quarta-feira, 24 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

BC peca por falta de clareza em decisão sobre juros

Por O Globo

É defensável evitar flutuação abrupta na Selic, mas faltou transparência à forma como Copom se justificou

Depois da reunião na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou o terceiro corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. A decisão era esperada, mas o comunicado divulgado em seguida gerou ruído. Mudanças na Selic são extremamente importantes para as projeções e expectativas do mercado financeiro, mas não têm consequências imediatas na economia. Quando muda a Selic, o Copom calcula os efeitos num período conhecido como “horizonte relevante”, intervalo de 18 meses, hoje com duração até o quarto trimestre de 2027. Ao mencionar o primeiro trimestre de 2028, porém, o comunicado causou estranheza. Por que a autoridade monetária teve de alongar o prazo de modo a justificar o corte nos juros? Teria sido falta de cautela com a inflação?

Guerra no STF agora é declarada, por Vera Magalhães

O Globo

Entrevista de Gilmar escancara divisão na corte e tensão provocada pelo caso Master

Há pouco menos de 20 dias, escrevi neste espaço que as tensões no Supremo Tribunal Federal (STF) estavam prestes a deixar os bastidores e explodir em público. Não demorou. Em entrevista ao “Roda Viva”, o decano da Corte, Gilmar Mendes, explicitou a divisão interna na Corte e deixou claro quem joga em que time.

No seu, estão Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli e, mais discretamente, Cristiano Zanin. Os demais se dividem em dois grupos que foram alvo de ataques de Gilmar. Ao presidente, Edson Fachin, e a Cármen Lúcia, ele atribui o desgaste de imagem do STF, pela insistência em agendas como o código de conduta do Judiciário. O maior incômodo, no entanto, parece recair sobre André Mendonça, que claramente vem ganhando protagonismo no Supremo com relatorias de casos espinhosos e de alto impacto político, como o Master e o da máfia do INSS.

Memórias do inferno, por Bernardo Mello Franco

O Globo

"Anatomia do caos", de Dandara Ferreira, reconstitui atuação de Bolsonaro a favor do vírus

Em depoimento ao Senado, o taxista Márcio Antônio Silva lembrou a última vez que viu o filho, morto aos 25 anos. O corpo do rapaz estava embrulhado num saco plástico, seguindo os protocolos da pandemia.

“Minha dor não é mimimi”, desabafou o pai enlutado. Representava milhares de famílias ofendidas por um presidente que fazia piada com a tragédia, recusava-se a comprar vacinas e chamava cidadãos de “frouxos” e “maricas”.

A emoção de Márcio humaniza a pauleira de “Anatomia do caos”, que estreia semana que vem nos cinemas. O documentário de Dandara Ferreira reconstitui os passos da CPI da Covid, que propôs o indiciamento de Jair Bolsonaro e outros 77 suspeitos de crimes na emergência sanitária.

Lula precisa de um momento Messi, por Elio Gaspari

O Globo

Um presidente reprovado por metade dos entrevistados é o preferido com dez pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado

Depois de ter perdido um pênalti, Messi fez dois gols contra a Áustria e decidiu a partida. Terminada a Copa, começará a campanha eleitoral. Até outubro, Lula precisará destravar uma dissonância das pesquisas. Segundo o Ipec, 50% dos entrevistados desaprovam seu governo. Segundo o Datafolha, 38% acham que Lula 3.0 é ruim, ante 32% satisfeitos. Tudo bem, perdendo um pênalti, Messi não é mais o mesmo.

Fulanizando a disputa, o Datafolha mostrou que Lula teria 41% contra 31% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A terceira via patina com Ronaldo Caiado e Renan Santos (3%), mais Romeu Zema e Aécio Neves (2%).

Um presidente reprovado por metade dos entrevistados é o preferido com 10 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado. Marcando um gol poucos minutos depois, Messi é o grande artilheiro das Copas.

Digimais, Master e a ameaça de um risco sistêmico silencioso, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Além das possíveis infrações penais, o caso do banco do Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, é a repetição do modelo observado anteriormente no Banco Master

A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal (PF) contra o Banco Digimais, controlado pelo empresário e chefe religioso Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, vai além do que seria mais um escândalo financeiro. As suspeitas de manipulação contábil, ocultação de prejuízos, superavaliação de ativos, venda de créditos sem lastro e transferência de riscos para terceiros revelam um padrão recorrente de comportamento em instituições financeiras de médio porte que trabalham com altas taxas de risco. Isso pode representar uma ameaça estrutural à estabilidade do sistema financeiro nacional.

Desigualdade se tornou tão comum que injustiça não é mais vista como emergência moral, por Ricardo Viveiros*

Folha de S. Paulo

Reivindicar que pessoas vivam sem fome e sem medo é tratado como mera opinião política

Extremistas veem demandas de dignidade como excessos e ameaças ideológicas

É estranho nascer, crescer e viver em um país como o Brasil. A cada novo dia sinto que defender a dignidade humana é visto como um posicionamento "ideológico" questionável, e não um mínimo princípio ético. Como se reivindicar que as pessoas vivam sem fome, sem medo, sem abandono do Estado ou sem violência estrutural fosse apenas mais uma opinião política dentro do mercado eleitoreiro, e não um princípio básico de convivência.

Sabemos que a democracia implica debater e disputar ideias, até persuadir pelo diálogo. Mas há uma enorme diferença entre discutir modelos econômicos ou formas de administração do Estado e precisar esclarecer alguém de que certos grupos humanos merecem direitos, proteção e condições materiais mínimas. Dignidade.

O banco de Edir Macedo no templo da perdição que junta finança, crime e política no Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Digimais maquiava balanços para esconder que estava quebrado e sumir com dinheiro, diz PF

Estouro da boiada de fintechs facilitou união de facções, políticos e dinheiro do mais podre

Há podridão extensa na finança —se estende da bandidagem de rua à da política. Isto é, crimes financeiros, gangues no controle de instituições financeiras, o crime organizado "comum" se valendo de instituições de pagamentos, "fintechs", e fundos para sumir com dinheiro, com apoio de parte da elite política graúda. Nem vamos lembrar da Americanas e de tantas empresas com balanços "com problemas".

O Digimais pode ser um Masterzinho, diz a Polícia Federal. Ou mais do que isso. Edir Macedodono do banco, não ocupa ou ocupou cargo político, mas lidera corrente do evangelismo político. Ele, seus vassalos ou fiéis poderosos mandam em um partido, o Republicanos. O Congresso está à beira de aprovar mais favores tributários para igrejas.

Dribles do acaso, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Aleatoriedade tem mais influência no futebol do que em outros esportes coletivos

Raridade do gol e abundância de eventos imprevistos estão entre as razões da diferença

O ser humano é um bicho esquisito. Como espécie, temos horror ao acaso. Inventamos as religiões precisamente para fingir que ele não existe. Mas, quando se trata de eleger um esporte, a maior parte do mundo civilizado fica com o futebol. E o que caracteriza o futebol é justamente expor-se muito mais ao acaso do que outros esportes coletivos. É o imponderável que dá sabor à coisa. No basquete, é altamente improvável que um time muito ruim vença um muito bom, mas, no futebol, zebras fazem parte da ordem natural dos acontecimentos.

A hora e a vez do ‘salva-se quem puder’, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

A política virou um “salve-se quem puder”. A quase três meses da eleição de outubro, o Palácio do Planalto já se prepara para enfrentar uma nova leva de investigações da Polícia Federal contra a chamada “República da Bahia”, com potencial para atingir homens da confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Interlocutores de Lula receberam informações de que, além do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa poderá ficar muito mal na foto.

Lá vem o dólar, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Fatores diversos vão afetar o valor do dólar em cada país; No caso do Brasil, a eleição será o principal

Não são poucos os analistas que apostam que o pior momento para o dólar em 2026 ficou para trás, mas ainda não há consenso sobre se a valorização ante as principais moedas fortes e também de países emergentes, registrada na semana passada, seguirá firme no segundo semestre do ano.

Os que defendem que a trajetória do valor global do dólar é de fortalecimento argumentam que, no curto prazo, a expectativa de alta dos juros pelo Federal Reserve (Fed) será o principal vetor de influência sobre o mercado de câmbio. Até há pouco tempo, o dólar e as outras moedas mundiais vinham oscilando conforme os rumos da guerra no Irã, que gerou um choque de oferta e fez disparar os preços do petróleo. É justamente agora, quando as cotações do petróleo começam a recuar com a resolução do conflito no Oriente Médio, que os próximos passos da política monetária americana assumem maior peso sobre o humor dos investidores.

Banco Digimais assumiu consignados com militares da Aeronáutica, por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Banco de Edir Macedo foi alvo de operação da PF; procurada, Força não respondeu

Aeronáutica tem um contrato até 2030 para crédito consignado com o Banco Digimais, que nesta terça-feira, 23, foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) e teve R$ 670 milhões bloqueados de investigados, a exemplo do dono da empresa e líder da Igreja Universal, Edir Macedo. A PF aponta que o Digimais replicou a tática fraudulenta do Banco Master, que também fazia descontos na folha de pagamento dos militares, como mostrou a Coluna do Estadão.

Um legado de Fachin para a reforma tributária, por Fernando Exman

Valor Econômico

STF quer evitar uma avalanche de processos capaz de dominar a agenda de 2027

O turbilhão no qual foi envolvido o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou em segundo plano uma iniciativa crucial de seu presidente, o ministro Edson Fachin, para tentar reduzir o potencial contencioso envolvendo a reforma tributária do consumo.

Poucos discordam que a aprovação da reforma, ocorrida após mais de três décadas de idas e vindas, foi um feito histórico. Ela deve finalmente simplificar o que se acostumou a chamar de “manicômio tributário”, o emaranhado de regras e impostos que por anos atrapalhou empreendedores e travou o desenvolvimento nacional.

A seis meses da reforma, CBS ainda é mistério, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Calendário eleitoral é o motivo da demora, pelo que se fala nos bastidores

Faltando 191 dias para a estreia do novo sistema tributário sobre o consumo, ainda não se sabe qual será a alíquota da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que começará a ser cobrada no dia 1º de janeiro. Com isso, empresas não conseguem definir preços e estratégia para 2027.

O principal motivo da demora é o calendário eleitoral, pelo que se fala nos bastidores. Para calcular a alíquota da CBS, é preciso saber primeiro quanto será arrecadado com o Imposto Seletivo, também criado pela reforma e conhecido como “imposto do pecado”. Vai ser cobrado sobre bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas, cigarros, veículos, aeronaves, produtos minerais e bets.

O homem que virou cinema, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Alfredo Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE

Alfredo Bertini faleceu durante cirurgia de transplante de órgão no terceiro dia da 30ª edição do Festival de Cinema de Pernambuco, que ele idealizou e realizou anualmente desde 1996. Se esse fosse o roteiro de um filme, o diretor seria acusado de falsificar a realidade para servir ao drama; a crítica diria que a vida do personagem — economista, cinéfilo, escritor, filósofo, pai de família, agregador de amigos e realizador do festival — seria suficiente para dispensar esse recurso teatral; os assistentes da 30ª edição do Cine/PE sentiram a emoção de viverem a realidade mais surpreendente do que a ficção a que assistiam na tela. Na sua 30ª edição, Bertini foi mais do que o organizador do Cine/PE, foi seu principal personagem. 

200 anos do Congresso Anfictiônico do Panamá: passado e presente, por Gustavo Menon*

Correio Braziliense

O sonho ambicioso de criar uma "Pátria Grande" latino-americana não prosperou. O quadro é de fragmentação política, divisão social e desintegração econômica na América Latina

Em 22 de junho de 1826, iniciou-se, no istmo do Panamá, o Congresso Anfictiônico, convocado por Simón Bolívar como ápice das lutas de independência que buscavam transformar os antigos vice-reinos e colônias da América Latina em uma grande comunidade política. Tratava-se de mais do que uma conferência diplomática: era o momento de tentar materializar o ideal de uma confederação de repúblicas soberanas, capaz de defender a independência recém-conquistada e formular uma política comum de autonomia frente às potências da época. O diagnóstico do "libertador" era claro: sem união, a fragmentação política abriria caminho a novas formas de dominação externa. Bolívar estava preocupado com questões de vulnerabilidade e dependência das repúblicas recém-formadas diante do sistema internacional. Passados 200 anos, mesmo que com novas configurações, a inquietação persiste, em razão, por exemplo, de aberturas para a atuação de forças extrarregionais sobre o subcontinente. 

Poesia | Ela, de Machado de Assis

 

Música | Elis Regina - Sinal Fechado (Paulinho da Viola)