sábado, 27 de junho de 2026

O maior espetáculo da terra, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?  

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”: a Copa do Mundo de Futebol. Com licença de Camões, a Copa do Mundo é este poder mais alto que quase para tudo, deveria parar a guerra da Ucrânia, a desastrosa insensatez de Donald Trump e os desmantelos da política brasileira. Durante um mês, as atenções de bilhões de pessoas se voltam para o maior espetáculo da terra, acompanhando com grande emoção a disputa de 48 seleções nacionais pela glória. O futebol reúne emoção e prazer estético, ao que se agrega sentimento nacional quando se trata da Copa do Mundo.

O futebol é antes de tudo um espetáculo artístico, como um ballet com coreografia livre que vai sendo construída pelos movimentos dos atletas em grupos que disputam o palco com lances que provocam suspiros de encantamento. O espetáculo do futebol é a combinação da arte dos atletas no gramado com a força emocional da torcida, que são participantes ativos do jogo, incentivando, criticando, xingando e gritando, o som que inspira a dança dos bailarinos. Se o ballet desperta emoção estética nos silenciosos (e passivos) espectadores, uma partida de futebol é uma arenga em torno da bola, envolvendo e mobilizando os sentimentos da torcida, na perseguição do gol, momento máximo de exaltação do espetáculo.,

Ao longo das décadas, essa arte transformou-se num negócio bilionário de escala global, uma poderosa indústria de entretenimento. A globalização se manifesta na abrangência do interesse e das emoções que desperta (mais de dois bilhões de pessoas assistindo aos jogos da Copa do Mundo) e no volume de negócios que mobiliza (bilhões de dólares só em transmissão e publicidade), numa intensa mercantilização do espetáculo. A globalização se reflete na enorme mistura de nacionalidades e culturas dos atletas, nas grandes equipes e nas diversas seleções que participam da Copa do Mundo.

Na elite do futebol mundial, a maioria dos atletas de diferentes nacionalidades joga em times da Europa, verdadeiras multinacionais do entretenimento que atraem e reúnem os melhores jogadores de diversos países para vender ao mundo um bilionário produto comercial. A Copa do Mundo de 2026 é o estágio mais elevado dessa globalização: quase 70% dos atletas que representam as seleções de 48 países atuam em clubes europeus, evidenciando a hegemonia da Europa no futebol. As seleções europeias estão repletas de jogadores africanos nascidos ou naturalizados europeus, e as seleções africanas reúnem muitos atletas nascidos na Europa. Na seleção do Brasil, apenas sete jogadores estão vinculados a clubes brasileiros, fenômeno semelhante na maioria das seleções nacionais. Em Cabo Verde, o sucesso desta Copa, 80% dos seus jogadores atuam na Europa, e na seleção de Curaçao, outra sensação, apenas um dos atletas nasceu no país e todos jogam fora.

A globalização do futebol provocou uma interação de diferentes estilos que refletem a diversidade cultural entre os latinos e africanos, de um lado, e os anglo-saxões, do outro, o futebol arte versus o futebol técnica dos europeus. O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini distinguia o futebol poesia, praticado pelos latinos – drible individual, passe inspirado e inovação – do futebol prosa dos europeus – jogo coletivo, organizado e disciplinado. Na formulação de Gilberto Freyre (nos anos 30), o futebol latino seria dionisíaco – caracterizado por surpresa, malandragem e astúcia – enquanto o europeu seria apolíneo, lógico, racional e disciplinado.

Com a globalização, a diferença desaparece, se dilui num novo estilo miscigenado, a malandragem e a disciplina misturadas e reunidas numa mesma força. Os dois se misturam e convivem e se manifestam no meio do campo. O certo é que os latinos (destaque para os brasileiros) levaram para a Europa a cultura do improviso individual, ao mesmo tempo em que apreenderam e incorporaram as táticas e a disciplina. Alguns brasileiros, saudosistas da improvisação, consideram que a contaminação com o rigor europeu teria acabado com o futebol brasileiro. Pelo contrário, melhorou o Brasil e melhoraram os europeus com a síntese que resulta da mistura de poesia e prosa, equilíbrio tenso entre o apolíneo – a beleza contida e organizada – e o dionisíaco – movido pelo caos, pela emoção e pelo instinto. O que torna a competição na Copa do Mundo muito mais equilibrada e bela, combinação de arte e técnica.

Apesar da mercantilização global do futebol, a Copa do Mundo continua despertando sentimentos nacionalistas em torno das seleções formadas por atletas que, na sua maioria, jogam fora do país. Continua válido o que disse Eric Hobsbawn: “a dimensão identitária da nação tem um lócus especial nos esportes (…) espécie de reduto do nacionalismo moderno, e as Copas do Mundo de futebol (…) se transformaram em evento símbolo desse nacionalismo”. A seleção brasileira parece longe de ser a “pátria de chuteiras”, como definida por Nelson Rodrigues, mas a Copa do Mundo permitiu que os brasileiros tomassem de volta a bandeira nacional, que parecia indevidamente apropriada pelo patriotismo canhestro do bolsonarismo.

*Economista com mestrado em sociologia, foi jornalista da Deutsche Welle (de 1975/1979) e correspondente da IstoÉ na Alemanha (1977) e professor titular da FCAP/UPE (de 1982/2014)

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