O Povo (CE)
Empresas privadas poderosas, com imensa
capacidade de lucro e influência, têm moldado sistemas políticos, impactado
eleições e transformado o trânsito dos valores na sociedade, redimensionando a
juventude e a tolerância com a violência
Durante a semana, uma entrevista com o jovem influenciador norte-americano Nick Fuentes viralizou nas redes sociais, alcançando milhões de visualizações não só nos Estados Unidos, mas em países do arco de influência da democracia americana, como o Brasil. Na entrevista, Fuentes é indagado: que direito retiraria das mulheres se tivesse a chance? Sem titubear, ele afirma que começaria pelo direito ao voto.
Trago esse fato porque ele é útil para
uma reflexão importante na conjuntura presente: a ascensão de valores e
ideias extremistas e conservadoras entre os jovens, especialmente entre os
meninos e rapazes. Trata-se de um fenômeno complexo, com variáveis múltiplas,
que desafia nossa interpretação e nossa capacidade de reação. Por que
os meninos têm se mostrado permeáveis a acolher uma visão de mundo tão
tradicionalista, de um exclusivismo patriarcal que, sem pudor, se mostra
disposto a negociar com conquistas históricas aparentemente já consolidadas,
como a cidadania política das mulheres?
O fenômeno não teria sido possível sem as
mudanças no domínio da comunicação de massa, e nesse sentido o lugar e o
formato das redes sociais deve chamar nossa atenção. As redes são
ambientes não regulados, a salvo de maiores controles estatais, e que se regem
pela lógica do lucro. Para fazerem sentido como produto, as redes precisam
captar a atenção e o tempo dos usuários, criando um ciclo de dependência
difícil de romper.
Esse vínculo alimentado por algo que, na
juventude, é fundamental: o senso de pertencimento a um grupo.
Criadas para produzir câmaras de eco, em que apenas pessoas parecidas e com
interesses afins se encontram e se comunicam, as redes favorecem a reprodução
de ambientes onde os limites se tornam cada vez mais tênues, onde a
divergência, a diversidade e o confronto perdem espaço. Estando a salvo da
crítica, nomes como os de Nick Fuentes se consolidam como referências de
aconselhamento e opinião, multiplicando o alcance e a disseminação de ideias
indefensáveis.
A adolescência, assim como a infância, é uma produção histórica,
é moldada pela cultura, pelo ambiente, pelas estruturam do mundo. Nada pode ser
mais vital do que o modo como nos comunicamos e temos acesso às informações
sobre o entorno. Essa percepção deveria colocar no centro do debate público uma
discussão prioritária: a regulação das redes sociais e o controle
social das big techs.
Empresas privadas poderosas, com imensa
capacidade de lucro e influência, têm moldado sistemas políticos, impactado
eleições e transformado o trânsito dos valores na sociedade,
redimensionando a juventude e a tolerância com a violência. Nada pode ser mais
urgente do que recuperar o controle social sobre esse domínio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário