Folha de S. Paulo
Chamar um Bolsonaro pelo prenome é um
suspeito sinal de simpatia, quase amor
E tratá-los por 'Zero Um', 'Zero Dois' ou
'Zero Três' é uma ofensa ao número zero
Alexandra Moraes, nossa ombudsman, chamou a atenção (14/3) para a familiaridade com que, de repente, a imprensa passou a se referir a Flávio Bolsonaro. Assim que ungido presidenciável, o oleoso senador, portador de um sobrenome sinônimo de violência, insenbilidade e golpismo, tornou-se nas reportagens apenas "Flávio", algo assim como um afável vizinho de porta. Isso em veículos que, para manter a objetividade ou evitar repetições, costumam chamar, digamos, Camila Pitanga de "Pitanga" e Ratinho Junior de "Junior".
Os EUA tiveram Teddy Roosevelt na Casa Branca
e, alguns presidentes depois, seu primo Franklin Roosevelt, e nem por isso o
The New York Times reduziu o segundo Roosevelt a um coloquial Franklin. Os dois
eram chamados de "Mr. Roosevelt". É verdade que não temos o hábito de
tratar nossos presidentes por "Sr.", nem eles fazem por merecer, mas
chamar um Bolsonaro pelo prenome é um suspeito sinal de simpatia, quase amor.
Quando Bolsonaro assumiu a presidência, em
2019, decidi quase de saída nunca chamá-lo aqui de "Presidente Jair
Bolsonaro", nem mesmo de "Jair Bolsonaro" e muito
menos de "Jair". Não se tratava de economizar espaço, mas de
preservar a dignidade da coluna, já que Bolsonaro não preservava a dele. Com
isso, até hoje, sempre o chamei apenas de "Bolsonaro", o que pode ser
checado por qualquer leitor. Outra decisão foi a de não aderir ao meigo
tratamento dado por alguns aos filhos —Carlos Bolsonaro, de
"Carlucho", e Eduardo Bolsonaro, de "Bananinha". E, por
respeito ao número zero, evitei chamá-los de "Zero Dois" ou
"Zero Três".
O que "Flávio" precisa ser chamado
é a responder pelas "rachadinhas", a compra de mansões com dinheiro
vivo, a lavanderia nos fundos da loja de chocolate, a intimidade com
milicianos, as informações privilegiadas para garantir impunidade judicial e,
surpresa, o possível envolvimento em esquemas do INSS com operações de
entidades fantasmas.
"Flávio", com razão, não quer ser
chamado de Bolsonaro. Descobriu que agora é um palavrão.

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