A raiz dessa crise reside no
esgotamento da política de conciliação de classes. Ao contrário do que
sustentam visões complacentes, o apelo popular do atual populismo de direita
encontra forte respaldo nas malogradas tentativas dos governos Lula e Dilma de
pactuar com as elites econômicas e políticas do país. Essa moderação
reformista, longe de blindar a democracia, acabou por impulsionar o
ressentimento social. Diante das tensões crescentes, os erros estratégicos e os
deslizes táticos misturaram-se à agonia de governos que exerceram o poder
alienados de sua missão histórica. O desencanto popular que se seguiu acabou
por confundir algozes com salvadores, tornando o avanço da direita um cenário
previsível.
Esse fenômeno reflete uma ironia
histórica: a esquerda deixou de ser um movimento majoritariamente de base —
ancorado nas ruas, nos sindicatos e na contestação sistêmica — para se integrar
ao ecossistema estrutural do Estado. Ao se transformar em partidos políticos
tradicionais, focados exclusivamente em vencer eleições, ocupar ministérios e
articular acordos parlamentares, essas forças aceitaram as regras do jogo
institucional vigente.
O resultado é que, em vez de
transformar a estrutura, a esquerda tornou-se sua administradora. Passou a
ditar taxas de juros, gerenciar o orçamento de forma ortodoxa, conter a
inflação e priorizar a previsibilidade para os investidores privados. Ao
assumir o papel de gestora de um capitalismo inerente e irrevogavelmente
desigual, muitas vezes aplicando políticas de austeridade e concessões que
antes combatia, ela acabou operando como uma gerente mais humanitária do
próprio sistema. Distribuiu importantes avanços de bem-estar social, mas sem
alterar a engrenagem que reproduz a desigualdade.
Diante disso, o debate sobre a
superação dessa política de conciliação de interesses torna-se fundamental e
urgente. Em um país de democracia jovem e recém-saído de uma ditadura militar,
o desencanto com as instituições vigentes não permite mais à esquerda buscar a reindustrialização
e o desenvolvimento nacional sem a efetiva e profunda satisfação das principais
demandas populares.
*Altamir Petersen, antigo dirigente da Contag e do Incra.

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