sexta-feira, 10 de maio de 2013

Economia brasileira 2.0 - Edmar Bacha

A economia brasileira está enferma. É isso que nos dizem os pibinhos, a inflação alta e a desindustrialização. São sintomas da baixa produtividade do país que tem a ver, entre outros fatores, com o atraso tecnológico, a escala reduzida e a falta de especialização que caracterizam nossas empresas de um modo geral. É o resultado do isolamento econômico a que o país se impôs em relação ao comércio internacional, com exportações que representam apenas 1,4% do total mundial. Agora que um brasileiro vai dirigir a Organização Mundial do Comércio, é boa hora de reavaliar essa política de isolamento e promover a integração competitiva do país à economia internacional.

Minha sugestão para essa integração é um programa pré-anunciado, sustentado em três pilares: reforma fiscal, substituição de tarifas por câmbio e acordos comerciais, a serem implantados de forma integrada e progressiva ao longo de um número de anos.

O objetivo do primeiro pilar, a reforma fiscal, seria permitir uma redução substantiva da carga tributária sobre as empresas, sem que isso implique um aumento da já elevada dívida pública. É atrativa uma fórmula adotada por Israel em 2010: fixar um limite superior para o crescimento dos gastos públicos igual à metade do crescimento potencial do PIB, estimado como sendo aquele observado nos últimos dez anos. No caso brasileiro, isso quer dizer um crescimento dos gastos públicos em termos reais entre 1,5% e 2% ao ano. Para reduzir o espaço de manobra para contabilidades criativas que subestimem os aumentos dos gastos (por meio de orçamentos paralelos, por exemplo), essa meta seria suplementada por limites também para o crescimento da dívida pública bruta. O detalhamento desse pilar seria feito a partir de estudo sobre os diversos componentes do gasto público e sobre as reformas necessárias para manter sua expansão sob controle. O primeiro pilar contribuiria para diminuir o "custo Brasil", que é o principal problema com que se defrontam as empresas para enfrentar a concorrência internacional.

Agora que um brasileiro vai dirigir a OMC é boa hora de promover a integração competitiva à economia internacional

O segundo maior problema é o câmbio. Esse é o tema do segundo pilar da proposta, a saber, a substituição da proteção tarifária contra as importações por uma "proteção cambial". Brevemente, trata-se de anunciar uma redução substancial, a ser implantada de forma progressiva, das tarifas às importações, dos requisitos de conteúdo nacional, das preferências para compras governamentais, das amarras aduaneiras e portuárias e das especificações técnicas de produtos distintas daquelas adotadas internacionalmente. O anúncio dessas medidas antiprotecionistas presumivelmente será feito por um(a) presidente convicto(a) de sua necessidade e com apoio no Congresso para sua implantação, ou seja, será um anúncio crível. Nesse caso, sob um regime de câmbio flutuante esse anúncio terá o efeito de desvalorizar o câmbio, pois os agentes financeiros passarão a comprar dólares e a vender reais, para lucrar com o aumento da demanda de dólares que ocorrerá para efetuar as importações adicionais que serão facilitadas.

Esse é o pilar central do plano, pois, dando acesso a insumos modernos, ele possibilitará a integração da indústria brasileira ao comércio internacional, à semelhança do que hoje ocorre com a Embraer. Haverá ganhos tecnológicos, de escala e de especialização.

Todavia, é também o pilar mais controverso. Pois, de um lado, estão economistas, mais confiantes na racionalidade dos mercados e descrentes da eficácia de controles de capitais, para quem, desde que haja flutuação livre, o câmbio saberá encontrar seu nível de equilíbrio. Bastaria, portanto, reduzir a proteção tarifária que o câmbio se ajustaria automaticamente. De outro lado, estão economistas descrentes da racionalidade dos mercados financeiros e mais preocupados com os efeitos nocivos de uma flutuação excessiva do câmbio sobre as decisões empresariais quanto a investimentos de longo prazo. Esses economistas defenderiam a adoção de uma taxa de câmbio fixa mais desvalorizada, associada a controles severos sobre os movimentos de capitais.

Minha preferência é por um meio termo entre essas duas posições, envolvendo, em primeiro lugar, um estudo sobre qual seria a taxa de câmbio que equilibraria a balança comercial na ausência das medidas protecionistas que vão ser eliminadas. Essa seria a taxa de câmbio de referência para a definição de uma banda de variação cambial. Nos primeiros tempos, a banda seria mais estreita, mas ela seria progressivamente ampliada ao longo do tempo. Os limites dessa banda orientariam o Banco Central (BC) em suas intervenções no mercado, comprando ou vendendo reservas internacionais. Tais intervenções seriam acompanhadas por medidas macroprudenciais que parecerem pertinentes ao BC, para compensar os exageros, seja de otimismo ou pessimismo no mercado de câmbio. Dadas as incertezas envolvidas numa mudança estrutural da magnitude daquela aqui proposta, tanto a taxa de referência como a banda em torno dela seriam informação privilegiada do BC que delas daria notícia somente pelo padrão de intervenções no câmbio.

O terceiro pilar são os acordos comerciais internacionais. Dado o amplo mercado interno que abrirá às exportações dos demais países do mundo, o Brasil estará em condições de fazer negociações vantajosas para a abertura compensatória dos mercados de seus parceiros comerciais. O leque de possibilidades é amplo, envolvendo acordos multilaterais, regionais e bilaterais. O certo é que o país necessitará de liberdade de movimentos e, portanto, se não conseguir agregar a Argentina a esse projeto, seria o caso de transformar o Mercosul numa área de livre-comércio, preservados os entendimentos estratégicos em vigor na área da defesa. Outra questão a ser analisada é o sequenciamento entre a abertura unilateral e aquela negociada nos acordos. Na definição dessa sequência, não se poderá perder de vista que a troca das tarifas pelo câmbio é uma vantagem em si para o país. Os ganhos comerciais que vierem dos acordos serão adicionais àqueles propiciados por essa política de alocação mais eficiente dos recursos na economia brasileira.

Edmar Bacha é coorganizador e coautor do livro "O Futuro da Indústria no Brasil: Desindustrialização em Debate" (Civilização Brasileira, 2013)

Fonte: Valor Econômico

Após nova derrota, Dilma faz apelo por votação no Congresso

Presidente pede 'esforço' para que reforma do sistema portuário seja aprovada; MP perde validade na quinta

Fracassos no Legislativo têm levado líderes de partidos governistas a pedir, nos bastidores, a troca de ministros

Valdo Cruz, Natuza Nery, Tai Nalon e Dimmi Amora

BRASÍLIA - Após sofrer nova derrota no Congresso Nacional, a presidente Dilma Rousseff tem sofrido pressão para substituir a sua equipe de negociação com o Legislativo e fez ontem um apelo aos deputados e senadores.

"Não é que não seja possível a divergência, mas o que nós não podemos ter é o silêncio, é não discutir, é não debater", disse a petista.

Dilma se referia à medida provisória que reformula o sistema portuário brasileiro, iniciativa que tenta eliminar uma das maiores deficiências da infraestrutura do país.

A MP tem que ser votada pelo Congresso até quinta, caso contrário perde a validade. "Faça [o Congresso] um esforço, no tempo que resta, que é até quinta, para aprovar essa que uma das medidas estratégicas para o país, para além de qualquer outra questão", disse a presidente.

Em reunião realizada ontem, Dilma acertou com o vice-presidente Michel Temer e com a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) a estratégia para uma última tentativa de votação da MP.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), convocará uma sessão extraordinária para segunda-feira à noite.

Ministros foram acionados para convocar deputados de suas bases para estarem em Brasília nesse dia.

A MP tem que ser aprovada ainda pelo Senado até quarta. O presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), também prometeu dar celeridade à votação da medida.

"O fato é que a presidente Dilma tem tido a coragem de encaminhar propostas importantes para o país, temas que são espinhosos, e isso gera insatisfação", disse Ideli, rebatendo críticas à condução da articulação política.

Na avaliação de líderes governistas, o Planalto perdeu o controle sobre sua base aliada, que teria deixado de seguir as orientações de Ideli. Um deles diz que Aloizio Mercadante (Educação) é quem tem sido acionado nos casos de emergência.

Segundo a Folha apurou, porém, Dilma não pretende fazer mudanças na equipe.

Tumulto

A MP dos Portos deveria sido votada anteontem na Câmara, mas a falta de entendimento na base governista e a troca de acusações entre defensores e críticos do projeto inviabilizaram a sessão.

As negociações foram puxadas pela ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil), que teria se mostrado inflexível para mudar partes da MP que, para os parlamentares, prejudicariam empresas que operam no setor portuário.

A principal mudança da MP é a que permite a terminais portuários privados o transporte de cargas de outras empresas, o que aumenta a concorrência no setor.

Em outro tema que o governo teme ser derrotado, o projeto que altera a forma de cobrança do ICMS, principal fonte de receita dos Estados, aliados dizem que a área técnica do governo ficou praticamente só nas negociações.

Ontem, o Planalto se comprometeu, mais uma vez, a mudar o relacionamento com os governistas no Congresso.

Ficou acertado, de novo, que eles serão convidados a viajar no avião presidencial em visitas a seus Estados. E que serão chamados para os eventos em seus redutos.

Outra promessa é acelerar a liberação das verbas das emendas parlamentares.

Fonte: Folha de S. Paulo

Campos pode desistir de candidatura, avalia Lula

Segundo relatos, hipótese foi debatida em encontro com Dilma em Brasília

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Os recentes movimentos do governador Eduardo Campos (PSB-PE) estão deixando em dúvida o ex-presidente Lula e alguns petistas.

Em reunião ontem no Palácio da Alvorada com a presidente Dilma Rousseff, Lula disse ainda apostar nas chances de o aliado desistir de disputar a Presidência em 2014, conforme duas pessoas que ouviram relatos do encontro.

Também participaram da conversa o ministro Aloizio Mercadante (Educação), o chefe de gabinete de Dilma, Giles Azevedo, o presidente do PT, Rui Falcão, e o marqueteiro João Santana.

Internamente, a hipótese de desistência parte da avaliação de que o pernambucano optou por se recolher após meses de exposição e críticas veladas ao governo.

Programa

Em programa partidário exibido de ontem na TV, o PT atribuiu aos governos da legenda todos os avanços que fizeram o Brasil "decolar".

Após uma cena em que o país se descolava do globo terrestre e levantava voo, afirmava-se que Lula "fez a primeira mudança" e Dilma Rousseff faz a segunda.

Nove ministros participaram, com destaque para Guido Mantega (Fazenda), que fez discurso incisivo sobre o controle da inflação, tema que vem causando preocupação ao governo. "Vamos continuar combatendo a inflação de forma implacável."

Fonte: Folha de S. Paulo

Campos nega saída de cena da sucessão

"Não houve apelo de Lula"

Visando manter aliança PT-PSB, petista teria mandado recado a Eduardo cogitando disputar eleições no lugar de Dilma

Pedro Romero

ARCOVERDE - O governador Eduardo Campos (PSB) negou, ontem, que tenha saído de cena da sucessão presidencial, momentaneamente, atendendo a um suposto pedido do ex-presidente Lula. Em sua coluna, a jornalista Tereza Cruvínel sublinhou que o líder petista teria enviado um recado ao solicialista, no qual cogita disputar a eleição de 2014, no lugar da presidente Dilma Rousseff (PT), de olho na manutenção da aliança PT-PSB. Segundo Eduardo, não houve esse apelo e as viagens por outros Estados vão voltar a acontecer porque fazem parte da sua rotina de trabalho. As declarações foram dadas ontem, nesta cidade do Sertão, onde o socialista iniciou uma série de viagens ao Sertão do Estado para atos administrativos.

"Estou fazendo o que sempre fiz, não houve esse apelo de Lula. O que estou fazendo aqui é uma rotina de trabalho. Absolutamente coerente com o que eu venho dizendo: que 2013 é de trabalho, de cuidar da realidade do povo, não é ficar discutindo eleição, que não resolve nada", despistou Eduardo Campos, ao ser questionado sobre sua ausência em eventos nacionais.

O governador voltou a repetir o mantra de que é preciso "ganhar 2013". Para isso, segundo Eduardo, é preciso trabalho e unidade. "E é isso que nós estamos fazendo", completou. O socialista enfatizou que não parou com sua agenda nacional e que ela não teve início agora, mas há muito tempo.

"Eu tenho agenda nacional desde o começo, como dirigente do partido, como deputado federal e, agora, como governador, eu tenho que buscar investimentos em outras praças e países", pontuou Eduardo. Segundo ele, as articulações foram importantes para atrair dezenas de investimentos que estão gerando empregos em Pernambuco. "Se eu tivesse ficado dando milho aos pombos na praça com certeza não tinha atraído os recursos que conseguimos. Como governador, isso é uma rotina de trabalho", completou.

Em seu discurso, Eduardo Campos voltou a falar da necessidade de trabalhar por uma melhor convivência com a estiagem em todos os momentos. "A inauguração do laboratório de melhoramento genético é um ato para olhar para o futuro, para a reconstrução e melhoramento do rebanho bovino. As ações para a convivência com a estiagem não podem parar", disse.

Na ocasião, o governador também lançou a primeira conferência estadual de convivência com a estiagem. Os encontros começarão no próximo mês nos municípios. Depois, serão realizadas as conferências regionais e, em novembro, a estadual. "Com isso, teremos um caderno com a situação de cada cidade. Poderemos saber o que precisa ser feito para nunca mais ver o que estamos vendo", concluiu.

Elogio a Lula

Ao opinar sobre uma possível vinda do ex-presidente Lula a Pernambuco, em junho, Eduardo afirmou que o petista será muito bem vindo. "Para nós é sempre uma alegria receber o ex-presidente Lula. Ele foi o maior presidente da República para os pernambucanos. Sou sempre muito grato a tudo que Lula fez pelo nosso Estado e pelo país", cravou.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Campos tenta atrair Luizianne, do PT, no Ceará

Convite serve para afastar Cid e Ciro Gomes do PSB

Maria Lima

BRASILIA - Alvo de constante bombardeio do governador do Ceará, Cid Gomes, e de seu irmão Ciro Gomes, o presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, já deu como perdida a possibilidade de conciliação e agora tenta usar a petista Luizianne Lins, ex-prefeita de Fortaleza, para forçar a saída dos dois do partido. Interlocutores do pré-candidato a presidente confirmam que o convite para que a petista ingresse no PSB já foi feito.

Como a petista é arqui-inimiga dos irmãos Gomes no Ceará, sua ida para a legenda, acredita Campos, tornaria a convivência impossível.

Nos últimos dias, em passagem por São Paulo, Cid Gomes voltou a criticar a provável candidatura presidencial do correligionário. Quase ao mesmo tempo, em viagem pelo sertão pernambucano, Eduardo Campos discutiu os desdobramentos e os ataques dos Gomes, que, acredita, sofrem pressão do Planalto para estimular o racha no PSB.

Nessas conversas, Campos não poupou críticas à presidente Dilma, demonstrando mágoa com o cerco dela a seus potenciais aliados. E chegou a desafiar os que não acreditam em sua candidatura e provável vitória.

- Eu vou disputar e vou ganhar esta eleição! Sou obstinado! Tenho sangue de Arraes na boca. Eu só devo a Lula. Só eu sei o que sofri para tirar Dilma de 3% e não deixar Marina ser eleita aqui em Pernambuco. Minha mãe dizia para meu pai: não bota esse menino no quadrado porque ele pula o quadrado. Querem me botar no quadrado! - desabafou com um aliado.

No Ceará, ele trabalha também com uma possível aliança com o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira, outro político em rota de colisão com Cid e Ciro.

- Se mesmo assim (com a ida de Luizianne para o PSB) eles continuarem no PSB e fizerem acordo lá no Ceará com o PT, eu anulo o acordo no Diretório Nacional - comentou Eduardo Campos a seus interlocutores, segundo relatos obtidos pelo GLOBO.

Fonte: O Globo

Marina ironiza ingresso de Afif, antigo rival do PT, no governo

Ex-senadora reclama de "operação de guerra" contra a criação da sua Rede

Biaggio Talento

SALVADOR - A ex-ministra Marina Silva ironizou a posse de Guilherme Afif Domingos (PSD) no Ministério da presidente Dilma Rousseff, pouco antes de uma plenária em Salvador de coleta de assinaturas para a criação do partido Rede de Sustentabilidade. Marina lembrou a disputa presidencial de 1989, quando Lula e Afif foram adversários.

- O ministro Afif Domingos colocou o Muro de Berlim (no seu programa eleitoral) para tentar assustar a população contra Lula. Agora, parece que eles removeram o muro que havia entre eles. Se é que havia - ressaltou Marina.

Sentimento de traição

Envolvida numa disputa para garantir direitos dos novos partidos ao Fundo Partidário e a tempo de TV, a ex-senadora voltou a reclamar do que qualificou de verdadeira "operação de guerra" para inviabilizar as novas legendas.

- O grande medo das pessoas é o de ideias novas, pessoas novas. Tem pessoas aí que devem estar assustadas com suas próprias sombras - atacou Marina, emendando: - Quando o PT surgiu, como ideia nova e inovadora, foi feito de tudo para inviabilizá-lo. O presidente Lula sabe quanto foi difícil. Nunca imaginei que o governo e o PT fossem se juntar com o que há de mais atrasado no Congresso para fazer conosco o mesmo que fizeram com ele.

Marina ressalvou a posição de alguns petistas que se manifestaram contra o projeto que dificulta a organização de novos partidos:

- Obviamente que tem aqueles que têm dois pesos e duas medidas, e esses estão aplicando em nós o que não aplicaram no partido do (ex-prefeito Gilberto) Kassab (o PSD), que é claramente da base do governo e recebeu agora o 39º ministério.

Para Marina, a antecipação da eleição presidencial é muito ruim para a democracia, para a gestão pública e para a política.

- As pessoas preferem ficar no ruído eleitoral para não discutir os problemas - afirmou, referindo-se ao risco de volta da inflação e aos desafios de uma educação de qualidade e de um novo modelo de desenvolvimento.

Ameaças à democracia

Marina reafirmou que, se a liminar do ministro Gilmar Mendes, que barrou a tramitação do projeto dos novos partidos no Senado, for derrubada no plenário do Supremo Tribunal Federal, e o Senado aprovar a matéria, ela pretende entrar com uma ação direta de inconstitucionalidade no STF.

No entendimento da ex-senadora, há, no momento, três "ameaças" à democracia em tramitação no Congresso.

- Uma é a que tira a competência do Ministério Público para fazer investigação; outra é a que dá ao Congresso a prerrogativa de validar ou não as decisões do Supremo; e a terceira, a que fere o pluripartidarismo e o princípio da isonomia, já que, numa mesma legislatura, (benefício) foi concedido a outros partidos.

A ex-senadora está confiante de obter o número de assinaturas necessário para a formação do Rede até setembro, prazo-limite para quem vai participar das eleições de 2014. Lembrou que, em três meses, já conseguiu 300 mil assinaturas. O número buscado é de 550 mil até o fim do prazo. Na Bahia, a comissão provisória obteve dez mil.

- Estamos trabalhando para conseguir entre 650 mil e 700 mil assinaturas - disse Marina.

Fonte: O Globo

Em Salvador, Marina Silva ironiza entrada de Afif em ministério

Ex-senadora lembrou o embate presidencial entre Lula e o novo ministro

SALVADOR – A ex-senadora Marina Silva ironizou nesta quinta-feira a posse de Guilherme Afif Domingos (PSD-SP) para assumir o 39º ministério da presidente Dilma Rousseff, o da Secretaria da Micro e Pequena Empresa. Marina lembrou o embate político entre Lula e Affif na campanha presidencial de 1989. Ela deu a declaração na capital baiana, pouco antes de uma plenária para recolher assinaturas do futuro partido Rede de Sustentabilidade.

— Quando o ministro Afif Domingos disputou a Presidência da República contra o Lula, ele colocou “o muro de Berlim” no seu programa eleitoral para tentar assustar a população contra o ex-presidente. Agora, parece que eles removeram o muro que havia entre eles. Se é que havia — ironizou Marina Silva.

Marina também voltou a reclamar do que qualificou de verdadeira “operação de guerra” para inviabilizar a criação de novos partidos.

— O grande medo das pessoas é de ideias novas, pessoas novas. Tem pessoas que devem estar assustadas com suas próprias sombras. O PT quando surgiu como ideia nova e inovadora, foi feito de tudo para inviabilizá-lo. O presidente Lula sabe quanto foi difícil. Nunca imaginei que o governo e o PT fossem se juntar com o que há de mais atrasado no Congresso para fazer conosco o mesmo que fizeram com eles — declarou.

Marina reafirmou que se a liminar do ministro Gilmar Mendes que barrou a tramitação do projeto na Câmara dos Deputados for derrubada no plenário do Supremo Tribunal Federal, pretende entrar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF se o Senado aprovar a matéria que passou pela Câmara. Ela entende existir no momento três “ameaças” à democracia em tramitação no Congresso. Um é o que tira as competência do Ministério Público para fazer investigação, o outro que dá ao Congresso a prerrogativa de validar ou não as decisões do Supremo e o terceiro o que fere o pluripartidarismo e o princípio da isonomia.

A ex-senadora tem certeza de obter o número de assinaturas necessárias para a formação do Rede até setembro, prazo limite para quem vai participar das eleições de 2014. Lembrou que em três meses já conseguiu 300 mil assinaturas. O número buscado é de 550 mil até o prazo. Na Bahia, a comissão provisória obteve 10 mil.

— Com a nossa organização nos estados, dobramos o que obtivemos em 45 dias em apenas vinte dias, nacionalmente. Estamos trabalhando para conseguir entre 650 mil a 700 mil assinaturas —afirmou.

Nove estados, entre os quais a Bahia já alcançaram a quota mínima regional e já podem constituir suas comissões provisórias. Além de Salvador, Marina vai passar em Feira de Santana, maior colégio eleitoral do interior baiano, nesta sexta-feira.

Fonte: A Tarde (BA)

Não é o fim da história - Alberto Goldman

O PT, Lula e Dilma, conseguiram o milagre: quase acabar com as esquerdas no Brasil. Aquilo que nem a ditadura foi capaz de fazer – desaparecer o perigo comunista e, de quebra, limitar a força e a dimensão da social democracia – os petistas conseguiram. Sobrou pouco, uma esquerda democrática raquítica.

Cooptaram quase tudo e todos. Foram buscar os remanescentes da ARENA, isto é, o PP com o Maluf e o Delfim, e os que se espalharam pelos outros partidos, dividiram o DEM, ex PFL, que fora formado com uma ala mais liberal da ARENA e havia ficado na oposição, trazendo para seu regaço figuras como Kassab e Guilherme Afif, liberais, neo liberais, pós liberais, buscaram grandes empresários em troca de benesses, e botaram à escanteio alguns esquerdistas recalcitrantes, no PSOL, PSTU, etc. Juntaram tudo, uma salada. O pântano. Ninguém havia conseguido essa façanha. Os métodos? Ora, os métodos já conhecidos variando de mensalões até espaços de poder para atuar com total desenvoltura.

E o que sobrou? Entra aí o PSDB, capengando, o pequeno PPS fundido ao PMN, o que restou do DEM e alguns escoteiros soltos.

É o fim da história? Não creio. Em algum momento tudo isso explode e assim poderemos construir um sistema político e de partidos para viver uma vida democrática e saudável. Os que ainda resistem à essa avassaladora ação petista tem que acreditar e agir.

Fonte: Blog do Goldman

Dilma e Lula veem articulação política frágil para 2014

Ao traçar cenário da sucessão, PT avalia que Campos será obstáculo e alianças devem ser fortalecidas

A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula discutiram ontem a campanha de 2014 levando em consideração a candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), à Presidência. A ordem é tentar pacificar as disputas locais com o PT e aliados que possam ter implicações nacionais. Também foi decidido que a presidente deve mudar o relacionamento com parlamentares. A ideia é estreitar contato com deputados e senadores com convites para viagens a suas bases e informações sobre liberação de recursos para prefeituras ligadas a eles. Será feito ainda um levantamento de emendas que poderão ser liberadas. Além de Lula, estavam no encontro o presidente do PT, Rui Falcão, e o ministro Aloizio Mercadante (Educação), cotado para coordenar a campanha.

PT vê articulação política frágil e entrada de Campos como obstáculos para 2014

No divã com Lula. Dilma e o antecessor almoçaram juntos ontem no Palácio da Alvorada para avaliar o cenário da sucessão; cúpula petista considera que relacionamento da presidente com os parlamentares é ruim e isso pode criar problemas em palanques regionais.

Tânia Monteiro

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva almoçaram ontem juntos, no Palácio da Alvorada, para discutir o cenário de 2014 já considerando a candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). A ordem é tentar pacificar o quanto antes disputas locais com o PT e aliados que possam ter implicações nacionais e melhorar a articulação política com parlamentares que serão potenciais candidatos.

Foi feito um diagnóstico de que a articulação política da presidente com o Congresso segue frágil e o relacionamento com os parlamentares, considerados correia de transmissão de popularidade da presidente nos grotões, precisa melhorar.

O almoço contou com a presença do presidente nacional do PT, Rui Falcão, e do ministro Aloizio Mercadante (Educação), cotado para coordenar a próxima disputa presidencial.

Dilma, que desde o início do ano passou a se relacionar diretamente com prefeitos, na tentativa de se livrar de chantagens e pressões dos parlamentares a cada votação, foi advertida de que a estratégia não deu certo.

Por isso, a partir de agora a presidente passará a agradar aos parlamentares com convites para viagens às suas bases eleitorais, informações sobre liberação de recursos para prefeituras, permitindo que eles possam também capitalizar politicamente benefícios para os municípios. Será feito ainda um levantamento sobre as emendas que poderão ser liberadas.

Campos. A candidatura de Eduardo Campos foi um dos principais temas do almoço. Há uma divisão na cúpula petista sobre o que fazer em relação aos cargos que o PSB detém no governo. Lula defende que o ônus de permanecer como aliado do governo federal é de Campos e, por isso, prega a "conciliais 10", lembrando que cabe ao governador demonstrar coerência política. O governo federal não teria nada a perder.

No Planalto, no entanto, há quem defenda que os cargos de Campos sejam retirados desde já, levando o partido para a oposição, a fim de atender a demandas de aliados sedentos por cargos para continuar apoiando o governo e a reeleição.

Discórdia, O PT está preocupado com palanques da eleição do ano que vem em vários Estados e apesar dos problemas no Congresso, quer tentar usar os parlamentares e os prefeitos para darem capilaridade ao projeto da reeleição. Um dos dados avaliados pelos petistas, com base em uma pesquisa qualitativa realizada pelo partido recentemente mostrou que apesar de a oposição ter aproveitado o 1.° de Maio para abordar o aumento da inflação e criticar o governo, os adversários políticos ainda estão sem discurso.

Os petistas estão convencidos de que, apesar da subida da inflação, a percepção da população é de que há uma sensação de bem estar nas famílias e que o lento ritmo do crescimento econômico ainda não os afetou. No programa do PT veiculado ontem em rádio e TV, o ministro Guido Mantega (Fazenda) foi encarregado de enfatizar que o governo "continua a baixar a inflação de forma implacável" (veja mais na web, link acima).

Prefeitos. Estratégias já adotadas por Dilma foram reavaliadas pelo núcleo político do PT ontem, Uma delas é a articulação pessoal com prefeitos. Em eventos recentes, Dilma passou a entregar ônibus escolares e retroescavadeiras aos prefeitos. Isso irritou congressistas que vão se candidatar em 2014, Dilma também distribuiu "mimos" no Nordeste para golpear prováveis rivais. O gesto foi considerado contraproducente.

Na TV

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, era o convidado de ontem do Programa do Ratinho, do SBT. Com a desistência de Aloizio Mercadante, Padilha é o nome mais cotado no PT para disputar o governo de São Paulo.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Jantar com PMDB expõe à presidente divisões na aliança

Encontro promovido por Michel Temer no Jaburu antecipa dificuldades que peemedebistas terão para compor com o PT.

Tânia Monteiro e Eduardo Bresciani

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff recebeu o apoio do PMDB gaúcho à sua reeleição em jantar organizado pelo seu vice, Michel Temer, mas não se livrou, no ato, de constrangimento pelas rivalidades regionais. Como ocorre em outros colégios eleitorais do País, o apoio do PMDB gaúcho não está atrelado a uma aliança local e Dilma teve de ouvir de um dirigente o relato sobre o problema estadual. Dos sete principais colégios eleitorais, PT e PMDB só deverão estar juntos em um.

O encontro organizado por Temer ocorreu anteontem no Palácio do Jaburu, residência oficial da Vice-Presidência. O deputado estadual Edson Brum (PMDB) deixou o anfitrião ruborizado e Dilma com um sorriso amarelo ao dizer que o partido não aceitará imposição do PT, que governa o Estado com Tarso Genro (PT).."O próximo candidato ao governo do Estado é do PMDB e esperamos contar com o apoio do PT", disse Brum, para constrangimento geral.

A presidente evitou a polêmica e, ao agradecer, lembrou que fez sua vida política no Estado.

Os problemas da aliança PT-PMDB nos Estados devem-se a rompimentos provocados pelos dois lados. Além do Rio Grande do Sul, eles devem ter palanques separados em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e Pernambuco. Apenas em Minas Gerais a parceria parece viável, depois que Dilma nomeou o deputado federal Antônio Andrade, do PMDB, para o Ministério da Agricultura.

No Rio de Janeiro é o PT que ameaça abandonar a aliança lançando o senador Lindbergh Farias para enfrentar Luiz Fernando Pezão (PMDB). No Paraná, uma diretriz da direção nacional do PMDB de ter candidatos próprios nos Estados torna inevitável a candidatura do senador Roberto Requião contra a petista Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil.

O presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), confirma que o partido pretende lançar candidatos no maior número de Estados. "Onde não der para ficar junto, é sempre bom lembrar que há um segundo turno", avisa.

Em alguns Estados a aliança parece impossível. Na Bahia, o PMDB é comandado pelo vice-presidente da Caixa Econômica, Geddel Vieira Lima, e por seu irmão, o deputado Lúcio Vieira Lima. Os dois fazem oposição ao governador petista Jaques Wagner. A situação é parecida em Pernambuco.

No maior colégio eleitoral, as duas siglas podem fazer um acordo para o segundo turno. O PMDB sonha com candidatura própria para aumentar sua bancada de deputados federais. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, tenta se viabilizar para ocupar esse espaço.

A divisão pode até interessar ao PT, que ainda procura candidato, e pode apostar numa multiplicidade de palanques para levar a eleição ao segundo turno, dificultando uma reeleição do tucano Geraldo Alckmin.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Afif e a polêmica de "dois senhores"

Ex-crítico ferrenho do PT e de Lula, novo ministro não vê problemas em acumular cargos ou substituir Geraldo Alckmin em junho

Karla Correia

Indiferente à polêmica em torno de sua dupla função administrativa — como vice-governador de São Paulo e, agora, como membro do governo Dilma Rousseff —, o novo ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos, tomou posse ontem no comando da pasta afirmando que só renunciará ao posto de vice do governador tucano, Geraldo Alckmin, “por decisão judicial”.

“Eu não sirvo a dois senhores. Eu sirvo a uma causa com que os dois senhores concordam”, disse Afif, que, no passado, se destacou na oposição ao governo e colecionou críticas à administração federal petista, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu adversário na corrida presidencial de 1989 e até mesmo à presidente Dilma Rousseff.

Foi justamente a própria biografia e o que chamou de “proximidade” com a presidente Dilma que Afif invocou ao justificar sua nomeação para a recém-instalada secretaria, criada especialmente para abrigar o PSD na base de sustentação do governo. O novo ministro, contudo, refutou a hipótese de o partido passar a compor oficialmente a base aliada apenas por ter conquistado um posto na Esplanada. “O PSD apoia a reeleição da presidente Dilma sem que isso signifique a troca de cargos”, afirmou.

O fenômeno da dupla função de Afif é alvo de duras críticas dentro do PSDB, partido do governador Geraldo Alckmin. O vice-presidente do partido, Alberto Goldman (SP), classificou a situação como “politicamente inaceitável” em seu blog. O próprio Alckmin, entretanto, evita acirrar os ânimos e chegou a parabenizar a presidente, em nota, pela nomeação de Afif.

Ética pública

Já empossado, o novo ministro minimizou as críticas. “É da política, coisa de quem não está satisfeito”, observou. Mas antes mesmo de completar um mês no cargo, Afif verá sua situação ser avaliada dentro da Comissão de Ética Pública da Presidência, em sessão marcada para o próximo dia 20. Ainda assim, o novo ministro descarta a hipótese da renúncia. “O vice já é um licenciado, porque ele é um stand-by. O que ocorre é que o vice é um ser eleito. Por isso, a renúncia seria um fato muito grave”, argumenta. “A legislação não tem nada que me impeça de assumir o cargo”, asssegurou.

A estranheza da situação de fazer parte de duas gestões — com orientações políticas opostas — será ainda maior em junho, quando Alckmin deve se ausentar do país e Afif poderá assumir o governo de São Paulo. A hipótese de se afastar da pasta nesse período não foi confirmada pelo novo ministro. “Isso está muito longe. Quando chegar a época vamos decidir. Todo mundo sabe da minha condição e as condições jurídicas que se revestem nesse ato. Portanto, foi tudo meditado”, limitou-se a dizer.

Afif tomou posse da secretaria defendendo a redução da burocracia em torno da legislação que incide sobre as micro e pequenas empresas. “Burocracia é como colesterol, tem o bom e tem o ruim. O bom é o serviço público exemplar, que lubrifica as artérias, permitindo o fluxo. O ruim é aquele que entope, atrapalha o desenvolvimento do país. É esse que vamos combater, a má burocracia”, comparou o ministro, ao afirmar que a pasta “não será da verba, mas do verbo”.

A comparação serviu para compensar a frustração de assumir um Ministério com orçamento de R$ 54,3 milhões ante os R$ 165 bilhões do Ministério dos Transportes (o mais valioso da Esplanada). “O ministro está sendo modesto, (a pasta) vai ser também da verba”, brincou Dilma, em seu discurso. “A micro e a pequena empresa precisam de uma política de crédito, precisam de uma política tributária”, disse a presidente.

Fonte: Correio Braziliense

PPS faz propaganda como MD

Isabella Souto

Na incerteza da aprovação pelo Senado das regras que limitam o tempo de televisão e acesso ao Fundo Partidário às novas legendas, o recém-criado Mobilização Democrática – ou MD – tratou de garantir seus primeiros segundos na propaganda partidária eletrônica veiculada em Minas Gerais. Resultado da fusão do PPS e do PMN, a nova legenda começou a ser apresentada aos mineiros na segunda-feira, durante a publicidade destinada pela Justiça Eleitoral ao PPS. A legenda tem direito a 40 inserções de 30 segundos, espalhadas no calendário nos dias 6, 8, hoje e na segunda-feira.

O tempo tem sido usado para explicar aos eleitores a decisão das duas legendas de se unirem em uma só, medida que resultou em um partido "mais forte, para buscar soluções de que o Brasil precisa". A propaganda divulga ainda o slogan da legenda e seu número, o 33, mesmo do antigo PMN. Na internet, está no ar desde a segunda-feira um vídeo em que a deputada estadual Luzia Ferreira – então presidente do PPS mineiro – traz como meta do partido "um crescimento econômico com sustentabilidade e distribuição de renda".

"Aproveitamos o horário para explicar a fusão do PPS com o PMN. Como a fusão resguarda ao novo partido tudo que era dos outros, fizemos o programa com o MD", justificou Luzia Ferreira. A distribuição do tempo disponível para a propaganda partidária foi feita no ano passado, quando ainda não havia a negociação para a fusão das legendas. Tem direito à propaganda gratuita o partido que, na eleição para a Câmara dos Deputados, tenha obtido no mínimo 5% dos votos, não computados os brancos ou nulos, distribuídos em pelo menos um terço dos estados, com um mínimo de 2% do total de cada um deles. Como o PMN não atingiu essa meta, não teve direito ao uso da propaganda.

A fusão do PPS e PMN foi registrada no último dia 17, poucas horas antes de a Câmara dos Deputados aprovar em plenário o projeto que limita o acesso dos novos partidos aos recursos do Fundo Partidário e à propaganda de rádio e televisão. A grande dúvida é se uma fusão é considerada criação de uma legenda – o que repercute, por exemplo, na possibilidade de parlamentares migrarem para o MD sem ferir a fidelidade partidária. A legislação permite a troca, sem prejuízo do mandato, se for para novos partidos.

A proposta, que agora tramita no Senado, muda entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), do ano passado, que concedeu ao PSD – criado pelo então prefeito de São Paulo Gilberto Kassab – tempo de televisão e recursos do Fundo Partidário. A divisão foi feita levando-se em conta os parlamentares eleitos em 2010 que migraram para ela. O PSD tem a terceira maior bancada da Câmara, sem ao menos ter disputado as eleições.

Se o projeto for aprovado pelo Senado, os novos partidos terão direito apenas a parcelas mínimas de recursos e do tempo de propaganda. O MD já negocia a filiação de parlamentares descontentes com suas legendas – especialmente do PSD, em razão da decisão da legenda de integrar a base do governo Dilma Rousseff (PT).

Fonte: Estado de Minas

Brasil lá e cá - Marina Silva

A eleição do brasileiro Roberto Azevêdo para a OMC desperta muitas expectativas. Mesmo com poder limitado e os rumos da organização definidos pelos países ricos, a direção de um país emergente é vista como uma renovação necessária e urgente, num momento de crise e paralisia dos órgãos de governança global.

Atribui-se à crise econômica o travamento das negociações internacionais, não apenas na agenda comercial --a Rodada de Doha--, mas também na superação da miséria e até no enfrentamento das mudanças climáticas.

Mas a crise não justifica tudo, apenas revela que a inoperância dos governos vem da sua incapacidade de liderar processos complexos num mundo em transformação. Refugiam-se em protecionismos e acordos bilaterais. Para usar uma metáfora que tenho ouvido dos mais jovens, são governos analógicos num mundo digital.

Vejamos questões centrais nos impasses da OMC, como os subsídios à agricultura nos países desenvolvidos e as dificuldades dos emergentes em abrir setores de serviço e compras governamentais. Em cada país há disputas de interesses específicos, com variados graus de influência política, e as posições externas refletem contradições internas.

É o caso do Brasil: nos últimos anos, vimos um reforço político à tendência de aprofundar nossa inserção internacional com o fornecimento de alimentos e minérios, quase abdicando da capacidade de crescer em conhecimento e inovação. Ou seja, exportamos basicamente recursos naturais.

A isso corresponde o retrocesso na política interna, que passa o trator sobre os direitos das comunidades tradicionais e desregula a gestão do patrimônio ambiental. Como pode o Brasil assumir posições avançadas nas questões em que o comércio internacional defronta-se com mudanças climáticas, energias renováveis, florestas e direitos dos povos?

Todos queremos o Brasil na liderança dos organismos internacionais, mas a pergunta é: qual diferença e avanço os brasileiros trazem? No caso da OMC, como atualizá-la para tratar as interfaces do comércio com a gestão financeira, a tecnologia, as questões socioambientais? Como o novo diretor-geral tratará os critérios de sustentabilidade que devem orientar o comércio internacional?

Temos um bom sinal: ele chefiou os negociadores brasileiros numa grande vitória na OMC, quando a lei brasileira que restringe a importação de pneus reformados foi questionada pela União Europeia. E já declarou interesse em incorporar novos temas ao debate.

Esperemos que seja indicativo de suas convicções e da capacidade de ajudar o Brasil a superar a contradição entre imagem externa e política interna para, assim, construir relações internacionais adequadas aos desafios e mudanças do mundo.

Marina Silva, ex- senadora

Fonte: Folha de S. Paulo

Vamos tocar caxirola, irmão - Fernando Gabeira

Na economia, a galinha pousou e ainda cacareja com estridência, sob o impulso do contato com o solo. Na política, o edifício dominante começa a mostrar suas rachaduras. O PSB, por meio de Eduardo Campos, parte para a carreira solo; dentro do governo, tremem os alicerces da fraternidade.

Alguns petistas acham que Dilma Rousseff, com os olhos verdes desenhados para a nova temporada, protege Erenice Guerra, seu ex-braço direito, e o ministro Fernando Pimentel. Em contrapartida, Dilma, segundo eles, persegue Rosemary Noronha e mantém certa friezaante os condenados pelo mensalão. É um delicado tipo de fissura. Os acusados amigos de Lula são tratados com rigor, os acusados amigos de Dilma seguem sua trajetória milionária. Erenice é um pouco, no governo Dilma, o que foi José Dirceu no governo Lula: ela articula inúmeros negócios na área de eletricidade, representa poderosos grupos estrangeiros.

A essência dessa intrincada luta interna não é estranha à História do Brasil: ou todos se locupletam ou restaure-se a moralidade. O ideal é de que todos se locupletem, não exista nenhuma distinção entre trambiqueiros da cota de Lula e da cota de Dilma. São todos, irmãos, bro.

Como se não bastassem os ácidos humores internos, a aliança do governo embarcou numa aventura contraditória.

O PT quer se vingar do Supremo Tribunal Federal (STF). O PMDB pede paz. Por que tanta briga, se podemos continuar comendo de mansinho?

O embate contra o STF era previsível. E não só pelas tintas bolivarianas que ainda colorem os sonhos da esquerda no poder. A tese de que o mensalão nunca existiu não deixa margem de manobra. É preciso desarticular o Poder que escreveu a narrativa do episódio. O edifício está condenado pela Defesa Civil. No entanto, a experiência das andanças pelas áreas de risco mostra que um edifício condenado nem sempre cai ou é abandonado pelos ocupantes.

Surge aí o papel da oposição. Será capaz de se unir, apresentar uma alternativa, enfrentar a dura luta cotidiana contra um esquema que estendeu seus braços como um polvo, abraçando tudo o que lhe oferece ainda alguma resistência?

Vamos tocar caxirola, irmão. Chegamos aos grandes eventos esportivos, uma aventura do novo Brasil mostrando ao mundo sua capacidade de organização, sua pujança. O edifício vizinho, o da cúpula esportiva, está literalmente ruindo. João Havelange deixou a presidência da honra da Fifa, em segredo. Ricardo Teixeira gasta seus dólares em Miami. Sobrou apenas José Maria Marin, enrolado com gravações em que estigmatiza Vladimir Herzog e prega em defesa da família brasileira.

Alguns patriotas que defendem a família costumam pintar os cabelos e beliscar abunda das secretárias, em Brasília. Marin só pinta os cabelos e rouba medalhinhas em eventos esportivos. É inútil esperar que as tribos de cabelo acaju e negro como as asas da graúna entrem em conflito mortal, numa batalha que tinja a verde grama da Esplanada.

Vamos tocar caxirola! Soldados vestidos com capa de chuva protegerão nossa sinfonia na seca de Brasília, em estádio que nos custou os olhos da cara.

A aventura política parte do mito de que somos os melhores no futebol. Os alemães, entre outros, têm mostrado como o nosso esporte precisa de uma renovação de craques, técnicos e dirigentes. Quando o edifício da cúpula esportiva cair, e com ele o mito de que somos os maiorais, vamos jogar caxirola, irmão. O impacto se fará sentir no outro edifício condenado.

A caxirola é uma granada de plástico que explode no chão fazendo ploft. Toda uma tentativa de driblar a História, de transitar pelo atalho do consumo na economia, de trilhar os caminhos revoltantes do cinismo na política será reduzida à sua verdadeira dimensão.

O Rio de Janeiro tem três prédios conhecidos como "balança, mas não cai". Estão ali para lembrar que as previsões só se podem cumprir se houver uma vontade ampla de achar outros rumos para o País. O edifício pode não cair no próximo teste. Nosso único consolo será ver a presidenta do Brasil tocando de novo sua caxirola, símbolo de uma visão de mundo, de povo, de festa: caxirola, cartolas, a base do governo, tudo com mordomos a R$ 18 mil e garçons a R$ 15 mil por mês. E concluir, resignadamente: venceram, mas da próxima não escapam.

A caxirola passa, o Brasil segue em frente. No momento, a política aparece como uma espetáculo distante e ridículo. Não por caso os programas humorísticos montaram tenda no Congresso. Mas o ano eleitoral necessariamente trará um debate sobre os rumos do País. Já devia ter começado, no momento surgem apenas alguns slogans.

Eleições podem ser uma armadilha. Cortinas de fumaça costumam dar mais votos do que argumentos sérios. Quase ninguém lê programa. Debates na TV, entrevistas ajudam a conhecer as perspectivas dos candidatos, mas ensinam um pouco também sobre o que as pessoas estão pensando sobre o País. Mas as eleições serão uma excelente oportunidade para tomarmos o pulso do Brasil, esperando constatar, como na canção, que o pulso ainda pulsa.

Vivemos grandes alianças ao longo do processo de democratização: a luta pelas diretas, o impeachment de Collor. Depois foi a vez dos dois grandes partidos experimentarem o poder. O governo Fernando Henrique Cardoso construiu as bases para a estabilidade econômica e a bonança internacional inspirou o PT a dinamizar o consumo.

Em 2008 a crise internacional instalou-se para lembrar que as coisas não seriam mais como antes. E nos colheu ainda com uma educação medíocre, uma infraestrutura tosca e uma gigantesca e dispendiosa máquina administrativa. Para agravar nossos custos, a imensa corrupção, vendida como um mal necessário, uma pequena taxa no banquete do consumo.

Isso já era realidade em 2010. Dilma Rousseff pegou o bonde andando e manteve o rumo, indiferente ao fim da linha. Ela troca com regularidade a cor dos olhos. Mas não consegue ver outro caminho.

Quando o edifício da cúpula esportiva cair, o impacto se fará sentir no outro edifício condenado.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Barbosa indica que quer já prisão de mensaleiros

Em outro julgamento na Corte, presidente do STF expôs ontem tese de que se pode executar a pena antes mesmo da análise dos embargos de declaração.

Felipe Recondo

BRASÍLIA - O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, defendeu ontem a execução da pena imposta ao ex-deputado José Tático (PTB-GO) - condenado a sete anos de prisão por apropriação indébita previdenciária e sonegação de contribuição previdenciária - logo depois do julgamento dos primeiros embargos de declaração. Se esse entendimento for transposto para o caso do mensalão, Barbosa pode defender a prisão dos réus antes do trânsito em julgado do processo, logo após o julgamento dos 25 embargos de declaração.

No caso julgado ontem em plenário, os embargos à condenação de Tatico foram classificados como protelatórios por Barbosa. Ele argumentou que a defesa do ex deputado pretendia rediscutir no recurso pontos já debatidos pelos ministros ao longo do processo. Além disso como o ex-deputado foi condenado de forma unânime, não poderia pedir novo julgamento por meio de embargos infringentes - tais embargos abrem a possibilidade de uma sentença ser reavaliada em caso de votação apertada, quando pelo menos quatro ministros votaram pela absolvição do réu.

No caso do mensalão, algumas das condenações ainda podem ser mudadas se o tribunal aceitar os embargos infringentes. Nesse caso, os ministros teriam de julgar novamente as acusações contra réus que foram condenados mesmo com os votos de quatro ministros pela absolvição.

A tese encampada por Barbosa no caso de Tatico enfrentará resistência por parte dos ministros do tribunal Alguns integrantes da Corte adiantaram, reservadamente, que a prisão só ocorreria após o trânsito em julgado. Neste caso, teriam de encerrar o julgamento dos embargos e aguardar o.encerramento do prazo para saber se a defesa do ex-deputado ainda contestaria alguma eventual omissão ou contradição do acórdão.

O julgamento do recurso de Tatico foi suspenso ontem por um pedido de vista do ministro o Teori Zavascki. No embarco, Tatico tenta extinguir a punição que lhe foi imposta. Depois de condenado, ele pagou o que devia à União. Tatico argumentou ainda que completou 70 anos de idade antes do trânsito em julgado da ação. Por isso, o prazo de prescrição do processo deveria cair pela metade. Assim, sua pena já estaria prescrita.

Até o momento, os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Luiz Fux e Marco Aurélio votaram a favor de Tatico. Ayres Britto, Barbosa, Cármen Lúcia e Rosa Weber rejeitavam o recurso. Zavascki chegou a votar contra, mas pediu vista Freud Godoy diz à PF que vai abrir sigilo.

Ao depor quarta-feira na Polícia Federal em São Paulo, sobre denúncias de que dinheiro do mensalão cobriu despesas pessoais de Luiz Inácio Lula da Silva, o empresário Freud Godoy –

ex-assessor do ex-presidente abriu mão de seu sigilo bancário. Ao final do depoimento, que durou cerca de quatro horas, o delegado fez uma pergunta: "O sr. abre mão do seu sigilo?". Freud respondeu "abro" e assinou embaixo o compromisso. Ele reiterou o que havia dito no inquérito do mensalão - exibiu cópia daquelas declarações.

Reafirmou que o cheque de R$ 98,5 mil que sua empresa, Caso Segurança - contratada pelo PT para organizar comícios, recebeu da SMPB, de Marcos Valério, operador do mensalão, referia-se à campanha de 2002. Negou que tenha pago despesas de Lula. Sua mulher e sócia, Simone, depôs por uma hora e disse que, ao final da campanha, não presenciou pagamentos. Estava afastada da administração da empresa, em repouso absoluto, por causa da gravidez.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Uma noite inesquecível - Merval Pereira

Foi uma noite para ser esquecida, segundo a definição de alguns. Ou para nunca mais ser esquecida. O nível dos debates ficou tão baixo que o presidente da Câmara, Henrique Alves, disse que, em 40 anos de vida parlamentar, jamais vira espetáculo tão degradante. Não se poderia esperar outra coisa dos principais combatentes da noite, os deputados Eduardo Cunha, do PMDB, e Anthony Garotinho, do PR, ambos do Rio, antigos aliados, hoje grandes desafetos.

Garotinho acusou a emenda aglutinativa patrocinada por Cunha de cheirar mal, de ter motivações escusas e, nos bastidores, falava abertamente em milhões de reais por baixo da mesa para favorecer interesses de empresários. Cunha referiu-se a Garotinho como o batedor de carteira que sai gritando "pega ladrão" para distrair a atenção.

A baixaria foi tão grande que a piada no plenário era que, em vez de citar Tio Patinhas, referindo-se ao autor da emenda, Garotinho deveria falar nos Irmãos Metralha. E a consequência lógica era que os dois tinham razão. Com a acusação genérica de Garotinho, aconteceu o imprevisível: todos os líderes que se preparavam para aprovar a votação retiraram o apoio, com receio de serem apontados como corruptos. Não se sabe se a atitude de Garotinho foi apenas contra o adversário Eduardo Cunha ou se tinha um alcance mais amplo que o de impedir que a emenda aglutinativa fosse votada. Nesse caso, estaria fazendo um trabalho para a presidente Dilma, que quer aprovar a medida provisória que enviou ao Congresso com as mudanças negociadas com a base.

Ainda há grande perplexidade no Congresso, e ninguém sabe se haverá condições de aprovar a medida provisória antes que caduque, no dia 16. Como a nova Lei dos Portos foi encaminhada sem uma negociação prévia no Congresso, agora os empresários de várias correntes procuram seus deputados e senadores defendendo seus interesses.

Mesmo que o objetivo seja modernizar os portos, imprescindível para destravar a economia, muitos detalhes encontram objeções entre os setores envolvidos. O fato de o texto da MP ter recebido nada menos que 645 emendas, sendo que 150 foram aceitas pelo relator, mostra o grau de desentendimento que existe sobre a matéria. Além do mais, a presidente deixou vazar que não honraria as emendas acatadas pelo relator, o que deixou os interlocutores do Planalto sem voz ativa no Congresso, provocando críticas especialmente às ministras Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann.

As principais críticas à MP são sobre a ação dos sindicatos na contratação de pessoa. E também à ingerência governamental, que mais ou menos recria a Portobras, pois eleva o poder dos burocratas federais, impedindo que um porto estadual, como Suape, continue na boa trilha e acaba com a participação direta de trabalhadores e empresários no Conselho de Autoridade Portuária (CAP).

Pela MP, o CAP passaria de deliberativo a consultivo, sem poder decisório algum. No plenário, os deputados lembravam que a Lei dos Portos de Itamar Franco tramitou como projeto de lei, de forma democrática, ao contrário da de Dilma, que tentou fazer o mesmo por MP, por si só impositiva, cheia de erros e geradora de conflitos. Mesmo os partidos de oposição, que pretendiam votar com o governo porque consideram que é importante modernizar os portos, encontraram dificuldades para defender suas posições diante dos desentendimentos da própria base governista.

Mais importante que o resultado desse embate é a constatação de que a maioria parlamentar do governo na verdade não existe. Cada partido, ou grupo de parlamentares, defende seus interesses e não está alinhado a um projeto de governo. Mesmo porque não existe uma atuação parlamentar do governo em sintonia dentro do Congresso, pois as discussões ocorridas na noite de quarta-feira aconteceram basicamente entre lideranças de partidos da base aliada, que se encontram cada dia mais estressadas diante da incerteza de um poder futuro.

Com a economia em situação preocupante, a descoordenação da atividade parlamentar e a inaptidão da presidente Dilma para a negociação política, cada um tenta entender onde está a expectativa de poder futuro para se posicionar corretamente na disputa presidencial. O favoritismo de Dilma vai dando lugar a uma incerteza que coloca sua base partidária em polvorosa.

Fonte: O Globo

Sem folga na direção - Dora Kramer

Volta e meia sai uma pesquisa registrando índices de popularidade inéditos para a presidente Dilma Rousseff, em geral seguida de outra informando que, "se a eleição fosse hoje" ela estaria reeleita. No primeiro turno.

A mais recente, encomendada pelo PSDB, coincide com os dados divulgados pelo Ibope em março: Dilma tem 53% das intenções de voto. Isso em cenário de múltiplas candidaturas adversárias. Segundo o Ibope, a presidente teria 58% enfrentando três oponentes e 60% se os desafiantes forem apenas dois, Marina Silva e Aécio Neves.

Visto assim do alto, o quadro é extremamente favorável à presidente. Ainda mais se considerados dados do Ibope sobre as intenções de voto de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva em 1998 e 2006, anos das respectivas reeleições.

FH tinha 25% na pesquisa espontânea e Lula, 27%. Nesse tipo de consulta em que não é apresentada ao pesquisado uma lista de nomes, Dilma apareceu com 35% em março último.

Mas há diferenças significativas. A antecedência da consulta, por exemplo. O índice de Lula foi medido seis meses antes da eleição, o de Fernando Henrique, três meses e o de Dilma, um ano e meio antes.

Na época, Lula estava às voltas com o escândalo do mensalão. FH enfrentava turbulências sérias na economia e na política, pois perdera a majestade com o esforço para aprovar a emenda da reeleição no ano anterior e sua base de sustentação no Congresso dava sinais graves de desgaste que viria a se consolidar depois no afastamento do então PFL (hoje DEM) e na dispersão do PMDB.

Ainda assim foram reeleitos. O tucano em primeiro turno com 53,06% dos votos e o petista no segundo, com 60,83%. Ponto a favor de Dilma? Não necessariamente.

A presidente em tese vive circunstâncias mais vantajosas: não tem oposição forte como tinha o tucano, não está na administração de um escândalo das proporções do mensalão,vive em campanha eleitoral aberta no pleno uso da máquina estatal, em suma: joga sozinha e com as brancas".

Nessas condições, 53% de intenções de voto não é grande coisa: o jogo ainda não começou para valer, a economia patina, as insatisfações se explicitam nos setores mais diretamente interessados (empresariado e políticos) e a imagem de grande gestora e governante austera vai batendo de frente com a realidade de resultados parcos e fisiologismo deslavado.

Se o cenário não sinaliza perda do favoritismo, tampouco vitória no primeiro turno.

Ética temporã. A Comissão de Ética Pública da Presidência da República vai examinar o caso do acúmulo de funções do ministro da Micro e Pequena Empresa, o vice-governa- dor de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, no próximo dia 20.

Duas semanas depois de oficializada a escolha. O natural seria que a questão tivesse sido analisada (e resolvida) antes da nomeação e não depois da enxurrada de questionamentos.

Para lembrar dois exemplos em que isso foi feito a tempo e a hora em governo do PT. Gilberto Gil só aceitou o ministério da Cultura mediante sinal verde da Comissão de Ética em relação às suas atividades artísticas. Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, passou a administração de seus bens para uma instituição financeira e se desfez das cotas de seu escritório de advocacia, em operação aprovada previamente pela Comissão.

A propósito: a presidente disse ontem que Afif é a pessoa certa no lugar certo. Pode até ser, mas do jeito errado.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Leituras da história - Denise Rothenburg

Há quem veja gênese semelhante à do mensalão no embate Anthony Garotinho versus Eduardo Cunha

No início da tarde de ontem, um grupo de petistas reunido num restaurante de Brasília analisava a sessão em que os líderes do PR, Anthony Garotinho, e do PMDB, Eduardo Cunha, ambos do Rio de Janeiro, protagonizaram um embate em que um acusou o outro de negociatas. Para os petistas, todos de São Paulo, a briga não passou de um jogo de cena para tentar derrubar a Medida Provisória 595, que pretende mudar a gestão dos portos brasileiros. “Os dois são cariocas e evangélicos. Está na cara que ali tem acordo”, comentava um deputado do PT ao deixar o restaurante.

O palpite petista poderia ter algum fundamento se os dois protagonistas da história estivessem um tom abaixo do que chegaram na noite de quarta-feira. Para refrescar a memória de alguns e situar quem não acompanhou o primeiro capítulo dessa novela, que promete ser longa, Garotinho chamou a medida provisória de “MP dos porcos”. Referia-se especialmente à emenda aglutinadora, que muda radicalmente o texto do governo, como um negócio que envolveu milhões. Prometeu entregar nomes quando for chamado ao Conselho de Ética. Ontem, reafirmou tudo e garantiu que essa briga está apenas começando.

Eduardo Cunha, por sua vez, sem citar nominalmente Garotinho, referiu-se ao líder do PR como detentor de “um histórico que parece mais punguista de praça: bate a carteira e grita pega ladrão”. O tempo esquentou. Por pouco, o frio Eduardo não chegou a trocar uns sopapos com o antigo aliado. O caso, agora, se não for para o Conselho de Ética — isso só ocorrerá se vários partidos decidirem brigar com Garotinho — vai parar na Corregedoria, a cargo do deputado Átila Lins (PSD-AM).

Enquanto isso, nos tempos de Corpus Christi…

Quem acompanha o dia a dia da Câmara e do Senado vê gênese semelhante entre esse episódio e outros embates históricos. No caso do mensalão, um vídeo em que um funcionário dos Correios aparecia recebendo R$ 3 mil virou um pedido de CPI protocolado na semana de Corpus Christi no ano que antecedeu a reeleição de Lula. A coisa foi num crescente porque o presidente do PTB, Roberto Jefferson, considerou que o chefe da Casa Civil, José Dirceu, armara a cena para enfraquecer os petebistas no processo de negociação com o governo. Todo mundo que acompanha um pouco de política sabe o desfecho da história. Não é demais lembrar que, naquela temporada, o então presidente Lula se viu obrigado a abrir as portas do governo ao PMDB para ampliar a base no Congresso e evitar problemas maiores.

O embate Garotinho versus Eduardo Cunha vem exatamente oito anos depois, perto de Corpus Christi, e com Dilma Rousseff escalada para concorrer à reeleição. A diferença é que, neste momento, até onde a vista alcança, o Planalto está fora dessa confusão. Afinal, a atual ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, embora seja a negociadora da MP 595, não tem nem de longe o poder que José Dirceu detinha dentro do PT. Mas não dá para deixar de mencionar que hoje é voz corrente no parlamento que a 595 não deixa claro o processo de concessão das áreas portuárias por licitação e ninguém descarta a hipótese de haver grupos beneficiados nessa remodelagem.

Também não dá para esquecer o jeitão dos personagens envolvidos na trama. Dirceu e Jefferson eram, à época, considerados polêmicos, cheios de vitalidade e coragem, como são hoje Eduardo Cunha e Anthony Garotinho. Talvez, assim como ocorreu no início do embate de 2005, tanto Cunha quanto Garotinho não queiram chegar às vias de fato. Mas podem acabar sendo levados a isso. Afinal, há momentos na política em que o sujeito sabe que vai parar no precipício, porém, um recuo pode representar uma derrota maior. Que o diga o ex-presidente do Senado Jader Barbalho em seu embate com Antonio Carlos Magalhães, em 2001, quando ambos terminaram no cadafalso, renunciando aos respectivos mandatos.

Quando a guerra envolve dois guerreiros, a briga promete ser longa, uma vez que ninguém recua. Os quatro personagens acima são prova disso. Até onde a vista alcança, nem Garotinho nem Eduardo Cunha se mostram dispostos a jogar as armas no chão e esquecer as palavras duras da sessão da noite de quarta-feira, reforçadas ontem. Os desdobramentos dirão se estamos diante de uma gênese do mensalão ou apenas uma crise sem importância, tão passageira quanto as nuvens de chuva que surgem por essa época em Brasília.

E nas residências oficiais…

Este fim de semana será crucial para tentar acertar os ponteiros entre PR e PMDB nos bastidores. Até agora, ninguém aposta um vintém nessa pacificação. Também é voz corrente no Congresso que a convocação para votar a MP 595 na segunda-feira é apenas pró-forma, uma maneira de o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, dar uma satisfação à presidente Dilma, irada pela não votação da MP. Se não for votada na segunda, e tudo indica que não será, a MP estará comprometida, uma vez que, na melhor das hipóteses, chegará ao Senado na véspera do prazo fatal. Se o embate entre Cunha e Garotinho se agravar, o vencimento da MP será um dos menores problemas do governo no Congresso. Pode apostar.

Fonte: Correio Braziliense

O crime da praia de Guaxuma - Maria Cristina Fernandes

O ex-deputado Augusto Farias costuma caminhar pela praia de Pajuçara, em Maceió, na companhia de um segurança. Não chama atenção nem é incomodado. Voltou aos jornais nesta semana como testemunha de defesa dos seguranças de seu irmão, Paulo César Farias, morto numa casa de praia em Maceió.

Na denúncia, o procurador não conseguiu apontar os autores intelectual e material do crime e levou ao banco dos réus do tribunal do júri quatro ex-seguranças acusados de omissão.

Os réus são policiais militares e participam do julgamento fardados. Dois deles ainda trabalham para a família Farias. Foram arrolados porque, estando na cena do crime, o viram e não agiram para evitá-lo ou não querem contar o que viram.

O que explica a indiferença relativa ao júri de PC Farias

Augusto Farias acumulou mandatos de deputado federal até a legislatura passada e, com eles, conseguiu foro privilegiado. É alvo de inquérito por trabalho escravo em fazenda de sua propriedade e foi indiciado pela CPI do Narcotráfico por formação de quadrilha.

O inquérito que o denunciava pela morte do irmão foi arquivado pelo então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, por falta de provas.

Impune há 17 anos, o assassinato de PC Farias em sua casa na praia de Guaxuma, em Maceió, deixou de ser assunto de mesa de bar na cidade há muito tempo e pouco interesse desperta no resto do país.

Ao longo destes anos, legistas, delegados, promotores, juízes e jornalistas debateram-se sobre a altura da namorada de PC Farias, encontrada morta na mesma cama, os vestígios deixados em suas mãos, a queima do colchão e a trajetória das balas que atingiram o empresário.

O principal legista a atestar a tese do suicídio foi desacreditado pela CPI do Narcotráfico. Dele se conheciam os relatórios favoráveis a policiais dos massacres do Carandiru e de Eldorado dos Carajás, mas a CPI foi além e descobriu entre seus principais clientes uma máfia de narcotraficantes.

O júri que se desenrola hoje em Maceió não chegará aos culpados, mas sua convocação já atesta o descrédito da tese do suicídio. Foi a partir da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, de negar recurso aos réus que se marcou o júri.

A indiferença em relação ao julgamento explica por que debates aparentemente tão díspares quanto o da violência ou do financiamento de campanha giram em círculos e pouco avançam.

Em 1996, quando ocorreu o crime, Alagoas tinha um índice de homicídios abaixo da média nacional. Hoje o Estado lidera as estatísticas. Mata-se, proporcionalmente, mais em Alagoas (66,8 homicídios por 100 mil habitantes) do que no Iraque (64,8) no auge da guerra. Não há conflito armado que ombreie com Maceió (100,7). O noticiário local dá conta de uma madrugada desta semana com nove assassinatos na região metropolitana.

A violência em Alagoas deriva do crack, como no resto do país. O que vincula a explosão da violência ao assassinato de PC Farias é a impunidade. A violência se expande num ambiente em que a população é dissuadida pelo poder do crime organizado a denunciar os crimes que a cercam. E não apenas em Alagoas.

A indiferença em relação ao que se passa no fórum do Barro Duro também prenuncia pouco avanço na discussão do financiamento de campanha. PC Farias comandou a máquina arrecadadora de uma das campanhas eleitorais mais fulminantes da história. O sucesso de sua missão nos gabinetes mais endinheirados do país financiou a ascensão do governador de um Estado com 1,4% do eleitorado nacional, filiado a um partido minúsculo, à Presidência da República.

O deputado federal alagoano Cleto Falcão, morto em 2011, chegou a relacionar a morte de PC Farias às sobras da campanha presidencial. Integrante da tropa de choque de Fernando Collor que depois romperia com o ex-presidente e votaria pelo impeachment, Falcão contou, em entrevista gravada, como funcionava a tabela de PC Farias: com US$ 1 milhão o empresário poderia ser ouvido. Com US$ 2 milhões, conseguiria opinar. Se o doador comparecesse com US$ 3 milhões, poderia indicar.

Das sobras saiu o Fiat Elba que ajudou a derrubar Collor, mas o grosso do dinheiro que teria ficado em mãos do empresário morto passou a ser alvo da cobiça do grupo apeado do poder. Com prisão decretada, PC Farias fugiu para o exterior, mas foi capturado na Tailândia e passou dois anos na cadeia. Estava preso quando a mulher morreu de um ataque cardíaco.

Elma Farias seria a primeira morte de cinco relacionadas ao grupo mais próximo do ex-presidente. Depois de Elma, morreram os irmãos de Collor, Pedro e Leopoldo, além de Falcão e do seu advogado, José Guilherme Vilela, assassinado junto com a mulher e a empregada da família em casa.

Há seis anos de volta à política como senador, Fernando Collor aliou-se ao governo petista e negocia uma chapa que lhe dê mais oito anos no cargo em 2014. Virou um personagem marginal na política e protagoniza gestos histriônicos como o de rasgar, nesta semana, em plena sessão no Senado, relatório do Dnit sobre a situação nas estradas.

Pouco mudou nas regras e, principalmente, na fiscalização das contribuições de campanhas eleitorais desde a morte do tesoureiro de Collor. A proposta de reforma política que está na praça não diz como o funcionamento público seria capaz de inibir o caixa 2 e, muito menos, a influência dessas doações ocultas nas políticas de governo.

O mesmo Joaquim Barbosa que convocou o júri do assassinato de Paulo César Farias presidiu o julgamento do mensalão, a maior chance já havida até hoje na política brasileira de se reformarem as relações entre o poder e seus financiadores.

Depois da guerra dos embargos estará encerrado o mensalão. E não há sinais de que a traficância de interesses no poder tenha passado por grande transformação. O fato de o financiamento privado do valerioduto ter ficado fora do julgamento pode explicar alguma coisa. Mas até a morte de PC Farias parece um crime mais fácil de ser elucidado do que este.

Fonte: Valor Econômico

Va Pensiero (Verdi, Nabucco) - Myung-Whun Chung

Esperança - Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.