sábado, 27 de junho de 2026

O centro progressista precisa se radicalizar, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Centro não pode ser só o ponto médio entre direita e esquerda, mas deve ser revolucionário à sua maneira

Dois eventos recentes, em lados opostos do Atlântico, apontam para o mesmo problema. No Reino Unido, o homem que, segundo as expectativas gerais, deve substituir o imponente Keir Starmer como primeiro-ministro é Andy Burnham, que defende o “socialismo favorável aos negócios” como seu credo. Em Nova York, as eleições primárias democratas resultaram em vitórias impressionantes para os socialistas, sugerindo que a esquerda insurgente encontrou uma maneira de transformar o protesto em poder.

Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.

No novo livro de Adrian Wooldridge, The Revolutionary Center: The Lost Genius of Liberalism (O Centro Revolucionário: O Gênio Perdido do Liberalismo, na tradução livre), o autor nos lembra que o progressismo já foi a força mais radical da política. Ele atacava os privilégios herdados, o poder monopolista, a censura, a aristocracia, a autoridade clerical e as corporações fechadas. Não era a ideologia do establishment. Era o aríete contra o establishment.

FALHAS. Hoje, o progressismo passou a ser identificado com o poder – grandes universidades, fundações, organizações de mídia, corporações e burocracias. Wooldridge argumenta que isso resultou em duas falhas graves.

A primeira é a passividade. O progressismo moderno, certamente desde a década de 1990, tem exaltado os mercados livres e as pessoas livres. Na prática, isso significou desregulamentar tanto a vida econômica quanto a vida pessoal, tratando as consequências como o preço da liberdade.

Nos mercados, isso permitiu que a consolidação corporativa e a desigualdade se alastrassem descontroladamente. Na vida pessoal, os progressistas passaram a relutar em afirmar que certos comportamentos são socialmente destrutivos.

O resultado é o fatalismo progressista. Pessoas acampam nas ruas das cidades – viciadas e com doenças mentais –, e os progressistas costumam descrever isso como um problema de moradia. Milhões sofrem de doenças relacionadas à obesidade, e os progressistas se sentem mais à vontade culpando os “desertos alimentares” do que enfrentando as empresas que viciam seus clientes em alimentos processados. As empresas de mídia social fazem o mesmo com a atenção de seus consumidores.

Wooldridge defende um renascimento do paternalismo progressista. A expressão soa estranha aos ouvidos modernos. Mas uma sociedade liberal deve valorizar os direitos individuais – e também exigir responsabilidade individual. Deve compreender que a liberdade pode ser destruída não apenas pelo Estado, mas também pelo vício, pelo monopólio, pelo crime, pela ignorância e pela dependência.

Isso não é um argumento a favor do socialismo. É um argumento a favor de um progressismo mais autêntico. Os progressistas deveriam valorizar os mercados não porque eles permitem que os fortes dominem ou que a desigualdade aumente, mas porque a concorrência genuína permite que os mais fracos desafiem os fortes.

Um mercado saudável não é aquele em que quatro empresas dividem discretamente um setor e usam advogados, lobistas e algoritmos para manter os concorrentes de fora. É aquele em que novos participantes podem surgir, os consumidores podem escolher, os trabalhadores podem mudar de emprego e os já estabelecidos podem fracassar.

MERITOCRACIA. A segunda falha identificada por Wooldridge é mais incômoda, pois diz respeito à própria condição dos progressistas. O progressismo acredita na meritocracia. Historicamente, essa foi uma de suas causas mais nobres. Defendia que as pessoas deveriam ascender por meio do talento e do esforço, e não por nascimento, raça, casta ou classe. Mas, com o passar do tempo, a elite

A saída para a crise do liberalismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical meritocrática se transformou em sua própria aristocracia.

Os progressistas de elite defendem a justiça social, mas fazem pouco para acabar com o sistema de admissão por legado. Eles querem que os pobres subam na escala social, mas não se isso exigir a construção de mais moradias nos bairros arborizados onde eles moram. Eles elogiam o mérito individual, mas criaram uma vasta burocracia da diversidade que, com muita frequência, julga as pessoas com base na identidade de grupo, em vez de no caráter pessoal.

Em nenhum outro lugar isso fica mais claro do que no ensino fundamental e médio. Uma política genuinamente progressista começaria pela criança. Ela atacaria qualquer instituição – sindicato, burocracia, conselho escolar, departamento universitário – que alimente seu próprio poder enquanto falha com as crianças dos EUA.

É aí que os socialistas e os populistas de direita ganham força. Eles entendem que as pessoas querem alguém que lute por elas. Podem oferecer respostas equivocadas – a esquerda com luta de classes, protecionismo e controle estatal, e a direita com protecionismo, ressentimento étnico e nostalgia racial. Mas soam como outsiders dispostos a enfrentar privilégios arraigados e oferecer proteção em um mundo onde a liberdade parece significar caos.

A saída para a crise do progressismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical. Os progressistas devem voltar a ser aqueles que detestam o monopólio, as vantagens herdadas, os sistemas fechados e os jogos viciados. Devem defender a concorrência real, a meritocracia real e a igualdade real de oportunidades. Devem enfrentar o poder corporativo quando ele esmaga os mercados, o poder governamental quando protege os privilegiados e o poder cultural quando cria burocracias que substituem a dignidade individual pela identidade de grupo.

Como argumenta Wooldridge, o centro não pode ser meramente um ponto médio entre a esquerda e a direita. Ele precisa ser revolucionário à sua maneira. A grande promessa do progressismo nunca foi que as pessoas fossem deixadas à própria sorte para definhar na liberdade. Era que as pessoas recebessem as ferramentas, as regras e as responsabilidades necessárias para prosperar. O progressismo começou como uma revolta contra o poder arraigado. Ele só sobreviverá se voltar a ser aquilo que foi em sua origem. •

Nenhum comentário: