O Povo (CE)
Preterida em muitas decisões, a
ex-primeira-dama tem encontrado dificuldades para emplacar os nomes ao senado
construídos a partir da mobilização do PL Mulher. No Ceará, essa dificuldade é
bastante visível: o nome de Priscila Costa, preferido de Michelle, disputa com
Alcides Fernandes o espaço na chapa
Tenho insistido na importância estratégica
de Michelle Bolsonaro nas eleições presidenciais deste ano. Ao
contrário dos filhos do ex-presidente, a ex-primeira-dama foi capaz de construir uma imagem
pública consistente, justamente pela coerência entre suas movimentações e o
discurso conservador que o bolsonarismo proclama. Menos pragmática e mais
ideológica, Michelle tem sido capaz de manter um capital político valioso em
uma eleição que será decidida voto a voto.
O vídeo publicado em suas redes sociais poucas horas antes do último jogo do Brasil prova que a ex-primeira-dama não só tem muita consciência de seu papel, como está disposta a disputar publicamente a liderança da extrema-direita. A peça, preparada com cuidado, mostra uma Michelle magoada com o tratamento reservado a ela pelos enteados, e expõe o racha interno que marca o movimento bolsonarista desde que Jair Bolsonaro foi preso e se retirou da cena pública.
A política que se manifesta no vídeo não é
uma ativista inflamada e descompensada, tampouco encarna um ar de domesticidade
de esposa. Com uma caneta na mão, voz pausada e um mapa do PL Mulher sobre
a mesa, Michelle mostra um extremo conforto ao personificar uma imagem de
força, fazendo questão de indicar que há um trabalho de articulação em curso,
com foco no eleitorado feminino evangélico e na construção de
candidaturas de mulheres nos diferentes estados.
Esse é um ponto da crise. Preterida em muitas
decisões, a ex-primeira-dama tem encontrado dificuldades para emplacar os nomes
ao senado construídos a partir da mobilização do PL Mulher. No Ceará, essa
dificuldade é bastante visível: o nome de Priscila Costa, preferido de
Michelle, disputa com Alcides Fernandes o espaço na chapa. Todo o grupo
alinhado a Ciro Gomes insiste no nome de Fernandes, enquanto Michelle mostra
rejeição não só ao candidato ao senado como ao próprio Ciro, que foi
detalhadamente citado do vídeo.
A análise política mais especializada
continua a subestimar Michelle Bolsonaro, insistindo no seu papel marginal ou
na hipótese de que ela faz parte de um jogo articulado por nomes nos bastidores
do mundo evangélico e do próprio PL. Considero essa uma leitura misógina e
míope. Por tudo que a ex-primeira-dama apresenta em sua performance, no seu
cálculo político, na sua capacidade de mostrar força e bagunçar o tabuleiro,
podemos considerá-la parte dos principais atores políticos da eleição de 2026.
Um dos estratos mais valiosos do eleitorado
nacional deste ano é o das mulheres evangélicas. Sem esse voto, Flávio não
se elege. Se formos atentos, notaremos que o mapa sobre a mesa de Michelle é um
sinal claro de que ela, mais do que o enteado, é a líder desse campo tão
precioso.
*Professora de Direito, UFCE

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