O Estado de S. Paulo
O mundo exige que saibamos pensar, agir e
dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia
A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, em 12 de abril de 2026, mostrou que governantes autoritários também são, um belo dia, alcançados pela fadiga de material.
Depois de 16 anos sucessivos no poder, o
primeiro-ministro “iliberal” foi esmagado nas urnas. Do interior de seu círculo
sombrio, marcado por dissidências e silêncios forçados, irrompeu Péter Magyar,
flexível o suficiente para organizar uma coalizão política aberta ao centro.
Somado às patacoadas seriais de Donald Trump no mundo, o afastamento de Orbán quebrou uma das joias da coroa da extrema direita global. Não se sabe o que decorrerá disso, mas o fato mostra que a vida segue, driblando padrões tidos como fixos.
A situação mundial segue complexa e imprevisível. Está impulsionada por duas determinações perturbadoras.
A primeira é que o sistema internacional
permanece sem instituições que o organizem e atenuem a defesa encarniçada de
interesses econômicos e geopolíticos nacionais. As grandes potências deixam
seus exércitos de prontidão porque são movidas pela destruição de “inimigos”
fabricados, que, pelos azares da história, ocupam territórios ricos e/ou
estratégicos. Em nome disso, dão-se ao direito de exterminar populações que, a
rigor, nem sequer se beneficiam da riqueza de suas terras. O multilateralismo
desapareceu e a Organização das Nações Unidas (ONU) pouco pode fazer para
conter a dança macabra das superpotências. A cooperação entre os governos é
reduzida, o que dificulta a resolução de problemas planetários comuns.
A segunda é que a insatisfação e a indignação
se espalharam. Seja no plano político-social, seja no plano moral, os cidadãos
de cada país estão saturados emocionalmente. Suas organizações políticas não os
abrigam. Seus governos não os agradam. A vida vivida está cheia de
dificuldades. Se olharem para além de suas janelas, veem massacres e guerras
que se estendem no tempo. Ucrânia, Rússia, Gaza, Irã, Israel. Uma bola de fogo
que ziguezagueia pelos continentes.
Com isso, as sociedades nacionais inflam-se
de desentendimentos. Sobressaltadas, indignadas e refratárias a diálogos
racionais, as pessoas ficam prontas para aderir à primeira caravana populista
e/ou de extrema direita que despontar no cenário. Podem assumir a xenofobia e
atacar estrangeiros e imigrantes; podem abraçar o racismo para entrar em atrito
com africanos e muçulmanos; podem acreditar no supremacismo branco e concluir
que os caucasianos estão sendo “substituídos” por outras cores de pele; podem
virar fanáticos religiosos para combater tudo o que não integre suas bíblias e
seus credos fundacionais. Afundadas num turbilhão de insatisfações, tendem a
apoiar candidatos “alternativos”, que prometem novos amanhãs e falam em repor o
que se perdeu. Foi assim na Hungria. Foi assim na eleição de Trump e de
Bolsonaro. Poderá ser assim no Brasil.
Há muita raiva contra as elites, os governos
e os políticos. É um problema associado à estima social. A raiva pode se voltar
contra os efeitos da globalização, os imigrantes, o desemprego, a exploração, a
igualdade de gênero, mas se alimenta sobretudo da sensação de que os
governantes não olham para as pessoas. Políticas públicas fracassam e não há
uma ideia sólida de bem comum, solidariedade e justiça.
Os tempos são movediços, marcados por
revoluções provocadas pela globalização, pela tecnologia, pelo capitalismo
baseado em dados, pelas lutas identitárias. Tudo gira em alta velocidade. Fatos
se acumulam em sucessão frenética e são esquecidos dias depois. Desinformações
avançam a galope. Imagens falam mais alto do que palavras, captam a atenção no
instante.
A emergência da inteligência artificial (IA)
alterou o modo como agimos, pensamos, aprendemos e compreendemos o mundo. Ela
simula nossas habilidades, altera nossos mecanismos de cognição, amortece nossa
vontade de pesquisar. Seduz. Seus aplicativos ficam cada vez mais fáceis de
usar. Poderá ela melhorar a qualidade de vida? Há oportunidades e avanços,
riscos e incógnitas.
Estaríamos numa “era de Trumps” destemperados
e megalomaníacos? O presidente norte-americano agride e bagunça o mundo, mas
suas condições de reprodução não estão claras. Terminará como mais um retrato
na parede da Casa Branca? Ou espalhará sementes por outras plagas? Ocorre o
mesmo com a extrema direita: até onde ela chegará?
Sem democracia, os cidadãos não conseguem
defender sua privacidade em consonância com a pluralidade social. A democracia
é um regime de negociações, entendimentos e civilidade. Seu foco é abrir
espaços para todos, processar conflitos e reivindicações tendo em vista o
bem-estar de uma comunidade.
Os tempos pedem entendimentos. A indignação
precisa virar força política. É importante ganhar eleições e derrotar a extrema
direita, mas isso só terá desdobramentos efetivos se houver uma agenda política
positiva, que construa consensos em torno das reformas necessárias.
O mundo é um feixe de contradições, riscos e
possibilidades. Ele exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a
luta pelo que é comum com a luta pela democracia.
* Professor titular de teoria política da UNESP

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