quinta-feira, 2 de abril de 2026

Governadores fogem da raia na eleição para o Senado, por César Felício

Valor Econômico

Apenas 8 dos eleitos em 2022 devem concorrer às 54 cadeiras de senador em disputa

A lista de governadores candidatos a outros cargos nesta eleição encolheu nos últimos dias. Até sábado, último dia da desincompatibilização, dez governadores eleitos em 2022 deverão ter deixado o cargo para buscar outros desafios.

Dez ou onze. O gaúcho Eduardo Leite (PSD) foi o último a engrossar a lista dos desistentes. No caso, o partido desistiu dele, ao preteri-lo para a presidência da República em favor do goiano Ronaldo Caiado. Leite contudo deu mostras de inconformismo e começaram a circular apelos de personalidades ligadas ao PSDB para que ele retorne ao ninho tucano e tente viabilizar a sua candidatura por lá. Pouquíssimo provável, já que a base de Leite na Assembleia Legislativa migrou para o PSD por orientação do governador, mas o governador gaúcho tem precedente de decisões surpreendentes.

Uma eventual surpresa gaúcha não altera o fato do Senado, uma casa de caciques regionais, ter se tornado pouco atrativas para os governadores em fim de mandato. Somente oito governadores eleitos há quatro anos devem disputá-lo, sendo que um, o fluminense Claudio Castro (PL) está com a candidatura sub judice, uma vez que foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no processo das contratações do Ceperj. Poderá tentar concorrer pendurado em liminares, o que no mínimo coloca uma zona de dúvida sobre sua viabilidade eleitoral.

O agora ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) também tem a eleição para o Senado complicada, pela delicada situação em que deixou o Banco Regional de Brasília (BRB) depois da enrolada operação para tentar comprar o Banco Master. Ibaneis está no alvo de uma CPI e é presença provável em uma possível delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Mesmo se nada acontecer com ele, perdeu sustentação política ao não ter o apoio do PL para sua candidatura. Mesmo assim, impávido, decidiu mantê-la.

É provável que o próximo Senado portanto conte com apenas meia dúzia de ex-governadores. Quem deve se beneficiar com este encolhimento são os candidatos que decidirem se alinhar à polarização nacional e quem tem investido mais neste caminho são os bolsonaristas.

De última hora, a base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu se mobilizar e uma safra de ministros deixou seus cargos. Pelo menos cinco deles devem concorrer ao Senado: os petistas Rui Costa (BA) e Gleisi Hoffmann (PR), a neossocialista Simone Tebet ( também neopaulista), além de André Fufuca (PP-MA) e Carlos Favaro (PSD-MT), o último com chances modestas em um estado que é reduto do bolsonarismo como poucos.

A deputada federal Marina Silva (Rede-SP) deixou o Ministério do Meio Ambiente, mas seu destino tanto partidário quanto eleitoral continua em aberto. Pode ir para o PT ou não, pode disputar o Senado, a vice-governança ou outro qualquer. Hermética, Marina manteve várias opções em aberto ao se pronunciar nos últimos dias.

Também ainda incerto era na noite de quinta-feira o destino do ministro do Empreendedorismo Márcio França (PSB), que ainda não se desincompatibilizou e nem trocou de pasta, mas pode ser que o faça, também para disputar o Senado, desde que esta candidatura não aumente a confusão com Simone Tebet e Marina Silva.

Somente dois ministros de Lula saíram da Esplanada para disputar governos estaduais: Fernando Haddad (PT) em São Paulo e Renan Filho (MDB) em Alagoas. O senador Camilo Santana (PT-CE) saiu do MEC para se tornar uma reserva de contingência. Se o governador do Ceará Elmano de Freitas (PT) não se mostrar viável contra o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) na corrida estadual ele entra em campo. Por ora, está fora do gramado.

A forma atabalhoada pela qual os ministros de Lula se desincompatibilizam, com ponta solta e aresta para todo lado, e o desgaste dos atuais governadores incentivou uma onda de renúncia de prefeitos de capitais, todos deixando seus cargos para disputar os governos estaduais.

Algumas saídas já estão anunciadas, precificadas no mercado político, mas sujeitas a reviravoltas de última hora: é o caso do prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, com migração em curso do PL para o PSDB, e a do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB). Outras já se deram nos últimos dias , como Eduardo Paes (PSD) no Rio e Doutor Furlan (PSD) em Macapá. Ao todo a melhor aposta é que sejam dez dos 26 a se aventurarem na disputa estadual. Todos de uma forma ou outra ancoram suas candidaturas na gestão , e não na polarização nacional.

As disputas para os governos estaduais tendem, portanto, a seguirem muito menos a polarização nacional do que a corrida eleitoral pelo Senado. Para ficar em um único exemplo, registre-se o caso do Espírito Santo. A polarização local lá será entre o governador Ricardo Ferraço (MDB) e o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos). O primeiro assumiu o cargo esta quinta, com a desincompatibilização de Renato Casagrande (PSB). O segundo deixou o posto quase simultaneamente, para cumprir o prazo da legislação eleitoral. Nem Ferraço é alinhado a Lula, nem Pazolini se ajusta ao figurino bolsonarista, a lógica capixaba é outra.

Em Santa Catarina, Rondônia, Roraima, Acre e Mato Grosso o bolsonarismo é tão grande que não cabe em si mesmo. Dividiu-se em mais de uma candidatura para os governos estaduais. A eleição de Roraima, para citar um caso, deve opor Edilson Damião (Republicanos), vice que assumiu o cargo, e o ex-prefeito de Boa Vista Arthur Henrique (PL). A base lulista no Estado é um conjunto vazio. Já em Pernambuco o bolsonarismo caminha para ficar alijado da corrida pelo governo estadual e pelo Senado.

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