quinta-feira, 2 de abril de 2026

Visão do passado arrisca reeleição, por Julia Duailibi

O Globo

As pessoas conhecem os programas do governo e os veem, hoje, não como favor, mas como obrigação

Diagnóstico errado; remédio também errado. Essa máxima serve para a política. O presidente Lula avalia que a baixa aprovação da sua gestão, na reta final do mandato, tem a ver com uma falha na comunicação sobre as entregas do governo. A falta de informação na praça seria a principal explicação para a desaprovação, que atinge mais da metade da população. Lula culpa não só a imprensa, reeditando a visão equivocada de que jornais e TVs deveriam funcionar como linhas auxiliares dos Diários Oficiais, mas também os canais formais da Presidência.

Essa visão foi escancarada na reunião ministerial de terça-feira pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa:

— Sidônio, o povo tem o direito de conhecer esses números, esses dados, porque, repito, é mudança da água para o vinho — disse, ao se dirigir a Sidônio Palmeira, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social.

Ele exibia um telão com números das entregas do governo Lula em comparação com a gestão Bolsonaro. Diante da repercussão, Rui Costa disse que não fazia cobrança a Sidônio. Mas, na realidade, ele externou o que todo mundo já ouviu da boca de Lula. E o problema mora aí.

Achar que o governo vai mal porque a população não conhece o que foi feito é autoengano. Numa disputa que promete ser acirradíssima, a leitura enviesada do cenário — ou feita com a lanterna mirando o passado, comum neste governo — pode custar a Presidência. Desde 2013, as pedras do fundo do rio se movimentaram e alteraram a maneira como as pessoas formam seu voto. Redes sociais, pós-verdade, guerra cultural, sentimento antissistema, pauta de costumes, conservadorismo, Milei, Trump... O caldo está mais complexo, e a definição do voto passa por variáveis que vão além da recompensa que o eleitor pode dar a um candidato por serviços prestados à comunidade.

A discussão direita versus esquerda, o debate sobre costumes e o risco democrático, em 2022, foram fatores mais decisivos que qualquer debate racional sobre qualidade ou capacidade de entrega. Basta olhar para 2018, quando Bolsonaro foi eleito com um plano de governo sofrível, registrado aos trancos e barrancos na Justiça Eleitoral. Ninguém olhou para isso. Ele foi eleito pelo que representava naquele momento, na esteira de um atentado que o catapultou. Em 2022, por pouco não repetiu o feito, mesmo tramando à luz do dia contra a democracia e sendo acusado pelas 700 mil mortes por Covid-19.

A direita entendeu melhor que a guerra é cultural e soube fazer a lição de casa nas redes sociais. A esquerda ainda patina. O governo está dividido entre setores mais pragmáticos, que enxergam a nova agenda e veem para onde caminha a disputa eleitoral, e setores que representam a bolha e que, com certa arrogância, acham que basta mostrar ao eleitor o que foi feito, e ele cairá na teia. No geral, as pessoas conhecem os programas do governo e os veem, hoje, não como favor, mas como obrigação de quem ocupa a Presidência.

Apostar que o eleitor tomará uma decisão meramente ancorada nas entregas é não entender o mundo em que estamos. E achar que a culpa é da falta de comunicação, num momento em que a informação circula sem parar, a todo segundo, é querer acreditar no remédio errado.

 

Nenhum comentário: