terça-feira, 23 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante a retirada de policiais cedidos a tribunais

Por O Globo

Supremo deve continuar preservado, ou haverá interferência indevida em investigações que atingem o governo

Investigações contra corrupção no Brasil esbarram com frequência em obstáculos que contribuem para transmitir a sensação de impunidade. O exemplo mais citado costuma ser a Operação Lava-Jato, desmontada depois que vieram à tona erros processuais, em especial a ação coordenada entre magistratura e procuradoria — que levou à anulação da vasta maioria das condenações, mesmo de réus confessos, diante de provas irrefutáveis.

Dar emprego a todos que queiram trabalhar: uma utopia? Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Ano eleitoral é momento para pensar o Brasil além de questões econômicas de curto prazo, como inflação, juros estratosféricos e responsabilidade fiscal

Mais cedo ou mais tarde, não muito tarde, o Brasil e outros países terão de enfrentar o problema do desemprego estrutural. Vários fatores, principalmente as inovações tecnológicas, aceleradas pela inteligência artificial (IA), indicam que o simples crescimento econômico não será suficiente para gerar postos de trabalho que garantam ocupações dignas e o sustento das famílias.

A despeito dos baixos níveis atuais de desemprego, a informalidade é uma marca do mercado brasileiro, com 40 milhões de trabalhadores, muitos deles iludidos pelo discurso do empreendedorismo.

A constatação da incapacidade de o sistema capitalista prover pleno emprego não é nova. O excedente estrutural de mão de obra sempre foi uma arma para redução de custos. Já nos anos 1960, o economista Hyman Minsky defendia a tese do “Estado como empregador em última instância”. Mas a constatação de que há uma emergência no enfrentamento desse problema fez ressurgir nos meios acadêmicos do país o debate sobre a criação de um Programa de Garantia de Emprego (PGE).

As chances de uma eleição de turno único em SP, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Saída de dois pré-candidatos da disputa aumenta chances de reeleição de Tarcísio no primeiro turno deixam Lula sem palanque no segundo

A desistência de dois pré-candidatos ao governo de São Paulo, o deputado federal Kim Kataguiri (Missão) e ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB), faz da eleição em turno único o cenário mais do que provável no Estado que agrega 22% do eleitorado nacional. A perspectiva de enfrentar um 2º turno sem palanque em São Paulo, visto que as projeções de todos os institutos são de elevadas chances de reeleição do governador Tarcísio de Feitas, levou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a refazer as contas.

Amigos, amigos, eleições à parte. Saída de Wagner é dilema de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Escândalos raramente são julgados pela gravidade objetiva dos fatos. Seu impacto depende da capacidade de atingir simbolicamente o poder. Foi assim no mensalão e na Lava Jato.

A permanência do senador Jaques Wagner na liderança do governo no Senado é insustentável, não apenas pelo desgaste pessoal provocado pela Operação Compliance Zero, mas pelo risco crescente de que o Caso Master ultrapasse as fronteiras de uma investigação financeira e alcance o núcleo político do governo Lula. No Palácio do Planalto, a compreensão é de que o problema deixou de ser exclusivamente jurídico. Virou uma ameaça com potencial para influenciar a sucessão presidencial de 2026.

Onde está a magia do futebol brasileiro? Por Fernando Gabeira

O Globo

O futebol era o nosso principal recurso em ‘soft power’, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional

Como a maioria dos brasileiros, sou apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso futebol. O que fazer para recuperá-la?

No passado, sempre reagiam com um sorriso ao saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O futebol era nosso principal recurso em soft power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.

Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.

Forma e conteúdo, por Merval Pereira

O Globo

Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

Os petistas agora fazem uma conta estranha: quantos bolsonaristas estão envolvidos no escândalo do Banco Master, e quantos petistas estão na mesma situação? Como se quem tenha menos indiciados ou investigados por corrupção leve vantagem sobre o outro grupo. Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

Juros, inflação e contas públicas, por Míriam Leitão

O Globo

Os economistas discordam sobre a elevação da meta de inflação, mas concordam sobre a necessidade do ajuste fiscal de forma urgente

É uma boa ideia aumentar a meta de inflação para 4,5%, em vez dos atuais 3%, ou essa é uma proposta inflacionista? O economista Sérgio Werlang, que implantou o sistema de metas de inflação em 1999, defendeu que seja elevada. Arminio Fraga, que era presidente do Banco Central quando foi adotado o sistema, discorda de Werlang. Prefere que se discuta o “alongamento da convergência”, ou seja, que o prazo para que a meta seja atingida seja maior do que os atuais 18 meses. Arminio teme uma crise de crédito. O economista Bráulio Borges me disse que a mudança da meta é a discussão que ninguém gosta de ter, e a chamou de tabu.

Esquerdista or not esquerdista? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula dizer que ‘nunca foi de esquerda’ muda o quê, na eleição, nas Américas e no mundo?

Não é novidade o presidente Lula dizer agora que “nunca foi esquerdista”, mas o local, o momento e o ambiente político da América do Sul indicam que, desta vez, há uma clara intenção eleitoral, para ficar bem com o grande capital no Brasil e no mundo. Logo, foi um movimento calculado, em pleno G-7, o grupo dos países mais ricos.

Já em agosto de 2003, durante viagem à Venezuela, no seu primeiro mandato, Lula reagiu a uma pergunta minha com ênfase: “Em toda minha vida, nunca gostei de ser rotulado de esquerda e, quando me perguntaram se eu era comunista, eu respondi: ‘Sou torneiro mecânico’”.

Pactos, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Ocaso Master estabeleceu a lama como arena para a disputa eleitoral. Em curso a peleja por impor a própria versão sobre quem estará mais enredado na teia vorcárica, reivindicada já a vantagem de ser daquele grupo político com menos tentos no placar de contaminação por Daniel Vorcaro.

Já era sabido que Jaques Wagner, expressão maior do petismo baiano, deitara-se na rede vorcárica. Não se sabia a que custo e com que extensão – segundo a Polícia Federal, tal e qual o de Ciro Nogueira, configurado outro mandato parlamentar instrumentalizado a serviço de interesses privados do banqueiro.

A onda azul da direita sul-americana vai levar o Brasil? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Há temas que estão em alta e que direitistas souberam trabalhar melhor do que a esquerda

Movimento é pendular e, no futuro, veremos outras 'ondas vermelhas'

Se o padrão ainda não era claro, agora, depois Colômbia e provavelmente o Peru elegerem líderes de direita, ele deve estar: uma onda de direita está varrendo a América do Sul. Quando Lula iniciou seu mandato, Argentina, Colômbia, Peru, Bolívia e Chile tinham líderes de esquerda. Hoje, ou já têm líderes de direita ou acabaram de os eleger.

É um movimento pendular. No futuro, veremos outras "ondas vermelhas". Por enquanto, o trabalho é tentar entender o que está por trás desse movimento à direita. Segurança, corrupção, economia, migração; temas que estão em alta e que a direita soube trabalhar melhor do que a esquerda.

Por una cabeza, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Eleição na Colômbia, a exemplo do que ocorrera no Peru, é decidida por margem mínima de diferença

Polarização afetiva e ambientes de circulação rápida de informações favorecem a volatilidade do eleitorado

Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%.

O país da 'generosidade excessiva', por André Borges

Folha de S. Paulo

Parlamentares comparecem ao Congresso basicamente às terças e quartas-feiras

Magistrados e membros do Ministério Público podem parcelar descanso em cotas de cinco dias

No país onde o fim da escala 6x1 é tratado como heresia por setores da economia, ameaça aos empregos e ao crescimento do país, os homens da lei e da Justiça deitam e rolam com seus 60 dias de férias, fora os recessos, as licenças, as benesses e tudo o mais que a criatividade permitir.

É no Congresso, onde os recessos somam 55 dias por ano e parlamentares comparecem, basicamente, nas terças e quartas-feiras, que está o destino de quem labuta de segunda a sábado.

Como outros investigados, Jaques Wagner dá explicações vazias, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Tragado pelo buraco do Master, senador petista vira dor de cabeça para projeto da reeleição

PF não para de investigar esquema de corrupção montado por Vorcaro nem na Copa do Mundo

Jaques Wagner —a mais recente dor de cabeça da campanha petista à Presidência da República— não é da Bahia. É do Rio de Janeiro, nascido em 1951, no seio de uma família judia que fugiu do nazismo. Seu pai militou no Partido Comunista da Polônia. Com 15 anos, o filho começou a fazer política no movimento sionista e a ler Marx. Perseguido pelo regime militar, abandonou o curso de engenharia civil e se estabeleceu em Salvador, onde conheceu Lula nos anos 80, ajudando a fundar o PT. Em 2018, ele quase foi o candidato do partido ao Planalto.

Uberização: o marco global da OIT e o desafio civilizatório do STF, por Adenir Carruesco*

Correio Braziliense

A flexibilidade valorizada por muitos trabalhadores não pode servir como salvo-conduto para a ausência total de proteção social. É aqui que a ética deve guiar a interpretação jurídica

Em 1750, Jean-Jacques Rousseau alertava que o progresso poderia esconder novas formas de servidão, ao tecer "grinaldas de flores sobre cadeias de ferro". Mais de dois séculos depois, sua metáfora parece descrever com precisão o trabalho em plataformas digitais.

As plataformas tecnológicas oferecem conveniência, flexibilidade e autonomia aparentes. Seriam as novas "grinaldas de flores"? Controles algorítmicos invisíveis, sistemas de pontuação que determinam quem trabalha e quem fica de fora, jornadas exaustivas disfarçadas de "horários livres" implicam em autonomia ou o trabalhador descobre-se amarrando a própria coleira?

O Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar o Tema 1.291 ("uberização"), enfrenta o desafio de remover as grinaldas sem destruir a flor. A questão central é: podemos manter o pensamento maniqueísta, analisando apenas os extremos, entre relação de emprego típica (art. 3º da CLT) e relação autônoma, civil ou comercial? Ou será que se pode pensar em uma decisão que saia desse campo antagonista?

O homem apagado, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido.  Mas era tarde demais.

O Filme da Revelação, por Vagner Gomes*

“O interesse, como instância isolada – como já fora percebido nas lições clássicas do radicalismo filosófico inglês, em Hegel, Tocqueville, para não falar de Marx -, conduzia ao particularismo na forma do Estado, e, nas condições retardatárias da sociedade brasileira, onde predominava o estatuto da dependência pessoal, tendia a se combinar com as formas de mando oligárquicas e a sociabilidade de tipo hierárquico que prevaleciam no país. O primado do interesse, na Primeira República, assim, não se confronta com as formas de dominação tradicionais, antes as subordina, convertendo o atraso, tal como na exemplar demonstração de Victor Nunes Leal em seus estudos sobre o coronelismo, em uma vantagem para o moderno que estaria representado pela economia dominante em São Paulo, sob a direção de um patriciado com origem na propriedade fundiária e orientado por valores de mercado – a Prússia paulista será uma invenção da Primeira República.” (Luiz Werneck Vianna, “Weber e a interpretação do Brasil”, 1999)

Poesia | Erro, de Machado de Assis

 

Música | Mônica Salmaso -Mar e Lua