quinta-feira, 2 de abril de 2026

A República do autoengano, por Malu Gaspar

O Globo

Aquecendo os motores para a campanha pela reeleição, Lula fez uma reunião para se despedir dos ministros que disputarão algum mandato em outubro. Na fala transmitida pelo YouTube, o presidente convocou seu time para “ir pra cima” de Flávio Bolsonaro, mostrando que seu governo fez “infinitamente mais” que o anterior. Rui Costa, da Casa Civil, fez uma apresentação comparando Lula e Jair Bolsonaro, classificando o resultado de “mudança da água para o vinho”. E sugeriu que o colega da Comunicação, Sidônio Palmeira, não estava fazendo seu trabalho direito.

“Minha dúvida, Sidônio, é se o povo sabe disso. Eu acho que a gente tem que colocar como foco, comparar e mostrar. O povo tem o direito de conhecer esses números, esses dados”.

Não é novidade a comunicação ser responsabilizada quando as coisas vão mal. Tampouco surpreende a falta de vontade do governo de fazer qualquer autocrítica. Ou a fila do INSS, em vez de desaparecer como na promessa de campanha, não dobrou? E a picanha com cerveja, que deveria se tornar farta na mesa do brasileiro, não deu lugar ao endividamento recorde da população?

Não se pode, ainda, afirmar categoricamente que são essas as razões por que a reprovação do governo não cai para menos de 51%, ou que expliquem por que Flávio Bolsonaro já aparece empatado com Lula nas pesquisas sobre um eventual segundo turno entre eles. Mas fingir que não reconhece os próprios problemas tampouco ajuda a recuperar terreno.

Aparentemente, o presidente aposta que a força da máquina e um trabalho bem feito de desconstrução do adversário será suficiente para conduzi-lo à vitória. Pode dar certo, já que o passivo político de Flávio é pesado, e há muito a desconstruir ali. Mas o caminho até outubro será acidentado, e não só pelas razões costumeiras.

Desta vez, outros fatores influenciarão o jogo, e o principal será o caso do Banco Master. Por mais que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) estejam empenhados em sufocar as CPIs para impedir que os tentáculos do esquema comandado por Daniel Vorcaro venham à tona, há uma delação vindo aí, com revelações cujos efeitos ainda são difíceis de prever.

O discurso adotado até agora por auxiliares do presidente sugere que a estratégia é jogar toda a culpa pelo crescimento do Master e suas fraudes na gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central. Que Campos Neto foi um dos responsáveis pela emergência do Master é inegável, mas tampouco é crível supor que foi o único, uma vez que a fauna sob a aba de Vorcaro era diversa, extensa e muito bem remunerada.

Não basta, portanto, repetir que a culpa é de Bolsonaro e Campos Neto. E é por essa razão que, de acordo com alguns interlocutores bastante próximos, Lula ainda não desistiu de articular um “pouso suave” para o escândalo, com o mínimo de danos possível para o sistema político e para sua própria reeleição.

A questão é que, do ponto de vista de Lula, quem mais precisa ser salvo não é um integrante do governo, e sim um ministro do Supremo, Alexandre de Moraes. Embora não tenha envolvimento direto com o caso (pelo menos até agora), Lula concluiu que não adianta tentar se afastar do ministro e deixá-lo à própria sorte.

Primeiro porque, se continuar no cargo, ele será o presidente do STF nos dois primeiros anos de um eventual quarto mandato de Lula. E depois porque Moraes é associado ao petista em razão do processo da trama golpista, e seus problemas respingam no governo. Assim, a saída em avaliação no Planalto é empurrar Vorcaro para o colo de outro ministro do Supremo enrolado com o Master, Dias Toffoli, poupando Moraes.

A ideia se baseia nas reiteradas garantias que Lula recebeu do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, de que não há nada nas investigações que possa complicar ainda mais a situação do ministro do que o já revelado contrato de R$ 130 milhões de sua mulher com o Master.

Desde então, já surgiram as mensagens trocadas com o banqueiro no dia de sua primeira prisão e, agora, a revelação, pela Folha de S. Paulo, de que o casal Moraes viajava em seus aviões. E Vorcaro ainda nem começou a falar.

Tudo considerado, resta evidente que Lula entende bem o tamanho do desafio à frente, mas talvez ainda acredite que conseguirá controlar as variáveis do jogo. É compreensível. Ele chegou aonde chegou confiando no próprio taco. Mas isso é bem diferente de se entregar ao autoengano como forma de gerir as crises que se apresentam.

 

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