quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jogando com o extermínio, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

A possibilidade de uma chuva de artefatos mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e Nagasaki pode não ser grande, mas é real

Segundo uma crença liberal do século passado, as guerras arrefeceriam à medida que as sociedades de mercado prevalecessem e os regimes democráticos, minimamente estáveis, perdurassem. Pois bem, o que se deu foi o contrário, três vezes o contrário.

Primeiro revertério: os regimes democráticos começaram a periclitar e agora claudicam. O relatório anual do Instituto V-Dem, o principal ranking da democracia no mundo, rebaixou os Estados Unidos (até os Estados Unidos). De “democracia liberal”, o país caiu para “democracia eleitoral”. Na terra do tio Trump (o Tio Sam foi deportado), os indicadores de liberdade apodrecem como detritos burocráticos que o caminhão de lixo se esqueceu de recolher.

Segundo revertério: o que levava o nome de “sociedade de mercado”, com a livre iniciativa e a livre concorrência dando as cartas, virou uma degenerescência. O que temos para hoje é algo entre o crony capitalism, em que os negócios se viabilizam na base do compadrio de governantes com bilionários (como na Rússia ou, hoje, nos Estados Unidos), e o “tecnofeudalismo” (termo do economista grego Yanis Varoufakis), no qual os reis das big techs comandam a vassalagem generalizada. Podemos falar também em capitalismo superindustrial, como sustenta Fernando Haddad, mas o que importa não é o nome – o que importa é que, das tais sociedades de mercado, só resta uma carcaça decorativa para salvar as aparências (o pessoal gosta de aparências).

Terceiro revertério: as guerras aumentaram em quantidade, intensidade, letalidade e abrangência. O planeta fumega, e não apenas porque o aquecimento global veio nos dar o ar de sua graça febril. O ano 2024, considerado o mais mortífero desde 1945, registrou 129 mil mortes em 61 conflitos armados envolvendo 36 países. O ano de 2026 poderá ser pior, ainda não se sabe. O que se sabe, isto sim, é que o quadro está mais fora de controle do que estava há dois anos. Já não existe um organismo internacional capaz de desarmar o belicismo. A Organização das Nações Unidas (ONU), sem dinheiro, sem autoridade e sem direção, mal se mantém de pé. Muitas vozes pedem reformas no Conselho de Segurança e em toda a entidade. Em vão.

As bestas-feras se desinibiram. Como quem comenta que precisa amarrar o sapato, Putin se declara pronto para acionar seus arsenais atômicos, orgulhoso de sua “tríade nuclear” (ogivas plantadas em três bases diferentes, devidamente engatilhadas: mísseis intercontinentais em terra, outros em submarinos soltos pelos mares e, finalmente, bombas penduradas em monstros supersônicos que cruzam os céus e os infernos a 16 mil metros de altura).

Nós nos convertemos numa civilização que joga com o próprio extermínio. A possibilidade de uma chuva de artefatos mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e Nagasaki pode não ser grande, mas é real. A jornalista Annie Jacobsen, autora do livro Guerra nuclear: um cenário, lançado em inglês no ano passado pela Penguin, calcula que, se um desses doidos encastelados (como Putin, Trump ou Netanyahu) disparar uma ogiva carregada contra o inimigo poderá colher um contra-ataque em cadeia que, em 72 minutos, reduzirá os vivos e os mortos a geleia radioativa.

O poder está nas mãos dos mascates de explosivos, menos porque reúnam os meios para construir ou erguer coisas boas, ou mesmo belas, e mais porque detêm as ferramentas para dizimar os seres e as coisas – as feias, inclusive. Chantagistas, terroristas de Estado, eles sequestraram tudo o que respira e cobram o resgate diário em obediência. A seu favor, contam com a solicitude do capital, cujos despachantes se convenceram de que podem prescindir da maior parte dos homens e das mulheres que habitam o planeta. As chances de morticínios consentidos crescem dia a dia.

Um dos vários trabalhos de Marc Chagall expostos no Museu de Arte de Zurique, o Kunsthaus, tem o nome de A Guerra. Foi pintado entre 1964 e 1966, nos Estados Unidos. Casas devoradas pelas chamas, migrações dos desvalidos em carroças, corpos destroçados e crianças assassinadas se espalham sobre a tela. Ao centro, resplandece a cabeça gigante de um cavalo branco, com olhos de fria indiferença. Para mim, o animal evoca o apocalipse.

Em outra sala do mesmo museu, um cavalo branco parecido, mas com o olhar de fúria, domina outro quadro, este de 1897. O título é igual: A Guerra. Ali, o simbolista suíço Arnold Böcklin retratou explicitamente três dos cavaleiros do apocalipse, com feições de ódio e demência.

Consta que Chagall, em meados dos anos 60, pensava no passado: o horror da 2.ª Guerra. Parece que Böcklin, em 1897, não olhou para trás, mas para a frente: a matança que viria no século 20. Chagall viu o Holocausto no pretérito. Böcklin conseguiu antevê-lo no amanhã. Por uma janela ou por outra, as montarias do fim dos tempos assombraram os dois artistas. Hoje, desembestadas, elas mandam avisar: a aniquilação que você chancelou ontem voltará para arrancar a sua cabeça logo ali na esquina. Vai ser assim, num estalar de dedos. Dedos atômicos. Estamos num intervalo efêmero.

 

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