vanguarda da direita? Estamos prontos para
ser coerentes em nossa defesa da liberdade de expressão num contexto de
diversidade política e ideológica? Se aceitamos na universidade uma mesa de
debates com representantes do MST,
que ocupam terras improdutivas, estamos prontos a aceitar uma mesa de debates
com caminhoneiros que bloqueiam rodovias? Se aceitamos a performance “Educando
pelo cu”, estamos prontos a aceitar na universidade a performance de Nyedja
Gennari sobre aborto por assistolia fetal que causou tumulto no Senado?
Podemos retomar a pergunta: a universidade
pública pode abrigar uma performance como “Educando pelo cu”? Tenho duas
respostas. A primeira é: pode, mas apenas se estiver disposta a abrigar
expressões equivalentes que venham do outro lado do espectro político. Minha
segunda resposta é: nem tudo o que a gente pode, a gente deve. Apelando ao bom
senso, e não à censura, num momento em que a universidade tem sido
equivocadamente vista como espaço de proselitismo e libertinagem, financiados
com recursos públicos, seria realmente adequado abrigar uma performance desse
tipo num seminário acadêmico?

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