quinta-feira, 2 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alcolumbre tem de ser ágil ao marcar sabatina de Messias

Por O Globo

Lula enviou enfim ao Senado mensagem indicando chefe da AGU a vaga no Supremo

Depois de mais de quatro meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou enfim ao Senado a mensagem oficializando a escolha do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria do ex-ministro Luís Roberto Barroso. A escolha de Messias foi publicada em novembro no Diário Oficial. Nunca o chefe do Executivo protelou tanto o envio da mensagem, mera formalidade.

Nenhuma desavença entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), justifica tamanho atraso. Desde a vacância, em outubro, o STF tem funcionado com apenas dez ministros. Isso faz enorme diferença no fluxo de trabalho da Corte, a que podem recorrer partidos políticos, sindicatos e outras entidades sem passar por instâncias inferiores. O acúmulo de dezenas de milhares de processos adia decisões importantes para o país.

Alcolumbre chegou a marcar a sabatina de Messias para 10 de dezembro. O prazo desagradou ao governo, que o considerou apertado para que Messias pudesse se apresentar aos senadores. Ante o risco de que seu nome fosse rejeitado, Lula decidiu equivocadamente segurar o envio da mensagem. Isso só fez aumentar o mal-estar dos parlamentares com o governo.

Messias não era o nome preferido de Alcolumbre, que defendia o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga de Barroso. Alcolumbre também se queixou de não ter recebido sequer um telefonema de Lula explicando a decisão. Mas é sempre bom lembrar que a indicação de ministros ao Supremo é prerrogativa do presidente da República. As únicas exigências da Constituição são reputação ilibada e notório saber jurídico. São esses os pré-requisitos que os senadores da Comissão de Constituição e Justiça devem analisar objetivamente na sabatina, submetendo Messias a arguição robusta capaz de avaliar seus conhecimentos jurídicos. Se passar pela inquirição, ele ainda precisará do voto de 41 dos 81 senadores para ocupar a vaga no Supremo.

Messias é advogado, mestre e doutor em Direito pela Universidade de Brasília. Tem bom trânsito entre todos os ministros da Corte, inclusive os indicados por Bolsonaro, e costuma ser um eficiente interlocutor do governo. Mas não foram essas as atribuições que nortearam a escolha de Lula. Frustrado com indicados em governos anteriores, Lula tem priorizado no terceiro mandato fidelidade e proximidade política. Foi assim com Cristiano Zanin e Flávio Dino. Não quer dizer que ambos não estivessem habilitados para o cargo, ao contrário. Mas competência jurídica não foi o principal fator levado em conta pelo presidente.

Historicamente, o Senado costuma referendar as indicações do presidente da República — a última rejeição aconteceu no governo Floriano Peixoto. Mas ninguém se arrisca a prever o resultado diante do clima cada vez mais conflagrado entre Planalto e Senado — ontem Lula chegou a dizer que “senador com mandato de oito anos pensa que é Deus”. Alcolumbre não deve se guiar por dissensos políticos. Ele deve marcar a sabatina com presteza, e os senadores devem promover uma inquirição rigorosa para avaliar se Messias está à altura do cargo. Seria uma lástima empurrar a tramitação para depois das eleições, como alguns cogitam. O Supremo não pode continuar a funcionar com um ministro a menos.

Esquema bilionário de fraudes contra Receita expõe serviço público corrupto

Por O Globo

Operação em São Paulo desbaratou venda de créditos irregulares de ICMS a empresas conhecidas

Foi oportuna a operação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagrada na semana passada para investigar indícios de um esquema bilionário de fraude envolvendo facilitação de acesso ou aumento de créditos de ICMS para empresas de vários setores. A Operação Fisco Paralelo, do Grupo Especial de Repressão a Delitos Econômicos do MP paulista, teve como alvos 16 funcionários e aposentados da Secretaria da Fazenda e cumpriu 22 mandados de busca e apreensão em São Paulo, São José dos Campos, Campinas e Vinhedo. Entre as 17 empresas suspeitas de envolvimento no esquema, estão marcas conhecidas, como Carrefour, Casas Bahia, Caoa, Center Castilho, Ipiranga, Vigor ou Cimed. Evidentemente, o envolvimento de qualquer executivo de uma dessas empresas no esquema não significa necessariamente que as fraudes contassem com apoio da cúpula. Todas devem ter o direito de se explicar e se defender.

De acordo com a investigação, o grupo criminoso expedia ordens de serviço e fiscalização, depois aproveitava as abordagens para “oferecer a venda de ‘serviços’ para reconhecimento de créditos de ICMS” ou “a diminuição das sanções administrativas pelas irregularidades que eles haviam constatado”. Nem todas as empresas resistiam à tentativa de extorsão. Num dos exemplos exibidos na denúncia, há mensagens trocadas por uma executiva responsável pela gestão fiscal do Carrefour e um auditor da receita estadual, negociando os termos de um “processo de ressarcimento” indevido.

No grupo Casas Bahia, também alvo da investigação, os indícios mostram fiscais da regional tributária da Região Metropolitana de São Paulo debatendo a liberação para o varejista de um valor acima do pedido pela própria empresa. Na farmacêutica Cimed, o MP verifica “possível relação criminosa de corrupção” entre um chefe de delegacia local da Secretaria da Fazenda e um representante da empresa.

A investigação foi um desdobramento da Operação Ícaro, deflagrada em agosto do ano passado, que resultou em denúncia por corrupção ativa contra o empresário Sidney Oliveira, do Grupo Ultrafarma. Segundo a promotoria, Oliveira pagou propinas milionárias a fiscais do Fisco entre 2021 e 2025 em troca de ressarcimentos indevidos no valor de quase R$ 330 milhões.

Toda suspeita de vulto envolvendo o Fisco deve resultar em apuração rigorosa. Ao reduzirem receitas do governo, as fraudes atrasam ou inviabilizam investimentos públicos. Deterioram o ambiente de negócios, deixando em desvantagem as empresas que se esforçam para estar em dia com seus impostos sem pagar propina. As autoridades estaduais também deveriam melhorar seus sistemas de resposta a denúncias. O fato de esquemas milionários durarem anos sem ser desmascarados mostra que há muitas brechas exploradas por fiscais corruptos e empresários que sucumbem a propostas ilegais. Não pode haver trégua no combate às organizações criminosas formadas por servidores públicos.

Escolha de Messias se resume à fidelidade a Lula

Por Folha de S. Paulo

Senadores farão bem em questionar indicado sobre código de ética e fim do inquérito das fake news

Providências são corretamente defendidos pelo presidente da corte, Edson Fachin; parlamentares têm bons motivos para resistir a nome

O panorama político era desfavorável à ida de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal em novembro, quando a escolha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi anunciada. Passados mais de quatro meses, a indicação foi enfim formalizada, mas à resistência do Senado soma-se agora a profunda crise de credibilidade da corte.

Havia e há bons motivos para contestar o nome proposto pelo Planalto. Depois de ver a cúpula do PT condenada no escândalo do mensalão por um STF de maioria apontada por presidentes petistas, além de ter sido ele próprio condenado por corrupção em instâncias inferiores, Lula mudou —para pior— seus critérios de escolha de magistrados.

Deixou de buscar juristas e passou a recompensar lealdade e subordinação. Para a primeira vaga disponível neste terceiro mandato, apontou ninguém menos que seu advogado pessoal, Cristiano Zanin; depois, um aliado político, Flávio Dino. Agora, quer emplacar o atual advogado-geral da União, de longos serviços prestados a administrações petistas.

Se fidelidade e proximidade são critérios aceitáveis para postos no gabinete presidencial, tornam-se sinais de degradação institucional quando o cargo em questão é o de ministro da mais alta corte do país —que, no caso do escolhido, permanecerá na função pelos próximos 29 anos.

Infelizmente, os empecilhos políticos à indicação de Messias pouco ou nada têm a ver com tais considerações. Zanin, vale lembrar, passou sem problemas pela sabatina e pela votação no Senado —que há mais de um século vem apenas carimbando nomes propostos por presidentes da República. Foi só no longínquo ano de 1894 que se vetaram cinco indicações de Floriano Peixoto.

O que move parte dos senadores, notadamente o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), é tão somente o fato de que tinham outro candidato para o cargo, o senador Rodrigo Pacheco, agora no PSB mineiro.

Por causa disso, Lula não havia formalizado a escolha até agora. Não se sabe ao certo se o fez por julgar que o caminho se tornou mais seguro para o aliado ou por temer que a deterioração institucional se agrave à frente.

Fato é que, se vier mesmo a ocorrer, a chegada de mais um ministro indicado mais pela confiança do chefe do que por notável saber jurídico fragiliza, a longo prazo, um Supremo que precisa com urgência voltar a merecer o pleno respeito da sociedade.

Uma questão pertinente a ser feita a Messias em sua sabatina, aliás, é se ele apoiará posições do presidente da corte, Edson Fachin, em favor da criação de um código de ética e conduta para os ministros e do encerramento, já mais que tardio, do anômalo inquérito das fake news.

Trata-se do mínimo a ser feito —e que não exclui a necessidade de investigação de dois de seus possíveis futuros colegas de toga por envolvimento no escândalo do Banco Master.

Nova linha de metrô começa a superar atraso em SP

Por Folha de S. Paulo

Conexão entre o Morumbi e o aeroporto de Congonhas traz alívio ao sistema da capital paulista

Rápida expansão é essencial para a mobilidade urbana e o futuro sustentável da metrópole, o que exigirá investimentos e parcerias privadas

Não há outro caminho para as metrópoles: a fluidez na mobilidade urbana passa pelos trilhos do transporte de massa, com metrô e trens conectados a modais complementares, como linhas de ônibus em corredores exclusivos e ciclovias.

A sustentabilidade desse modelo exige, sobretudo, capilaridade —justamente o ponto mais frágil do sistema de transporte de São Paulo, em particular o metroviário, este reconhecido como um dos mais eficientes do mundo.

A primeira linha foi inaugurada tardiamente, em 1974. De lá para cá, a expansão do metrô nem de longe acompanhou a demanda.

Ritmo lento, atrasos e alto custo das obras; concentração dos projetos em regiões centrais, em detrimento da periferia; e contratos problemáticos refletem hoje em superlotação nos horários de pico, longos deslocamentos e forte dependência do automóvel e das viagens por aplicativos.

Exemplo eloquente é a inauguração da linha 17-Ouro, na terça-feira (31), a primeira a entrar em funcionamento na capital paulista nos últimos 11 anos.

O monotrilho elevado, que conecta o bairro do Morumbi ao aeroporto de Congonhas, com sete estações iniciais, trará alívio significativo a milhares de passageiros e ao tráfego pesado da região.

A boa nova, contudo, não esconde o fato de que o ramal havia sido prometido ainda para a Copa de 2014 —logo, só ficou pronto quase três Mundiais depois.

Esperada para 2010, a linha 6-Laranja, vínculo fundamental entre a populosa Brasilândia e o centro, deverá abrir nove estações em outubro próximo, segundo o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Nos anos subsequentes estão previstos novos ramais e expansões, inclusive para municípios vizinhos da Grande SP, o que deve desafogar o fluxo do metrô paulistano, marcado por curto intervalo entre os trens, organização e confiabilidade operacional.

De modo geral, a ampliação da malha vai muito além de ganhar tempo com o ir e vir. Mais transporte público traz inegáveis ganhos ambientais, impacta a produtividade e a qualidade de vida, organiza melhor o espaço urbano e gera inclusão social.

Com 105 km de extensão (a Cidade do México, para efeito de comparação, dispõe de cerca de 220 km), a rede da maior metrópole do país tem um desafio colossal pela frente.

Essa longa trajetória exigirá investimentos de vulto, cumprimento de prazos, contratos transparentes e parcerias com a iniciativa privada, tanto para a realização das obras como para operar os sistemas.

A culpa não é de Sidônio

Por O Estado de S. Paulo

Reprimenda de Rui Costa ao chefe da Secom é sinal de desespero de um governo premido pela impopularidade. Problema central não é o trabalho do marqueteiro, mas a falta de rumo do governo

A reprimenda pública feita pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, ao colega da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, diz mais sobre o desespero de um governo premido pela impopularidade do que sobre a qualidade do trabalho de seu marqueteiro. A seis meses das eleições, a inquietação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o avanço do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto é compreensível. Mas o diagnóstico de seu “xerife” no Palácio do Planalto está errado. Não é a falta de comunicação que explica as agruras do incumbente em campanha pela reeleição. É a falta de rumo do chefe de governo.

Ao sugerir que a Secom deveria “comparar” os governos Lula e Jair Bolsonaro para evidenciar os supostos êxitos da atual gestão, Costa, no melhor cenário, revelou absoluta ignorância sobre a legislação que rege a comunicação pública, que não pode ser instrumentalizada para fins político-eleitorais. Trata-se de uma vedação explícita, que visa a resguardar o melhor interesse público e impedir o uso da máquina estatal como instrumento de campanha. É um limite republicano que jamais pode ser ignorado. Que o tenha sido por ninguém menos que o chefe da Casa Civil é improvável, o que leva à inevitável inferência de que Rui Costa parece preferir sobrepor o interesse eleitoral do chefe ao ordenamento jurídico.

Ainda assim, mesmo que tal barreira legal não existisse, a cobrança permaneceria injusta. A ideia de que uma propaganda mais eficiente seria capaz de reverter a percepção negativa que a maioria dos eleitores tem sobre o governo parte de uma premissa frágil, qual seja, a de que há, de fato, um conjunto consistente de realizações e um projeto claro de país a serem comunicados. Não há. Eis o busílis. Lula chega à reta final do mandato sem oferecer à Nação um horizonte nítido, em que as prioridades estejam claras. Decisões são tomadas por espasmos, ao sabor das circunstâncias, dos sentimentos fugazes das mídias sociais e, muitas vezes, recorrendo-se ao velho arsenal populista do PT.

Atribuir à comunicação a responsabilidade pelo desgaste político de Lula é uma forma fácil – e injusta – de evitar enfrentar o problema essencial: o presidente não sabe para que quer mais quatro anos de mandato, a não ser para satisfazer seu desejo pessoal por poder. Não há marqueteiro capaz de suprir a ausência de estratégia e formulação programática. O chefe da Secom, um publicitário experiente, pode até calibrar discursos, organizar publicações entre os ministérios e tentar conter danos – como fez, por exemplo, ao evitar que a primeira-dama Janja da Silva desfilasse pela Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí e ampliasse ainda mais o vexame que foi aquele ridículo culto à personalidade de Lula. Mas Sidônio não é mágico. Não pode criar substância onde isso não existe.

Convém reconhecer, nesse sentido, que houve melhora em relação à gestão anterior da Secom, sob o petista Paulo Pimenta. Ainda que persistam não poucos problemas, o trabalho da Secom hoje é bem menos amador. Isso não significa eficiência nem tampouco respeito irrestrito ao princípio da impessoalidade. A tentação dos petistas em usar órgãos de governo como extensões do palanque continua forte como sempre foi. Mas não é a comunicação, repita-se, que explica a curva descendente de Lula nas pesquisas.

Lula governa sem planejamento estratégico, movido mais pela necessidade de manter-se no poder – por apego, vaidade ou ambos – do que por um projeto de governo estruturado para o País. Por isso, quando tudo vai mal, dá vazão ao velho cacoete de buscar causas externas para suas contrariedades. Se as famílias estão endividadas, o problema é o comportamento perdulário dos brasileiros. Se há falhas administrativas, invoca-se a “herança maldita”. Se a popularidade cai, responsabiliza-se a imprensa e a comunicação oficial. Lula, o demiurgo, jamais falha. Foi isso o que Rui Costa disse, sem dizê-lo abertamente.

Sidônio não faz milagres. E não deveria ser transformado em bode expiatório de um problema que está acima dele. Comunicação pode potencializar acertos, mas não supre a falta deles.

Lei que criminaliza misoginia é perigosa

Por O Estado de S. Paulo

Com tipificação excessivamente vaga, qualquer manifestação que uma mulher considere constrangedora pode ser enquadrada como crime, o que limita a liberdade de expressão

O Direito brasileiro avançou consideravelmente nos últimos tempos no que diz respeito à proteção das mulheres, desde a punição ao crime de feminicídio até o fortalecimento da Lei Maria da Penha, passando pelo fim da infame “legítima defesa da honra”. Essas medidas mostram que a sociedade parece finalmente ter entendido que as mulheres, por muito tempo tratadas como cidadãs de segunda classe, precisam de um arcabouço jurídico adequado à sua condição específica, algo que este jornal apoia com entusiasmo. O problema é o oportunismo político que, em nome da defesa das mulheres, atropela garantias constitucionais.

Recentemente, por exemplo, o Senado aprovou um projeto que criminaliza toda “conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres”, com penas que chegam a cinco anos de prisão, sob o regime da Lei Antirracismo. O tipo é vago e a sanção, pesada. Essa combinação deveria causar desconforto mesmo entre quem vê mérito na intenção da proposta.

A Lei Antirracismo já nasceu com vícios que só foram agravados com o tempo. O maior é a confusão entre “discriminação” – a restrição ao exercício de algum direito – e “preconceito” – uma disposição subjetiva que pode ou não se traduzir em dolo. Democracias maduras sempre distinguiram entre ações que causam dano concreto – perseguição, violência, segregação – e expressões rudes ou repulsivas. Ao punir “aversões”, o projeto transfere o que deveria ser matéria de reprovação social para o terreno da coerção estatal.

A lei orienta o juiz a considerar como discriminatória “qualquer atitude” que cause “constrangimento” ou “vergonha”. O foco é deslocado da conduta do ofensor para a experiência emocional do ofendido, desviando o Direito Penal de sua função de coibir ações que causem danos objetivos e lhe atribuindo o papel de corrigir convicções e gerenciar sentimentos.

A aprovação unânime, vendida como um momento de lucidez coletiva, foi apenas um espetáculo de santimônia e conformismo. Do PT de Randolfe Rodrigues ao PL de Flávio Bolsonaro, 67 senadores votaram “sim”, ou por convicção autoritária ou por pusilanimidade – não há alternativa virtuosa. O que os acomuna é a hipocrisia.

De um lado, a esquerda, sempre no registro do abolicionismo penal, exige restrições à polícia, reduções de penas e desencarceramento em massa, mas, quando se trata de vigiar e punir as “fobias” do cidadão comum, sua fúria persecutória não tem limites: cancelamentos, censuras, linchamentos virtuais, cadeia. Palavras se tornam “violência” e os crimes, “inafiançáveis”, “imprescritíveis”, “hediondos”. A direita, por sua vez, está sempre denunciando o ativismo judicial, mas entregou à burocracia estatal um aparelho persecutório apto a castigar virtualmente qualquer um por qualquer coisa.

Críticas ao projeto são ridicularizadas como “alarmistas” e “caricatas”. A deputada Tabata Amaral, por exemplo, não acredita que a lei punirá piadas, mas uma alteração recente na Lei Antirracismo estabeleceu justamente o humor como agravante. Com base nesse dispositivo, um comediante chegou a ser sentenciado a oito anos de cadeia.

A relatora do projeto, Soraya Thronicke, deu um exemplo do que seria misoginia: dizer que “lugar de mulher é na cozinha”. Ou então: “Não precisa reagir assim, você está de TPM?”. Em outra proposta, a autora do projeto, Ana Paula Lobato, definiu, entre várias formas de misoginia, “a interrupção constante da palavra” de uma mulher.

Sociedades liberais e democráticas não têm medo de palavras. Já sociedades infantilizadas e intolerantes ao desconforto e à dissidência confundem linguagem com violência e crítica com agressão. Franqueiam a um Estado paternalista a tutela do debate e a tarefa de administrar sensibilidades e purificar corações e mentes. Conflitos políticos, morais e culturais são deslocados para a esfera penal. O poder concentra mais poder, a liberdade é tratada não como direito, mas concessão – e os poderosos, a pretexto de coibir “discursos de ódio”, punem todo discurso que odeiam. É um custo alto demais a pagar pelo exibicionismo moral dos senadores. Espera-se que os deputados na Câmara impeçam que esse preço seja cobrado aos brasileiros.

A inflação da guerra

Por O Estado de S. Paulo

Há pouco a ser feito em um choque de oferta, mas um governo desesperado não quer parecer inerte

Começou com os combustíveis, mas chegará aos preços de fertilizantes e, finalmente, aos dos alimentos. A incursão dos Estados Unidos no Oriente Médio acaba de completar um mês, as expectativas de que a guerra acabaria rapidamente caíram por terra e as consequências do fechamento parcial do Estreito de Ormuz já começam a afetar as projeções de inflação. Tem sido assim no mundo todo, e não seria diferente no Brasil.

O mais recente Boletim Focus mostrou que a projeção para o IPCA deste ano subiu pela terceira semana consecutiva, para 4,31%, e voltou a se aproximar do limite superior da meta de inflação. Há um mês, a expectativa do mercado financeiro era de 3,91%. Os analistas também ajustaram suas previsões para a Selic. Se há um mês esperavam que a taxa básica de juros encerrasse o ano em 12% ao ano, agora projetam que ela fique em 12,5% ao ano.

Tal como uma profecia autorrealizável, as projeções logo chegarão ao bolso do consumidor. O comportamento dos alimentos preocupa muito, pois o item é um dos que têm maior peso no cálculo da inflação. A consultoria Logos Economia, que antes da guerra estimava que o preço dos alimentos aumentaria 3% neste ano, elevou sua previsão para 4,4% assim que os conflitos tiveram início e ajustou novamente a estimativa, para 4,6%, após a divulgação da prévia da inflação oficial.

Não bastasse a guerra, o País ainda terá de lidar com os efeitos do El Niño na safra. Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, é improvável que a inflação cheia fique abaixo dos 4% neste ano, e o limite superior dependerá essencialmente da duração do conflito. Do lado positivo, o enfraquecimento do dólar tem ajudado a atenuar esses impactos no mercado doméstico, e o aperto monetário foi tão longo e intenso que ninguém enxerga a possibilidade de o Banco Central voltar a elevar os juros tão cedo.

Há muito pouco a ser feito em um choque de oferta, mas o governo não quer correr o risco de parecer inerte perante a inflação, ainda mais no momento em que pesquisas eleitorais apontam empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. No pacote de bondades, além de conter os preços do diesel, o governo quer limitar o reajuste da conta de luz, subsidiar o botijão de gás e encontrar maneiras de reduzir o endividamento das famílias.

Em comum, todas são ações paliativas, que atacam a consequência, e não a causa dos problemas. Os combustíveis acompanham a cotação do petróleo, o custo da energia aumenta em razão dos subsídios embutidos nas tarifas e os empréstimos se tornaram impagáveis porque o governo incentiva a população a se endividar para fazer a economia girar.

O Executivo gasta mais do que arrecada e dá força à inflação, enquanto o Banco Central mantém juros elevados para tentar mantê-la o mais próximo possível da meta. A guerra no Oriente Médio e o calendário eleitoral só exacerbam essa incongruência. Resta ao País torcer para que o conflito acabe de uma vez, pois o arsenal de medidas de um governo desesperado não parece ter fim.

Sem regulação adequada, novos casos Master podem surgir

Por Valor Econômico

PLC 281, parado na Câmara, está em linha com o que existe de mais avançado na regulação bancária global hoje

Após um ano da tentativa fracassada do Master de se salvar com a ajuda do Banco Regional de Brasília (BRB), que pôs à luz do dia a inviabilidade do banco, muitos problemas se tornaram evidentes — e quase todos apontam a necessidade de ajustes relevantes na regulação. Para entender a dimensão do problema, basta dizer que, pelas regras vigentes, replicar boa parte do modelo que usou o Master ainda seria, em tese, possível hoje. Não há vedação a captar dinheiro propondo remuneração a taxas como 140% do CDI (com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, para quem aplica até R$ 250 mil) e não há regras rígidas que disciplinem os bancos pelo lado dos ativos — ou seja, quanto à forma como aplicam o dinheiro captado para obter lucro.

As regras hoje vigentes foram concebidas num país com sistema financeiro dominado por grandes bancos nacionais ou estrangeiros. Nesse mundo, que já convivia com a concorrência dos juros elevados oferecidos pelos títulos públicos, fazia sentido criar um fundo para garantir e incentivar pessoas e empresas a aplicarem seus recursos em títulos bancários, essenciais para o financiamento das instituições financeiras. Nos idos de 2010, porém, as plataformas de investimento despontaram como supermercados financeiros e viabilizaram inúmeras opções de aplicação para pessoas físicas que antes eram fiéis a seus gerentes de banco.

A concorrência é sempre bem-vinda, mas novidades, que tiveram a virtude de trazer para o sistema financeiro milhões de pessoas que não o utilizavam, costumam exigir correções de rota no médio prazo, após serem testadas. Sem o FGC, criado em 1995, e sem o advento das plataformas, um banco desconhecido que ofertasse CDBs a até 140% do CDI não teria alcançado a escala que o Master alcançou. As plataformas argumentam que agiram dentro das regras. É verdade. Mas também é fato que foram parceiras na captação que o Master realizou, na medida em que seu ecossistema foi bem remunerado para vender os CDBs da instituição financeira.

Quem sabe fazer conta também consegue concluir que nenhum empréstimo ou aplicação pagaria o suficiente para que um banco equilibrasse bem seu balanço vendendo tal quantidade de CDBs com remuneração daquela magnitude. O Master exibia incongruências visíveis a olho nu para quem tem alguma familiaridade com o mercado.

O que o episódio ensina é que reguladores e fiscalizadores estão, no mínimo, tendo dificuldades para acompanhar a velocidade das mudanças e enfrentar a ousadia dos malfeitos. O mundo real correu em velocidade de Fórmula 1, enquanto o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) seguem com o ritmo, a estrutura e o modus operandi do início do século. A divisão da regulação e da fiscalização também gerou arbitragens: a estrutura de fundos exclusivos, por sua opacidade, vem sendo largamente utilizada por quem busca escapar do escrutínio. E as brechas criadas pela divisão das fiscalizações de fundos e bancos entre CVM e BC também foram exploradas.

Além disso, o Banco Central tem dois servidores afastados com indícios de cooptação, e a CVM conta hoje com um colegiado desfalcado, de apenas dois membros efetivos, que não julgou nenhum processo neste ano. Os nomes indicados pelo governo para recompor o quadro foram duramente criticados por especialistas e ex-integrantes da autarquia, que apontam motivações políticas nas escolhas. Tudo isso já seria grave em qualquer circunstância — mais ainda num momento em que o maior escândalo financeiro privado da história recente está em curso, no qual o principal protagonista, Daniel Vorcaro, teceu uma enorme rede de influências políticas em todos os Poderes da República.

Para impedir a repetição de casos, é preciso consertar a parte institucional e de regulação. O BC não dispõe de uma ferramenta eficaz de intervenção. O projeto de lei complementar 281/2019, que equipa o BC com regimes de liquidação e estabilização, está parado no Congresso. O PT quer impedir o uso de dinheiro público no socorro a bancos privados, quando na verdade o projeto impede que esses recursos sejam utilizados para salvar acionistas e investidores, que teriam de cobrir, em primeiro lugar, os prejuízos causados.

“Esta é a lógica da recapitalização interna (bail-in): quem lucrou com os riscos deve absorver os prejuízos antes da mobilização de recursos coletivos”, explica Jefferson Alvares, ex-membro do secretariado do Conselho de Estabilidade Financeira (Valor, 5-12). O projeto, segundo os especialistas, está em linha com o que existe de mais avançado na regulação bancária global hoje.

Discutir mudanças na regulação e na fiscalização não será fácil, e, enquanto elas não forem feitas, outros Masters podem estar à espreita. As vítimas são sempre as mesmas: pessoas e empresas que precisam investir e captar recursos para garantir o futuro dentro de um sistema que funcione bem.

Morte no trânsito revela falta de compromisso com a cidadania

Por Correio Braziliense

Emanoelle e seu filho Francisco foram vítimas de um velho conhecido dos ciclistas: o desrespeito por parte de motoristas agressivos, que ignoram (ou fingem ignorar) duas leis — uma de trânsito, outra da física.

As mortes de Emanoelle Martins Guedes de Farias, de 40 anos, e do filho dela, Francisco Farias Antunes, de 9, que estavam em uma bicicleta elétrica e foram atropelados por um ônibus na Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro, chamam a atenção para alguns fatores que, reunidos, são ingredientes para a tragédia. Mesmo porque, o que se sabe por ora, é que o episódio foi uma fatalidade. Um veículo por enquanto não identificado fechou o caminho da mãe e do menino, eles perderam o equilíbrio e caíram na faixa exclusiva para coletivo — que não teve como evitar o desastre.

Comecemos admitindo que os dois foram vítimas de um velho conhecido dos ciclistas: o desrespeito por parte de motoristas agressivos, que ignoram (ou fingem ignorar) duas leis — uma de trânsito, outra da física.

A de trânsito: o Artigo 29 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) explicita que os veículos maiores são responsáveis legais pela integridade dos menores. Há uma hierarquia de proteção na qual a ordem crescente é pedestres, ciclistas, motociclistas, automóveis e carros pesados. Ou seja: é do mais para o menos vulnerável.

Agora, a lei da física. Isaac Newton publicou os enunciados básicos do movimento pela primeira vez em 1687. O primeiro é o da inércia, que versa sobre a resistência natural que um corpo oferece à mudança quando se move. Porém, é preciso lembrar que corpos com maior massa têm maior inércia, o que significa que demoram mais a parar porque exigem uma força proporcionalmente maior para alterar sua velocidade. Um veículo grande demorará sempre muito mais a parar do que um pequeno. Isso torna a expressão "ciclista folgado" totalmente irresponsável.

Ao desrespeito soma-se o completo desdém das administrações públicas pela mobilidade urbana. As metrópoles brasileiras são vergonhosamente inadaptadas ao ciclista. Não apenas por falta de ciclovias, mas porque a engenharia de tráfego não educa nem organiza. Pior: o estímulo ao transporte de massa, em várias cidades, é uma falácia. O modal que deveria ser um fator de alívio ao trânsito, proporcionando mais segurança e fluidez, e um compromisso com a qualidade do ar respirado por todos, alcança o cidadão quase exclusivamente por questões econômicas.

A Resolução 996, do Conselho Nacional de Trânsito, que vigora desde 1º de janeiro, chama a atenção claramente do poder público sobre a proteção do usuário da bicicleta elétrica. Está no Artigo 6º: "Cabe ao órgão ou entidade com circunscrição sobre a via regulamentar a circulação de ciclomotores, bicicletas elétricas e equipamentos de mobilidade individual autopropelidos, nas vias terrestres abertas à circulação pública, conforme dispõe o art. 2º do CTB". O parágrafo 2º frisa que "o órgão ou entidade com circunscrição sobre a via deve observar as diretrizes estabelecidas em resolução específica (973/2022) do Contran acerca do regulamento de sinalização viária".

E o que diz essa resolução? Está no Artigo 1º: "Institui o Regulamento de Sinalização Viária, com o objetivo de estabelecer as especificações e requisitos técnicos a serem adotados em todo o território nacional, por todos os órgãos e entidades do Sistema Nacional de Trânsito (SNT), quando da implementação das soluções adotadas pela engenharia de tráfego e sinalização".

Lidas as disposições cuidadosamente, representa que na via deve haver sinalização, visível, clara e óbvia, ao alcance de todos os usuários; que o espaço é permitido a mais de um tipo de veículo, do mais leve ao mais pesado; e que, eventualmente, essa sinalização é complementada por agente físico para a organização do movimento.

Não é possível dizer que todas as advertências aqui ressaltadas seriam capazes de preservar as vidas de Emanoelle e Francisco. Mas dá para afirmar que maior compromisso com a cidadania tornaria o tráfego nas cidades mais civilizado

É preciso melhorar com urgência o transporte escolar

Por O Povo (CE)

É inaceitável pôr crianças em perigo sob qualquer argumento. Preservar a integridade física dos estudantes deve ser tema prioritário, garantindo-lhes condições adequadas para seu desenvolvimento escolar

Por meio do painel público BI Transporte Escolar no Ceará, o Ministério Público do Estado revelou que 70% da frota de veículos cadastrada no sistema trafega sem autorização para transportar estudantes.

Mais de 100 municípios cearenses declararam 6.934 veículos, dos quais 4.860 apresentam irregularidades, portanto apenas 30% trafegam observando todos os itens de segurança.

A ferramenta, desenvolvida pelo Centro de Apoio Operacional da Educação (Caoeduc), reúne informações do Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE) e do Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE), possibilitando o acompanhamento público da situação da frota e dos motoristas.

Segundo o promotor de Justiça Jucelino Soares, coordenador auxiliar do Caoeduc o problema se mantém ao longo dos anos, e afirma: "A manutenção desse índice de irregularidade, em torno de 70%, ou seja, de cada 10 veículos trafegando, 7 são irregulares, não apresentam condições adequadas de segurança para transportar as nossas crianças para a escola".

Segundo Jucelino Soares, entre os principais problemas identificados estão veículos sem condições básicas de segurança, como ausência de cintos, falhas mecânicas e superlotação. Em 45 municípios, nenhum dos veículos cadastrados está apto a realizar o transporte de estudantes.

O promotor tem razão, portanto, ao dizer que o problema é estrutural e antigo. Pode-se até dizer que a situação melhorou, comparando à reportagem que O POVO publicou na edição de 29/11/2011, portanto há mais de 14 anos, com o título "Transporte irregular mata três estudantes por ano no Ceará". Na época, muitos alunos eram transportados em "paus de arara", com risco sempre presente.

Na ocasião, a reportagem assistiu quando uma criança, ao subir no caminhão, pisou em um rolo de arame farpado que era transportado na carroceria, junto com os alunos. Os estudantes não tinham nenhuma orientação e muitos trafegavam com o tronco para fora da grade de proteção, em estradas carroçáveis e esburacadas. Na época, nem Associação dos Municípios do Ceará (Aprece), nem a Secretaria de Educação do Ceará tinha dados sobre a quantidade de caminhões irregulares que transportavam estudantes no Estado. Por isso a importância do painel público para expor os dados e o trabalho do Ministério Público que busca regularizar a situação.

É inaceitável pôr crianças em perigo sob qualquer argumento. Preservar a integridade física dos estudantes deve ser tema prioritário, garantindo-lhes condições adequadas para seu desenvolvimento escolar. Prefeitos precisam tomar consciência do problema e os órgãos fiscalizadores devem implementar medidas para cobrar a regularização do transporte estudantil.

 


 

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