quinta-feira, 2 de abril de 2026

Abastecendo no posto de combustível do crime organizado, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Operação Carbono Oculto mostrou que crime organizado criou dinâmica de paraíso fiscal dentro do Estado brasileiro

As descobertas dos investigadores vão muito além dos setores de combustíveis, padarias e fintechs que atuam no mercado financeiro

O escândalo do Banco Master colocou em segundo plano no noticiário os desdobramentos da megaoperação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado para desarticular a infiltração do crime organizado em negócios regulares da economia formal no país.

A boa notícia é que as investigações estão avançando com a identificação de novos setores, que vivem de perto a penetração de organizações criminosas com esquemas cada vez mais sofisticados. A má notícia é que a polarização política em ano eleitoral pode atrapalhar.

As descobertas dos investigadores vão muito além dos setores de combustíveis, padarias, fintechs e outras instituições que atuam no mercado financeiro, que já são conhecidos.

Fatos novos são esperados para breve, após a conclusão do relatório financeiro da investigação com base na movimentação bancária do grupo e conversões dos dados telemáticos, como mensagens, histórico de navegação, emails armazenados e registros de localização, da instituição de pagamento BK Bank, que fazia parte do esquema.

No caso das redes de combustíveis ligadas aos empresários Roberto Augusto Leme da Silva e Mohamad Hussein Mourad, conhecidos como Beto Louco e Primo, se sabe que já há mais de mil postos de combustíveis envolvidos.

Uma rede tão gigantesca (palavra usada pelos próprios investigadores) que vem surpreendendo todos os envolvidos na operação. O que leva à conclusão de que o crime está bem mais perto de todos nós. Em alguns casos, no posto de combustível ao lado, onde abastecemos nossos carros.

Assim como nas fraudes do Master, de Daniel Vorcaro, a Operação Carbono Oculto mostrou que o crime organizado criou uma dinâmica de paraíso fiscal dentro do Estado brasileiro em todos os níveis. Há pontos de conexão entre os dois casos que serão detalhados pelos investigadores.

Esquemas que surfam nas lacunas e brechas deixadas não só por uma legislação frouxa e uma fiscalização insuficiente, como também por aqueles que deveriam estar julgando os criminosos nos tribunais, mas que, na verdade, estão ao lado deles.

 

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