quinta-feira, 25 de junho de 2026

O caso Master e as entrelinhas de Gilmar, por Julia Duailibi

O Globo

Investigações já chegaram a tantos, que muito pouca gente quer que prossigam

A entrevista do ministro Gilmar Mendes ao “Roda viva”, da TV Cultura, revelou, nas entrelinhas, o que devemos esperar do escândalo envolvendo o Master. Depois de meses discutindo os tentáculos de Daniel Vorcaro, do Centrão ao Supremo, do candidato à Presidência pelo PL ao líder do governo no Senado, podemos nos preparar para chegar a lugar nenhum. O que não seria grande novidade. Das tragédias brasileiras, está esta de pularmos de escândalo em escândalo, com uma expectativa quase pueril de que “agora vai ser diferente”. A entrevista nos lembra que, quando o assunto envolve os donos do poder, melhor adotar a cautela.

Ficou evidente que a delação de Vorcaro não deverá sair. E não sairá porque as investigações já chegaram a tanta gente, que muito pouca gente quer que prossigam. São poucos os sensibilizados com as mesadas, os contratos advocatícios, os negócios imobiliários e toda sorte de extravagâncias que deslumbraram o poder: de degustação de uísque em Nova York e Londres a festinhas com eslavas e esqui em Courchevel. É muita gente querendo abafar uma delação que, se bem feita, poderia ajudar a desvendar as contrapartidas que Vorcaro obteve ou tentou obter dos agentes públicos. Sem ela, fica mais difícil.

Em momentos da entrevista, Gilmar aponta preocupações com abusos cometidos noutras investigações, como a Operação Lava-Jato. Ele tem razão quando volta a esse ponto. O suicídio, em 2017, do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, citado por ele, nos obriga a manter um olhar crítico com as informações que vêm dos investigadores. Não se deve comprá-las pelo valor de face, sob risco de cometer injustiça. O ministro também criticou o fato de delações poderem ser feitas com investigados ou seus parentes presos. Outro ponto que demanda reflexão. O Estado não pode agir com tortura psicológica para alcançar nenhum objetivo. Não se combate o crime cometendo crime, disse Gilmar.

Chama a atenção, no entanto, que ele não tenha manifestado a mesma preocupação com excessos noutras ocasiões. A jornalista do Valor Econômico Maria Cristina Fernandes perguntou sobre a delação de Mauro Cid, que teve cinco versões e foi negociada entre idas e vindas da prisão. Na relatoria, Alexandre de Moraes, à época, pelo trabalho de defesa da democracia, imune a críticas dos pares e de parte expressiva da imprensa. Gilmar agora aponta como “erro crasso” de André Mendonça o que foi modus operandi do próprio STF na tentativa de golpe. A condenação dos golpistas, ato da maior importância para a democracia do país, poderia ter entrado para a História sem as inovações jurídicas às vésperas do julgamento, como a mudança na regra do foro privilegiado ou a análise pela turma e não pelo plenário. As provas contra Bolsonaro e seu entorno eram suficientes, e exageros no caso só serviram para dar argumento a quem era contra condená-los.

O mesmo serve para o escândalo do momento. Forçarmos a mão para punir os inimigos ou pegarmos o lustra-móveis para passar o pano para os amigos repete um script já conhecido. De escândalo em escândalo, continuamos cometendo os mesmos erros e chegando a lugar nenhum.

 

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