quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Privatizando o Orçamento

O Estado de S. Paulo

A bolsonarização do Orçamento e da máquina estatal, forma perversa de privatização, já impôs e continuará impondo custos enormes ao País

Ninguém deve acusar o presidente Jair Bolsonaro de haver negligenciado as privatizações, uma de suas promessas de campanha. De fato, ele foi longe, nessa tarefa, ao pôr a seu serviço – e ao serviço de seus companheiros e aliados – o ainda chamado Orçamento-Geral da União (OGU), uma denominação obviamente superada. Também é preciso lembrar seus esforços, nem sempre vitoriosos, mas sempre notáveis, para subordinar a seus interesses pessoais e familiares a Polícia Federal, o Ministério da Justiça, a Procuradoria-Geral da República e outros órgãos de Estado. Os últimos dados sobre o uso do orçamento secreto comprovam, de novo, o empenho privatizador.

Como apurou o Estado, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, conseguiu destinar R$ 1,4 milhão do orçamento secreto à obra de um mirante turístico em Monte das Gameleiras, no Rio Grande do Norte. O mirante fica a 300 metros de um terreno de seis hectares de propriedade do ministro. Está projetada a construção, nessa área, de um condomínio de cem casas. Marinho negou ter proposto a aplicação do dinheiro, mas sua responsabilidade, como “autor” ou “agente político” foi confirmada pelos autores da reportagem, Felipe Frazão e Breno Pires, por meio da Lei de Acesso à Informação. Além da privatização do orçamento, para benefício de um membro da equipe bolsonariana, o episódio envolve, portanto, um evidente estímulo ao empreendedorismo paroquial, mais uma façanha merecedora do aplauso dos bolsonaristas.

Dinheiro da União tem sido usado também para favorecer militares e agentes de segurança, com aumentos salariais, distribuição de postos na administração federal e também um recém-lançado programa de financiamento de residências. Desde o começo de seu mandato, o presidente Bolsonaro já comprometeu com benefícios a esses grupos pelo menos R$ 27,7 bilhões, custo estimado até o fim de 2022.

O programa Habite Seguro, destinado a policiais militares e a bombeiros, deve custar R$ 183,9 milhões até o fim do atual mandato presidencial. No ano passado, policiais civis, policiais militares e bombeiros do Distrito Federal, de Rondônia, do Amapá e de Roraima receberam aumentos salariais com custo estimado em R$ 1,64 bilhão até o fim do próximo ano. Em 2020, como lembrou reportagem do Estado, outros funcionários tiveram os salários congelados por causa dos gastos com a pandemia.

Além de elevar os salários de policiais, medida agora reforçada com o programa habitacional subsidiado, Bolsonaro cortejou esses grupos com visitas e tentativas de cooptação política, num esforço para criar relações diretas de influência, embora as corporações sejam subordinadas legalmente aos governos estaduais.

A multiplicação de membros ou ex-membros das Forças Armadas em postos federais tem sido outra forma de subordinação do Estado aos interesses políticos bolsonaristas. Em julho, 6.157 militares da ativa e da reserva ocupavam postos civis, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). Esse contingente era mais que o dobro do registrado na gestão do presidente Michel Temer. O caso mais ostensivo foi o da ocupação do Ministério da Saúde por pessoas com títulos militares e, na maior parte dos postos mais importantes, sem preparo para as funções.

Dominado pela incompetência e sujeito à orientação do Palácio do Planalto, o Ministério, militarizado, converteu-se em propagandista das terapias pregadas pela medicina bolsonariana. A dimensão do desastre pode ser medida em milhares de mortes e milhares de casos de contágio.

A bolsonarização do Orçamento e da máquina estatal, forma perversa de privatização, já impôs e continuará impondo custos enormes ao País. Em busca de apoio popular para continuar no poder – a reeleição é um dos meios possíveis –, o presidente decidiu criar a sua versão do Bolsa Família. Para isso decidiu aumentar a partir desta semana o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), jogando mais um custo, com a marca Bolsonaro, sobre empresas e famílias já muito pressionadas. Privatização bolsonariana é assim.

O dever constitucional do Senado

O Estado de S. Paulo

Indicação de Mendonça deve ser rejeitada pelo plenário do Senado, e não ficar num limbo

No dia 13 de julho, o presidente Jair Bolsonaro indicou o então chefe da Advocacia-Geral da União, André Mendonça, para assumir a vaga deixada por Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF). Tendo em vista as declarações do próprio Bolsonaro e o passado de descompromisso de André Mendonça em relação à Constituição, a indicação não atende aos requisitos constitucionais. Cabe ao Senado rejeitá-la.

O Senado, no entanto, vem descumprindo seu dever constitucional de apreciar o nome indicado para o Supremo. Até o momento, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), não fixou data para a sabatina de Mendonça.

Perante tal situação, os senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Jorge Kajuru (Podemos-GO) impetraram no STF um mandado de segurança, pedindo que o presidente da CCJ seja obrigado a pautar a sabatina. Segundo os dois senadores, a conduta de Alcolumbre é “abusiva”, não lhes tendo sobrado outra alternativa a não ser a via judicial. Na terça-feira, o relator da ação no STF, ministro Ricardo Lewandowski, pediu informações sobre o caso ao presidente da CCJ.

Deve-se ressaltar que o atraso na sabatina de André Mendonça tem sido motivado, em boa medida, pelo próprio Palácio do Planalto, com sua contínua criação de conflitos e atritos com outros Poderes. No início de agosto, o presidente Bolsonaro ameaçou ingressar com um pedido de impeachment contra dois ministros do STF. Logicamente, a ameaça aumentou as tensões políticas, inviabilizando, naquele momento, qualquer passo para o preenchimento da vaga na Corte.

Decorridos alguns dias, num esforço de pacificação, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), encaminhou a indicação de André Mendonça para a CCJ da Casa. O ato se deu numa quarta-feira, dia 18 de agosto. Dois dias depois, Bolsonaro denunciou no Senado o ministro Alexandre de Moraes por crime de responsabilidade. Mais uma vez, o Palácio do Planalto implodia qualquer possibilidade de andamento do processo de avaliação do nome que, em tese, seria do seu interesse. Afinal, foi Bolsonaro quem indicou André Mendonça à vaga no Supremo.

A absurda denúncia contra Alexandre de Moraes foi rejeitada pelo presidente do Senado, por ausência de justa causa. Reiniciaram-se, assim, as condições para a sabatina de André Mendonça no Senado. No entanto, aqui entra em cena outro personagem, Davi Alcolumbre, cujo histórico também não revela grande apreço pela Constituição. No ano passado, a despeito da proibição constitucional, tentou candidatar-se à reeleição da presidência do Senado.

A rigor, Davi Alcolumbre não é oposição ao Palácio do Planalto. Enquanto esteve na chefia do Senado, foi muito solícito aos interesses de Jair Bolsonaro, que retribuiu não pondo empecilhos à sua tentativa de reeleição, que foi depois barrada pelo Supremo. No entanto, o fato é que, no momento, Davi Alcolumbre não quer André Mendonça no STF e tem usado seu posto na CCJ para travar o processo. Simplesmente não pauta a sabatina.

Como é sabido, André Mendonça não preenche os requisitos constitucionais para ocupar a cadeira no Supremo. A perseguição que promoveu no Ministério da Justiça contra críticos do governo Bolsonaro, valendo-se de uma interpretação imprópria da Lei de Segurança Nacional, evidenciou seu desapreço pelas garantias constitucionais mais comezinhas. Mas sua indicação deve ser rejeitada pelo plenário do Senado, e não ficar num limbo, em razão de questões particulares do presidente da CCJ.

O Supremo é composto por 11 ministros. É prejudicial ao País que a Corte fique desfalcada por tempo indeterminado. Não há prazo para que o Senado avalie a indicação do Palácio do Planalto para o Supremo, mas isso não significa que a Casa Legislativa possa adiar indefinidamente e sem motivo a sabatina. Interesses particulares – sejam de Bolsonaro, de Alcolumbre ou de quem quer que seja – não devem condicionar o cumprimento da Constituição. Que os senadores possam apreciar a indicação bolsonarista.

Negacionismo energético

O Estado de S. Paulo

Indicadores que dão base ao otimismo do ministro de Minas e Energia são desconhecidos

Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a gestão da crise hídrica pelo governo revelou aquilo de que uma boa parte da sociedade já desconfiava. As medidas adotadas até agora são insuficientes para afastar o risco de apagão. Não deveria surpreender ninguém, já que o enfrentamento de qualquer situação crítica passa, em primeiro lugar, pela admissão de que o problema, de fato, existe.

Quem assiste às entrevistas do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, vai ouvir que o risco de racionamento no País é zero. Os indicadores que dão base a essa previsão tão otimista, no entanto, são desconhecidos. Os anteriores, usados até o fim de 2018, foram considerados inadequados pelo governo Jair Bolsonaro, mas não foram substituídos por nenhum outro. No mercado, não há dúvidas sobre a gravidade da crise. A PSR, maior consultoria do setor no País, afirma que o risco de racionamento é de 20% e o de apagão, de 30%. Para os auditores do TCU, as medidas adotadas pelo Executivo no enfrentamento da seca carecem de previsibilidade e razoabilidade.

Foi apenas em 31 de agosto, por exemplo, que os consumidores descobriram que iriam pagar uma nova taxa nas contas de luz no dia seguinte, 1.º de setembro. O sistema de bandeiras tarifárias, que usa as cores verde, amarela e vermelha para sinalizar os custos de geração nas tarifas, a exemplo de um semáforo, foi insuficiente para dar conta do problema. Agora, todos pagam a “bandeira de escassez hídrica”, um adicional de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora consumidos.

Além de passar por cima das atribuições da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão responsável justamente pelo cálculo das tarifas, o governo, até agora, não divulgou de que forma chegou ao valor da nova bandeira nem os critérios para seu acionamento. Mesmo que, por um milagre, o volume de chuvas seja suficiente para encher os reservatórios das hidrelétricas ao longo do período úmido, a taxa vai vigorar até abril de 2022.

O pouco que se sabe é que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, atuaram de forma direta para impedir que a Aneel aplicasse a taxa considerada adequada, de quase R$ 25 a cada 100 kWh, tudo para conter parte do desastre que será a inflação deste ano. Analistas consultados pelo BC projetam que o IPCA fechará o ano em 8,35%, diante de uma meta de 3,75%.

Cada vez mais, um misto de negacionismo, improviso e perversidade se consolida como a marca do governo também na área econômica. Para bancar o aumento do Bolsa Família aos mais necessitados, o governo aumenta o imposto dos endividados. Para impedir o racionamento, o Executivo autoriza um tarifaço via bandeiras. Depois, anuncia um bônus para aqueles que conseguirem economizar entre 10% e 20% de seu consumo. A bonificação, no entanto, será paga pelos próprios consumidores, por meio de encargo na conta de luz.

Extinto há dois anos, o horário de verão, política que contribui para reduzir os picos de consumo nos horários de ponta, como confirmou recente estudo do Operador Nacional do Sistema (ONS), não deve ser retomado. Motivo: o presidente Jair Bolsonaro não gosta da medida. Esse é o nível de governança à qual os brasileiros estão expostos.

Em 2001, o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso determinou uma meta de economia de energia de 20% para todos os consumidores, com multa para aqueles que não a cumprissem. Coube a FHC ir à TV, em cadeia nacional, pedir a colaboração da população para que não houvesse apagões. A figura do presidente foi fundamental para demonstrar a gravidade da crise. Custou a derrota do candidato tucano, José Serra, na eleição de 2002.

Vinte anos depois, racionamento se tornou palavra proibida no governo. Interessado apenas em sua reeleição, o presidente Jair Bolsonaro se esconde atrás da figura do ministro Bento Albuquerque, escalado para fazer os impopulares pronunciamentos sobre o tema em rádio e TV, e até mesmo do humorista Sérgio Mallandro, famoso por suas “pegadinhas”, que protagoniza uma campanha do governo. É para rir?

Orçamento põe em risco teto de gastos

O Globo

Com sua omissão contumaz, Bolsonaro terceirizou o problema ao ministro Paulo Guedes, aos presidentes da Câmara e do Senado, e até ao presidente do Supremo

Depois da pirotecnia golpista do 7 de Setembro e da impostura delirante nas Nações Unidas, o presidente Jair Bolsonaro volta ao Brasil e se vê diante do mesmo problema que há meses demonstra ser incapaz de resolver: equilibrar o Orçamento de 2022. Desviar ou fugir da realidade é inútil. A solução que vem sendo proposta e negociada em Brasília equivale a romper o teto de gastos, última âncora fiscal que garante um mínimo de credibilidade às contas públicas. Na atual circunstância, é a pior solução — e, infelizmente, a mais provável.

Com sua omissão contumaz, Bolsonaro terceirizou o problema ao ministro Paulo Guedes, aos presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, e até ao presidente do Supremo, Luiz Fux. Mas que ninguém se engane: é ele quem assina a lei orçamentária. É ele o responsável pelos gastos do Executivo. Esse é, portanto, um problema dele, Bolsonaro.

Do ponto de vista do governo, a questão parece se resumir a descobrir a solução para pagar as dívidas judiciais de quase R$ 90 bilhões, 72% acima das pagas neste ano. Fracassou a tentativa de parcelar os pagamentos de maior valor, os precatórios, seja via Proposta de Emenda à Constituição (PEC), seja via uma negociação capitaneada por Fux.

Agora, a ideia de Lira e Pacheco é permitir que, no Orçamento de 2022, não esteja sujeito ao teto de gastos o valor que exceder R$ 39,4 bilhões (pouco mais que o valor pago em 2016, ano de criação do teto, corrigido pela inflação). Para cobrir o novo “puxadinho orçamentário”, o Congresso autorizaria créditos extraordinários. Em contrapartida, aprovaria uma PEC determinando, daqui para a frente, o adiamento, para o ano seguinte, do pagamento dos precatórios que superarem certo limite. Seria outra modalidade de calote que acumularia uma dívida explosiva (o rombo até 2036 foi estimado pela consultoria financeira da Câmara na casa das centenas de bilhões).

É meritória a tentativa de dar previsibilidade ao pagamento dos precatórios, mas o debate em curso não passa de uma cortina a ocultar o mesmo problema de sempre: um Orçamento em que não cabem todos os gastos. Em particular, os R$ 61 bilhões que custará o novo Auxílio Brasil, o programa assistencial eleitoreiro de Bolsonaro. Para financiá-lo neste ano, o governo já promoveu um absurdo aumento na alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Para o ano que vem, pretende adiar o pagamento dos precatórios em vez de sacrificar outros gastos.

Por que não reduzir as emendas parlamentares? Ou ao menos acabar com a esdrúxula emenda do relator, que permite a Lira e Pacheco distribuir R$ 18,5 bilhões do Orçamento à margem dos órgãos de fiscalização e controle (o inaceitável “orçamento secreto”)? Por que se deixou de regulamentar a redução de salários e jornadas de servidores públicos como determina a Lei de Responsabilidade Fiscal? Ou de fazer uma reforma administrativa para valer, cortando privilégios da elite do funcionalismo? Nada disso acontece porque Bolsonaro jamais quis saber de encarar os problemas reais que viram despesas no Orçamento.

É sabido como os governos brasileiros taparam buracos orçamentários ao longo da história: com a ajudinha da inflação. Eis que ela está aí novamente à espreita. Seria um completo disparate que justamente o governo eleito com um programa de ortodoxia econômica despertasse o dragão.

Fed sinaliza início do ‘taper’ e alta antecipada de juros

Valor Econômico

O cenário externo continua benéfico ao Brasil, às voltas com um ciclo de aperto de juros e aumento da inflação

O Federal Reserve deve decidir em sua próxima reunião, em novembro, o início da redução gradual de suas compras de títulos, hoje de US$ 120 bilhões ao mês – US$ 80 bilhões em títulos do Tesouro e o restante em hipotecas. O presidente do banco, Jerome Powell, disse ontem que a condição de haver “substanciais progressos adicionais” no nível de emprego já estava praticamente atendida e que em novembro poderiam seguir em frente com o “taper”. Há um calendário para o encerramento das compras: meados de 2021.

Ao mesmo tempo, na reunião de ontem os membros do Fed indicaram que estão bem mais propensos do que antes a iniciar o aumento da taxa de juros em 2022. No encontro anterior, 9 deles não previram reajuste dos fed funds no ano que vem, e 7 sim. Agora, há um empate de 9 a 9, com a maior possibilidade de uma alta, para 0,5% e, menor, de duas, para 0,75%. Em 2023, o ritmo se intensificará, de acordo com o mapa de pontos que coleta as previsões dos membros do Fed. A mediana aponta para uma taxa de 1,75% ao fim daquele ano. A taxa de longo prazo identificada pelo Fed é de 2,5%.

A alta da inflação, por um lado, pressiona o banco a agir com mais rapidez. A recuperação do mercado do trabalho sugere, porém moderação – ainda que vigorosa (750 mil mensais), reduziu-se em agosto, devido ao contágio d variante Delta, que provoca estragos nos EUA. Segundo Powell, a retomada dos empregos que autorizaria o Fed a reduzir a compra de títulos já foi praticamente alcançada e, no caso da inflação, “fez bem mais do que progressos significativos”. O banco elevou sua projeção para o núcleo dos gastos pessoais de consumo (PCE) de 3% para 3,7% e o índice cheio de 3,4% para 4,2% em 2021, enquanto que diminuiu a expectativa de crescimento da economia de 7% para 5,9% e elevou a do desemprego, de 4,5% para 4,8%.

O Fed, porém, não mudou seu diagnóstico de que a alta dos preços é temporária. A perspectiva é de que o núcleo do PCE desacelere para 2,3% no ano que vem e 2,2% em 2023, quase dentro da meta. Para Powell, gargalos da oferta explicam esse comportamento e eles são “mais fortes e mais duradouros do que o inicialmente previsto”.

Segundo a consultoria Oxford, há sérios problemas de transportes, especialmente disponibilidade de caminhões para atender a forte demanda, o que leva a espera de até duas semanas de mercadorias nos portos e congestionamento de navios nas alfândegas de Los Angeles e Long Beach, por onde passam 35% das importações. Os fretes subiram 400% e adicionaram mais pressão altista às que já existiam no custo dos insumos. As empresas têm baixos estoques, pouca capacidade de ampliar a produção e, ainda por cima, falta de mão de obra.

Powell afirmou que há uma boa distância entre o início do processo de diminuição de compra de títulos e o início do aumento das taxas de juros. A diferença, de novo, está relacionada ao mercado de trabalho. O desemprego deve encerrar 2022 em 3,8%, já abaixo da taxa de longo prazo, estimada pelo Fed em 4%, o que liberaria o banco para iniciar o aperto monetário. Visto de hoje, este aperto será bem gradual e ao fim de 2024 o fed funds ainda estaria abaixo dos 2% de inflação prevista.

Na zona do euro, o fim dos juros negativos está mais distante. O Banco Central Europeu, apesar de sinalizar um corte nas compras de títulos do programa de estímulo relacionado à pandemia, prevê índice de 2,2% este ano, que cai para a meta, de abaixo mas próximo de 2% e para 1,5% em 2023. A sinalização do BCE para mover os juros é a de que a inflação precisaria atingir e ficar em 2% ou um pouco mais por pelo menos 18 meses, o que, por suas previsões, não ocorrerá. Ou seja, não se vislumbra alta de juros antes de 2025.

A tranquilidade dos bancos centrais sobre a elevação da inflação não é correspondida por muitos investidores e economistas, que veem o risco de uma elevação persistente do nível de preços e de uma reação mais forte, turbulenta e antecipada da política monetária. Entre os vários inconvenientes desta mudança de rota está o fato de que o endividamento de empresas e governos é muito maior do que ao fim da crise de 2008 e continuou crescendo durante a pandemia, com os megapacotes de socorro fiscais e monetários.

O cenário externo continua benéfico ao Brasil, às voltas com um ciclo de aperto de juros e aumento da inflação acima do esperado. Turbulências nos mercados acrescentariam a piora das condições externas às internas, já em curso, o pior dos mundos.

Ressaca chinesa

Folha de S. Paulo

Crise da Evergrande, que preocupa o mundo, é sintoma do inchaço do setor no país

Nas últimas décadas o motor de crescimento chinês levou a economia do país à segunda posição no ranking global e ao status de maior nação comercial. Parte importante desse processo veio da construção civil, que atendeu a demanda oriunda da urbanização acelerada, mas também se tornou símbolo de excessos e riscos financeiros.

Cada vez mais, o que ocorre no setor financeiro do país provoca impactos além de suas fronteiras. Evidência disso é o abalo nos mercados globais em razão dos temores de contágio da provável falência da Evergrande, a maior incorporadora imobiliária do país.

Tornaram-se comuns comparações com a quebra do Lehman Brothers, estopim da fase mais aguda da crise financeira de 2008. A dívida da empresa de fato é gigantesca, na casa dos US$ 300 bilhões, a maior parte com credores locais, de bancos a pequenos fornecedores e mutuários que pagaram por apartamentos não entregues.

À diferença do caso americano, contudo, é provável que as ramificações financeiras sejam mais controladas desta vez, pois o governo central comanda os bancos, que podem rolar empréstimos.

O cenário não parece ser de crise bancária, mas de desmontagem da empresa e liquidação gradual de estoques e passivos. Com grandes vencimentos de dívidas nas próximas semanas e incertezas sobre como o governo lidará com o problema, a ansiedade dos mercados permanece alta.

Mesmo que haja solução ordenada, todavia, há o problema mais amplo, do qual a Evergrande é um sintoma. Algumas estimativas apontam que a construção representa cerca de 20% do Produto Interno Bruto chinês, o dobro ou o triplo do que se observa em grande parte dos países.

Durante ao menos duas décadas o sistema cresceu com endividamento fácil e por interesses locais. Desde que o governo intensificou restrições em 2020, há mais dificuldades de financiamento.

Nos últimos meses se acelerou a queda de vendas e preços, e o risco agora é que tal dinâmica seja difícil de controlar. Num sistema com excesso de dívidas, pode ser mortal para as empresas um colapso no preço de seus estoques.

O problema se estende às famílias, com parte importante de sua riqueza materializada em imóveis.
Ainda que o gigante asiático, como parece provável, seja capaz de evitar uma crise financeira no sentido estrito, será difícil escapar de uma desaceleração do crescimento econômico, ao menos por algum tempo, o que traz implicações amplas para o restante do mundo.

Redução de danos

Folha de S. Paulo

Ante desatino federal, melhor deixar que entes decidam sobre vacinação de jovens

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, determinou que cabe a estados e municípios decidir sobre a vacinação de adolescentes sem comorbidades contra a Covid. O despacho atende parcialmente ao pedido de partidos que questionam a decisão do Ministério da Saúde de suspender a imunização para esse grupo.

Juridicamente, não há muito o que discutir. O STF já estabeleceu e reafirmou que a competência para gerir a pandemia é concorrente entre União, estados e municípios.

Na prática, isso significa que a regra mais específica tenderá a prevalecer —e que, se uma das entidades federativas se omitir, outra poderá ocupar o espaço abandonado. Não é o ideal.

Num Brasil mais funcional, os governos federal, estaduais e municipais não se furtariam a suas obrigações e todos se valeriam das vantagens comparativas de que dispõem para formar um conjunto coerente, harmônico e eficaz de ações contra a Covid-19.

No caso da imunização, caberia à União adquirir os biofármacos e os insumos para aplicá-los (com ganhos de escala), além de coordenar gestores e especialistas para traçar, com base na ciência e nos melhores dados disponíveis, as diretrizes nacionais do programa.

Estados e municípios, que são os administradores das redes de saúde, se encarregariam de aplicar as vacinas de acordo com o plano, fazendo as adaptações necessárias para atender às especificidades locais e cuidando para que o desperdício fosse o menor possível.

Mas, no Brasil de Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde não é muito mais que uma caixa de ressonância dos delírios do clã presidencial. Aí, já não se trata de tomar decisões sobre como o sistema de saúde deveria funcionar, mas de abraçar políticas de redução de danos.

É preferível que os governos regionais possam agir, mesmo contrariando decisões de Brasília, a deixar que o ministério imponha a todo o país a agenda bolsonariana.

Quanto ao mérito da questão, especialistas discutiram a ordem da fila —uma vez que, na falta de produtos para todos, a vacinação de adolescentes disputa lugar com a redução do intervalo entre as doses para grupos mais vulneráveis e a aceleração da terceira dose para os idosos. O debate é relevante.

Inaceitável é que, uma vez tomada a decisão de vacinar os jovens, o Ministério da Saúde recorra a boatos —a morte de um jovem supostamente por causa da vacina— para suspender unilateralmente o programa e, como efeito colateral, erodir perigosamente a confiança da população nos imunizantes.


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