quinta-feira, 2 de abril de 2026

Um autodidata sem mistérios, por Ivan Alves Filho*

Autodidata, começou a trabalhar em jornal logo que completou 16 anos de idade, em Liège, na Bélgica. Foi quando sentiu a força dos chamados faits divers, ou acontecimentos do cotidiano, como crimes e acidentes. Ele costumava dizer que “a vida de cada homem é um romance”. Conheceu gente de peso por essa época, como Poincaré e Churchill.
 Dizia que viu de tudo durante esses três anos e meio que trabalhou como repórter. Um acidente com dezenas de trabalhadores das minas muito o marcou. Para ele, o jornalismo era “a melhor experiência para um romancista”. Antes de entrar para o jornal (no caso, Gazette de Liège), chegou a exercer por pouco tempo o ofício de padeiro e, também, de vendedor de livros. Durante dois anos, após deixar o jornalismo e ter vivido uma experiência frustrada em Paris, percorreu boa parte do Ártico, como marinheiro. E também esteve por um período na África. 

Em seguida, tornou-se novelista, valendo-se de exatos 27 pseudônimos, com os quais assinou mais de 400 obras. Uma produção para lá de espantosa. André Gide foi seu incentivador. Vendeu, ao redor do mundo, cerca de 550 milhões de livros, os quais foram traduzidos em 55 idiomas e lançados em 44 países. Seu primeiro livro, ele o financiou do próprio bolso. Somente a escritora inglesa Agatha Christie vendeu mais livros do que ele. 

Ele contava ter tido 30 mil mulheres, mas a sua segunda mulher calculou este número “a não mais de 200”. Bem mais razoável, ao que tudo indica. De qualquer modo, era uma força da natureza, este autor de novelas policiais e psicológicas. Considerava Gogol o maior autor do século XIX e Faulkner o grande nome da Literatura no século XX. O nosso novelista residiu em vários países, como França, Canadá, Estados Unidos e Suíça. Em 1929, em um porto da Holanda, teve a ideia de criar um personagem que o perseguirá por quase toda a vida, com ele se confundindo quase: Jules Maigret. É de sua autoria um dos maiores livros que alguém possa ler na vida: O cão amarelo. Georges Simenon, que se dizia anarquista, morreu em 1989, aos 86 anos, de causas naturais, sua morte não estando envolvida em nenhum mistério.   

*Ivan Alves Filho, historiador

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