O Estado de S. Paulo
Desgaste de imagem forçará o presidente Lula a mudar sua postura cautelosa por causa da eleição
A guerra no Oriente Médio virou um problemão eleitoral para Lula em duas dimensões: custos e endividamento. É possível tentar mitigar os efeitos de cada um desses fatores negativos. Mas não dá para controlá-los. A questão de custos é bastante óbvia, mas nem um pouco até onde vai o encarecimento de energia e fertilizantes. O custo imediato para evitar desabastecimento e picos de preços é estimado em R$ 20 bilhões – para um horizonte de ainda 4 meses de guerra.
O governo agiu para “acomodar” esse impacto
através de um mix de renúncias fiscais (junto de Estados) e subvenções. É
bastante provável que tenha de ampliar e estender essas medidas, pois mesmo que
Trump declare imediatamente o fim da guerra, antecipa-se que não haverá uma
volta ao “status quo ante” em termos de fluxos de energia.
Considerado de forma isolada, o aumento do
preço de combustíveis é catastrófico para a reputação de qualquer político em
qualquer lugar, e o que torna a questão no Brasil particularmente preocupante
do ponto de vista eleitoral (visto da perspectiva de Lula) é sua combinação com
o endividamento das famílias.
O governo acordou bastante tarde para um
estrago que, numa abordagem mais abrangente, ele mesmo criou. Expansão fiscal
para sustentar crescimento da economia via consumo das famílias tem seus
limites impostos por essa mesma política, uma das principais causas dos juros
intoleravelmente altos.
O resultado é essa “malaise” tão claramente
detectada pelas pesquisas de opinião. As benesses destinadas a produzir
benefícios político-eleitorais não estão funcionando num quadro no qual
prevalece a sensação, tão importante do ponto de vista da formação do voto, de
que as coisas estão piorando. Em outras palavras, o endividamento devorou a
isenção do IR até R$ 5 mil.
A resposta para a questão do endividamento
vem do único tipo de ferramenta que o governo lulopetista conhece: crédito
subsidiado para pagar dívidas. Em princípio, a ala “econômica” do governo
gostaria de limitar o uso desse tipo de alívio apenas para tratar de dívidas,
mas a ala política defende sem pudor algum que as linhas subsidiadas possam ser
utilizadas também para mais... consumo, o que só agravaria a questão.
Até aqui, as respostas ao problemão de custos e dívida têm sido a adoção de medidas emergenciais com alvos claros (evitar desabastecimento ou custo excessivo de diesel, por exemplo). Mas a linha que separa “gerenciamento de crise” de “manobras eleitorais”, na definição da consultoria Eurasia, vai se tornando difusa, e depende de um número mágico: é a aprovação do presidente caminhar para o patamar de apenas 40%. É quando os modelos estatísticos informam que a reeleição seria impossível.

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