O Globo
Aquecendo os motores para a campanha pela reeleição, Lula fez uma reunião para se despedir dos ministros que disputarão algum mandato em outubro. Na fala transmitida pelo YouTube, o presidente convocou seu time para “ir pra cima” de Flávio Bolsonaro, mostrando que seu governo fez “infinitamente mais” que o anterior. Rui Costa, da Casa Civil, fez uma apresentação comparando Lula e Jair Bolsonaro, classificando o resultado de “mudança da água para o vinho”. E sugeriu que o colega da Comunicação, Sidônio Palmeira, não estava fazendo seu trabalho direito.
“Minha dúvida, Sidônio, é se o povo sabe
disso. Eu acho que a gente tem que colocar como foco, comparar e mostrar. O
povo tem o direito de conhecer esses números, esses dados”.
Não é novidade a comunicação ser
responsabilizada quando as coisas vão mal. Tampouco surpreende a falta de
vontade do governo de fazer qualquer autocrítica. Ou a fila do INSS,
em vez de desaparecer como na promessa de campanha, não dobrou? E a picanha com
cerveja, que deveria se tornar farta na mesa do brasileiro, não deu lugar ao
endividamento recorde da população?
Não se pode, ainda, afirmar categoricamente
que são essas as razões por que a reprovação do governo não cai para menos de
51%, ou que expliquem por que Flávio Bolsonaro já aparece empatado com Lula nas
pesquisas sobre um eventual segundo turno entre eles. Mas fingir que não
reconhece os próprios problemas tampouco ajuda a recuperar terreno.
Aparentemente, o presidente aposta que a
força da máquina e um trabalho bem feito de desconstrução do adversário será
suficiente para conduzi-lo à vitória. Pode dar certo, já que o passivo político
de Flávio é pesado, e há muito a desconstruir ali. Mas o caminho até outubro
será acidentado, e não só pelas razões costumeiras.
Desta vez, outros fatores influenciarão o
jogo, e o principal será o caso do Banco Master.
Por mais que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF)
estejam empenhados em sufocar as CPIs para impedir que os tentáculos do esquema
comandado por Daniel
Vorcaro venham à tona, há uma delação vindo aí, com revelações
cujos efeitos ainda são difíceis de prever.
O discurso adotado até agora por auxiliares
do presidente sugere que a estratégia é jogar toda a culpa pelo crescimento do
Master e suas fraudes na gestão de Roberto
Campos Neto no Banco Central.
Que Campos Neto foi um dos responsáveis pela emergência do Master é inegável,
mas tampouco é crível supor que foi o único, uma vez que a fauna sob a aba de
Vorcaro era diversa, extensa e muito bem remunerada.
Não basta, portanto, repetir que a culpa é de
Bolsonaro e Campos Neto. E é por essa razão que, de acordo com alguns
interlocutores bastante próximos, Lula ainda não desistiu de articular um “pouso
suave” para o escândalo, com o mínimo de danos possível para o sistema político
e para sua própria reeleição.
A questão é que, do ponto de vista de Lula,
quem mais precisa ser salvo não é um integrante do governo, e sim um ministro
do Supremo, Alexandre de
Moraes. Embora não tenha envolvimento direto com o caso (pelo menos
até agora), Lula concluiu que não adianta tentar se afastar do ministro e
deixá-lo à própria sorte.
Primeiro porque, se continuar no cargo, ele
será o presidente do STF nos dois primeiros anos de um eventual quarto mandato
de Lula. E depois porque Moraes é associado ao petista em razão do processo da
trama golpista, e seus problemas respingam no governo. Assim, a saída em
avaliação no Planalto é empurrar Vorcaro para o colo de outro ministro do
Supremo enrolado com o Master, Dias Toffoli,
poupando Moraes.
A ideia se baseia nas reiteradas garantias
que Lula recebeu do diretor-geral da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues, de que não há nada nas investigações que
possa complicar ainda mais a situação do ministro do que o já revelado contrato
de R$ 130 milhões de sua mulher com o Master.
Desde então, já surgiram as mensagens
trocadas com o banqueiro no dia de sua primeira prisão e, agora, a revelação,
pela Folha de S. Paulo, de que o casal Moraes viajava em seus aviões. E Vorcaro
ainda nem começou a falar.
Tudo considerado, resta evidente que Lula
entende bem o tamanho do desafio à frente, mas talvez ainda acredite que
conseguirá controlar as variáveis do jogo. É compreensível. Ele chegou aonde
chegou confiando no próprio taco. Mas isso é bem diferente de se entregar ao
autoengano como forma de gerir as crises que se apresentam.

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