O Estado de S. Paulo
Até aqui, o ‘sistema’ usa táticas erradas para tentar melar as investigações do Master
O princípio que levou à anulação de duas
grandes operações de combate à corrupção no Brasil, a Castelo de Areia e a Lava
Jato, chama-se “teoria da árvore envenenada”. Se o ponto de partida de uma
investigação é considerado ilícito, tudo o que vem depois (busca e apreensão,
mandados de prisão, documentos e confissões) perde, automaticamente, a validade
jurídica.
O divisor de águas já foi traçado no embate entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça e é atrás da fruta podre que se concentra o decano da Corte. Para quem Mendonça, o relator do caso, já cometeu “erro crasso”. Por seu lado, o relator enxerga em Gilmar os interesses do “sistema” de corrupção, que se beneficiaria de uma eventual extinção das investigações no escândalo Master.
Gilmar faz uso da mesma tática que o levou a
triunfar no caso de uma operação muito popular (a Lava Jato), levada adiante
por expoentes idem, e com suporte de grandes meios de comunicação. O problema
com planos é quando as circunstâncias mudam, e elas mudaram bastante contra o
que pretende Gilmar e seu uso de duas táticas agora anacrônicas.
Em primeiro lugar, desta vez é o próprio STF
que ocupa lugar destacado no escândalo, devido ao comportamento de integrantes
da instituição. Agravando o fenômeno da perda de legitimidade da Corte no
contexto político mais amplo de degradação da relação entre os Poderes.
Daí não ter eco o argumento, esgrimido pelo
decano, de que críticas ao comportamento de ministros são ataques a quem
“garante a democracia”. A desconfiança em relação ao STF é o denominador comum
a todos os segmentos das elites e de enorme parte do público. Não cola mais
dizer que se trataria de bandeira de extremistas de direita.
Em segundo lugar, Gilmar sempre atuou com
desenvoltura nos bastidores, mas elegeu desta vez a arena pública como
destacado palco de combate. Dedicou-se a mais de uma dezena de entrevistas e
aparições televisivas em curtíssimo espaço de tempo, ignorando a decisiva
transformação no debate público brasileiro trazida pela revolução digital.
Pode-se gostar disso ou não, mas acabou a era
do acompanhamento por uma enorme audiência ao vivo de um raciocínio com começo,
meio e fim numa entrevista, por exemplo. O que reverbera é o “corte” posterior,
que ignora contextos e é confeccionado ao gosto do freguês. Nesse sentido, o
analógico Gilmar está sendo triturado no ambiente das plataformas digitais – o
famoso efeito bumerangue.
O que até se poderia relevar, não fosse a
grande questão de fundo. Para convencer não basta repetir as mesmas afirmações
e esbravejar. É necessário ter razão.

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