O Globo
Não se fala mais em fim da corrupção como
projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba
menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.
Os petistas agora fazem uma conta estranha: quantos bolsonaristas estão envolvidos no escândalo do Banco Master, e quantos petistas estão na mesma situação? Como se quem tenha menos indiciados ou investigados por corrupção leve vantagem sobre o outro grupo. Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.
Perdeu-se o pudor, justifica-se tudo como se
fosse normal ter coleção de relógios de luxo, símbolo internacional de
ostentação dos novos-ricos, ou aceitar carona em jatinhos e pagamentos de
diárias em hotéis. Guardar dinheiro vivo, de preferência em moedas valorizadas
— dólar ou euro —, é normal. O ex-deputado Geddel Vieira Lima, que tinha malas
de dinheiro num apartamento em que ninguém morava, perdeu a chance de usar a
patética desculpa de diárias de viagens internacionais.
É preciso recuperar a noção de ética para os
servidores públicos, sejam deputados, senadores ou ministros dos tribunais
superiores. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson
Fachin, lidera esse movimento pelo Código de Ética, preparado pela relatora,
ministra Cármen Lúcia. A reação de alguns ministros contra a medida dá bem a
ideia de onde estamos. Se as exigências legais já estão na legislação da
magistratura, como alegam seus opositores, por que ministros aceitam pegar
carona em jatinhos particulares para ver jogos de futebol em camarotes
especiais e posam para fotografias sorridentes? Não sabem que é proibido?
Podem participar de empreendimentos, mas por
que não revelam seus ganhos? Por que, quando surgem informações de negócios
nebulosos, não contrapõem às críticas documentos que mostram a legalidade? É o
caso do financiamento do filme sobre Bolsonaro, teoricamente financiado por
Daniel Vorcaro. Cadê o contrato? Cadê os comprovantes de gastos? Por que são
contrários à Lei Rouanet e favoráveis a financiamento privado sem documentos
que provem que ele realmente existiu? A triste conclusão é que nossa
organização institucional está entranhada pelos vícios da corrupção, e seus
representantes não se preocupam com isso.
Um político importante, presidente de
partido, acusado de diversos desvios de conduta, aparecer despudoradamente no
dolce far niente de Ibiza, na costa mediterrânea da Espanha, é sinal de perda
de noção do que seja um servidor público. Os acordos por debaixo dos panos são
comuns aos partidos políticos. Na Bahia, o escândalo do ex-governador Jaques
Wagner parece não existir, pois seu principal adversário, o ex- prefeito de
Salvador, candidato ao governo do estado, também tem lá suas ligações com o
Banco Master. Fica-se, então, nessa disputa de quem “rouba menos”. Antigamente
era o “rouba, mas faz”. Nada mudou no horizonte, só que, hoje, devido aos
avanços tecnológicos, fotos, vídeos, gravações são mantidos “nas nuvens”, onde
a Polícia Federal vai buscar informações valiosas que revelam o passado que
gostariam de esconder.
Se os petistas trabalham nesse diapasão de
aceitar os erros pelo bem do país, por que os bolsonaristas não deveriam fazer
o mesmo? O bem do país, nesse caso, depende da visão de cada um dos lados, mas
definitivamente nada tem a ver com a realidade. O cansaço dos eleitores é
evidente pela rejeição dos dois candidatos mais conhecidos e bem votados: o
quarto mandato de um contra o segundo do outro grupo. Não há novidades à
frente, não há esperanças a estimular. Mais do mesmo, a abrir caminhos para
novidades como o candidato Renan Santos, do Missão, que aparece com 10% de
escolhas em São Paulo e tem o tamanho de ex-governadores da direita
tradicional. Cresce no eleitorado, sobretudo jovem, com a autodefinição: “Sou
Milei na forma e Bukele no conteúdo”.

Um comentário:
Merval...
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