O Estado de S. Paulo
A possibilidade de uma chuva de artefatos
mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e
Nagasaki pode não ser grande, mas é real
Segundo uma crença liberal do século passado, as guerras arrefeceriam à medida que as sociedades de mercado prevalecessem e os regimes democráticos, minimamente estáveis, perdurassem. Pois bem, o que se deu foi o contrário, três vezes o contrário.
Primeiro revertério: os regimes democráticos começaram a periclitar e agora claudicam. O relatório anual do Instituto V-Dem, o principal ranking da democracia no mundo, rebaixou os Estados Unidos (até os Estados Unidos). De “democracia liberal”, o país caiu para “democracia eleitoral”. Na terra do tio Trump (o Tio Sam foi deportado), os indicadores de liberdade apodrecem como detritos burocráticos que o caminhão de lixo se esqueceu de recolher.
Segundo revertério: o que levava o nome de
“sociedade de mercado”, com a livre iniciativa e a livre concorrência dando as
cartas, virou uma degenerescência. O que temos para hoje é algo entre o crony
capitalism, em que os negócios se viabilizam na base do compadrio de
governantes com bilionários (como na Rússia ou, hoje, nos Estados Unidos), e o
“tecnofeudalismo” (termo do economista grego Yanis Varoufakis), no qual os reis
das big techs comandam a vassalagem generalizada. Podemos falar também em
capitalismo superindustrial, como sustenta Fernando Haddad, mas o que importa não
é o nome – o que importa é que, das tais sociedades de mercado, só resta uma
carcaça decorativa para salvar as aparências (o pessoal gosta de aparências).
Terceiro revertério: as guerras aumentaram em
quantidade, intensidade, letalidade e abrangência. O planeta fumega, e não
apenas porque o aquecimento global veio nos dar o ar de sua graça febril. O ano
2024, considerado o mais mortífero desde 1945, registrou 129 mil mortes em 61
conflitos armados envolvendo 36 países. O ano de 2026 poderá ser pior, ainda não
se sabe. O que se sabe, isto sim, é que o quadro está mais fora de controle do
que estava há dois anos. Já não existe um organismo internacional capaz de
desarmar o belicismo. A Organização das Nações Unidas (ONU), sem dinheiro, sem
autoridade e sem direção, mal se mantém de pé. Muitas vozes pedem reformas no
Conselho de Segurança e em toda a entidade. Em vão.
As bestas-feras se desinibiram. Como quem
comenta que precisa amarrar o sapato, Putin se declara pronto para acionar seus
arsenais atômicos, orgulhoso de sua “tríade nuclear” (ogivas plantadas em três
bases diferentes, devidamente engatilhadas: mísseis intercontinentais em terra,
outros em submarinos soltos pelos mares e, finalmente, bombas penduradas em
monstros supersônicos que cruzam os céus e os infernos a 16 mil metros de
altura).
Nós nos convertemos numa civilização que joga
com o próprio extermínio. A possibilidade de uma chuva de artefatos mais
destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e Nagasaki
pode não ser grande, mas é real. A jornalista Annie Jacobsen, autora do livro
Guerra nuclear: um cenário, lançado em inglês no ano passado pela Penguin,
calcula que, se um desses doidos encastelados (como Putin, Trump ou Netanyahu)
disparar uma ogiva carregada contra o inimigo poderá colher um contra-ataque em
cadeia que, em 72 minutos, reduzirá os vivos e os mortos a geleia radioativa.
O poder está nas mãos dos mascates de
explosivos, menos porque reúnam os meios para construir ou erguer coisas boas,
ou mesmo belas, e mais porque detêm as ferramentas para dizimar os seres e as
coisas – as feias, inclusive. Chantagistas, terroristas de Estado, eles
sequestraram tudo o que respira e cobram o resgate diário em obediência. A seu
favor, contam com a solicitude do capital, cujos despachantes se convenceram de
que podem prescindir da maior parte dos homens e das mulheres que habitam o
planeta. As chances de morticínios consentidos crescem dia a dia.
Um dos vários trabalhos de Marc Chagall
expostos no Museu de Arte de Zurique, o Kunsthaus, tem o nome de A Guerra. Foi
pintado entre 1964 e 1966, nos Estados Unidos. Casas devoradas pelas chamas,
migrações dos desvalidos em carroças, corpos destroçados e crianças
assassinadas se espalham sobre a tela. Ao centro, resplandece a cabeça gigante
de um cavalo branco, com olhos de fria indiferença. Para mim, o animal evoca o
apocalipse.
Em outra sala do mesmo museu, um cavalo
branco parecido, mas com o olhar de fúria, domina outro quadro, este de 1897. O
título é igual: A Guerra. Ali, o simbolista suíço Arnold Böcklin retratou
explicitamente três dos cavaleiros do apocalipse, com feições de ódio e
demência.
Consta que Chagall, em meados dos anos 60,
pensava no passado: o horror da 2.ª Guerra. Parece que Böcklin, em 1897, não
olhou para trás, mas para a frente: a matança que viria no século 20. Chagall
viu o Holocausto no pretérito. Böcklin conseguiu antevê-lo no amanhã. Por uma
janela ou por outra, as montarias do fim dos tempos assombraram os dois
artistas. Hoje, desembestadas, elas mandam avisar: a aniquilação que você
chancelou ontem voltará para arrancar a sua cabeça logo ali na esquina. Vai ser
assim, num estalar de dedos. Dedos atômicos. Estamos num intervalo efêmero.

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