quinta-feira, 2 de abril de 2026

Política no STF, Por Merval Pereira

O Globo

A lealdade a quem indica é o principal fator para a escolha, seja de que linha ideológica for o presidente, e isso desvirtua o sentido do ritual de aprovação.

Não é porque não tem “notório saber jurídico” que o ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, não poderia ser indicado para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). Esse requisito há muito não é levado em conta na escolha do candidato, e, na verdade, são poucos os que o têm. O problema é que, mais uma vez, o presidente Lula escolheu um ministro do Supremo por suas qualidades pessoais, não jurídicas. A lealdade a quem indica é o principal fator para a escolha, seja de que linha ideológica for o presidente, e isso desvirtua o sentido do ritual de aprovação.

O presidente deveria indicar alguém pelo saber jurídico indiscutível, que representasse o Estado brasileiro, não o governo atual. E o Senado deveria sabatiná-lo com rigor que faria com que vários dos candidatos fossem rejeitados eventualmente, uma prática normal nas democracias. Em vários países, especialmente nos Estados Unidos, de onde copiamos o ritual, muitos candidatos foram retirados da disputa quando se viu que não seriam aprovados. Outros passaram por escrutínios severos que muitas vezes os humilharam publicamente.

No Brasil, há muitos anos está estabelecido que o indicado pelo Palácio do Planalto, seja qual for a cor ideológica do governo, será sempre aprovado. O máximo que acontece aqui é o processo ser atrasado por questões políticas, não do indicado, mas de quem tem a obrigação de dar início, o presidente do Senado, hoje o senador Davi Alcolumbre. Ele já fez o mesmo com Jair Bolsonaro, quando este indicou o hoje ministro André Mendonça.

Deu-lhe o mesmo “chá de cadeira” que hoje dá ao presidente Lula. No governo anterior, Alcolumbre deixou Mendonça à espera por quatro meses do início do processo, já indicado. Agora, deixou Lula inseguro para mandar seu indicado pelos mesmos quatro meses, demonstrando claramente que o problema não é ideológico, mas de afirmação de poder usando a cadeira que ocupa eventualmente. Assim como o presidente da República indicar um homem de sua confiança para um cargo como ministro do Supremo, mesmo que não tenha reconhecidamente “notório saber jurídico”, é ruim para o sistema democrático, é também prejudicial um presidente do Poder Legislativo exercer seu cargo em busca de benesses pessoais. Pois é isso que vem acontecendo com Alcolumbre nessa questão.

Não quer dizer que haja corrupção no sentido monetário, mas ela existe na distorção da função. O presidente do Senado não tem o poder de escolher o indicado para o Supremo, como Alcolumbre tentou com o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco. Essa escolha cabe ao presidente da República. A função do presidente do Senado é dar prosseguimento ao processo de escolha, encaminhando para a análise do Senado o nome escolhido pelo Palácio do Planalto. Um ato meramente burocrático, que ganha contornos políticos pelo uso indevido do cargo, uma das muitas facetas da corrupção, mesmo que não envolva dinheiro.

Se não concordar com a escolha, qualquer senador, especialmente o presidente da Casa, pode fazer um movimento para derrubá-la, algo que nunca aconteceu, mas poderia ter acontecido se os senadores tivessem noção do que lhes cabe nessas ocasiões. A sabatina geralmente é burocrática, enfadonha, quando não bajuladora. A aprovação dos candidatos é dada sempre como se fosse uma resposta automática ao desejo do presidente da República, tirando do Senado a capacidade de reagir a indicações indevidas.

Até o momento, a aprovação tinha também a característica de ser uma prevenção contra qualquer problema que um senador viesse a ter no Supremo. Agora, ao contrário, a obstrução, ou até a rejeição inédita, tem caráter político-partidário. Uma coisa é indicar um candidato de sua tendência ideológica, embora não seja obrigatório que isso aconteça. Lula, no seu primeiro mandato, indicou um jurista de notório saber ligado à direita católica. Outra é indicar por critérios puramente pessoais ou partidários. Como agora, pois o futuro Messias atuará a tempo de compor a bancada governista no julgamento do Caso Master. Num momento em que a imagem do STF não vai nada bem junto à sociedade.

 

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