O Globo
As pessoas conhecem os programas do governo e
os veem, hoje, não como favor, mas como obrigação
Diagnóstico errado; remédio também errado. Essa máxima serve para a política. O presidente Lula avalia que a baixa aprovação da sua gestão, na reta final do mandato, tem a ver com uma falha na comunicação sobre as entregas do governo. A falta de informação na praça seria a principal explicação para a desaprovação, que atinge mais da metade da população. Lula culpa não só a imprensa, reeditando a visão equivocada de que jornais e TVs deveriam funcionar como linhas auxiliares dos Diários Oficiais, mas também os canais formais da Presidência.
Essa visão foi escancarada na reunião
ministerial de terça-feira pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa:
— Sidônio, o povo tem o direito de conhecer
esses números, esses dados, porque, repito, é mudança da água para o vinho —
disse, ao se dirigir a Sidônio Palmeira, ministro-chefe da Secretaria de
Comunicação Social.
Ele exibia um telão com números das entregas
do governo Lula em comparação com a gestão Bolsonaro. Diante da repercussão,
Rui Costa disse que não fazia cobrança a Sidônio. Mas, na realidade, ele
externou o que todo mundo já ouviu da boca de Lula. E o problema mora aí.
Achar que o governo vai mal porque a
população não conhece o que foi feito é autoengano. Numa disputa que promete
ser acirradíssima, a leitura enviesada do cenário — ou feita com a lanterna mirando
o passado, comum neste governo — pode custar a Presidência. Desde 2013, as
pedras do fundo do rio se movimentaram e alteraram a maneira como as pessoas
formam seu voto. Redes sociais, pós-verdade, guerra cultural, sentimento
antissistema, pauta de costumes, conservadorismo, Milei, Trump... O caldo está
mais complexo, e a definição do voto passa por variáveis que vão além da
recompensa que o eleitor pode dar a um candidato por serviços prestados à
comunidade.
A discussão direita versus esquerda, o debate
sobre costumes e o risco democrático, em 2022, foram fatores mais decisivos que
qualquer debate racional sobre qualidade ou capacidade de entrega. Basta olhar
para 2018, quando Bolsonaro foi eleito com um plano de governo sofrível,
registrado aos trancos e barrancos na Justiça Eleitoral. Ninguém olhou para
isso. Ele foi eleito pelo que representava naquele momento, na esteira de um
atentado que o catapultou. Em 2022, por pouco não repetiu o feito, mesmo
tramando à luz do dia contra a democracia e sendo acusado pelas 700 mil mortes
por Covid-19.
A direita entendeu melhor que a guerra é
cultural e soube fazer a lição de casa nas redes sociais. A esquerda ainda
patina. O governo está dividido entre setores mais pragmáticos, que enxergam a
nova agenda e veem para onde caminha a disputa eleitoral, e setores que
representam a bolha e que, com certa arrogância, acham que basta mostrar ao
eleitor o que foi feito, e ele cairá na teia. No geral, as pessoas conhecem os
programas do governo e os veem, hoje, não como favor, mas como obrigação de
quem ocupa a Presidência.
Apostar que o eleitor tomará uma decisão
meramente ancorada nas entregas é não entender o mundo em que estamos. E achar
que a culpa é da falta de comunicação, num momento em que a informação circula
sem parar, a todo segundo, é querer acreditar no remédio errado.

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